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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Parte I- Laranja da Terra



Não me deixem fugir senão eu caio da pinguela
                 
Eu tinha mais ou menos três anos e meio e morávamos numa casa amarela perto da estrada na fazenda do Vovô Américo, meu avô materno, na Barra do Córrego Laranja da Terra, município de Iúna, no Espírito Santo. Quando meu pai nasceu, no mesmo córrego, era município de Lajinha, Minas Gerais. Meu avô sempre dizia que, maldita a hora em que o João Gomes, um senhor que morava na Padaria, saiu a cavalo, num dia chuvoso, arrecadando assinaturas para que o córrego passasse a pertencer ao Espírito Santo. É que ficava muito mais próximo a Lajinha do que a Iúna, local difícil para se chegar, com serras que separavam naturalmente a localidade da nova sede do município.
Meus pais tinham o seu próprio pedaço de terra, que consistia de uma plantação de café, um bananeiral, um pomar com todos os tipos de laranjas e uma variedade de frutas, além de uma horta no terreiro da casa, com verduras, couve, alface, taioba, serralha, almeirão e plantas medicinais, para fazer chazinhos.  E um livro de Homeopatia e, mais tarde, outro com o título de “As plantas curam” que ele usava para nos tratar quando ficávamos doentes.
Primeira casa dos meus pais Norival e Erandi

Na frente da casa, um pé de graxa, sempre-vivas e beijos, bons de estourar os balõezinhos de sementes.
Ainda posso sentir o gosto das mexericas enormes, plantadas no cafezal do grotão, do caldo de cana espremida na engenhoca perto da cachoeira do córrego e dos inhames que meu pai cozinhava num tambor de querozene para tratar dos porcos. Minha irmã Etelvina e eu enfiávamos os dedos nos inhames ainda meio quentes, e como eram gostosos mesmo sem sal ou qualquer tempero... Nos fundos da casa havia uma tulha, onde eram guardados os grãos, arroz, milho, feijão e cachos de bananas pendurados para madurar, para serem consumidos por nós, pelas galinhas e porcos também. Adorávamos espremer as bananas-ouro direto na boca.
Quase todas as vezes que o meu pai ía a Lajinha, a cidade mais próxima, sozinho ou conosco, comprava Toddy, aveia para fazer mingau, biscoitos Maria, rosca seca, que a gente comia molhando no café com leite ou na água doce,quando estava doente, e azeitonas. Eu era louca por azeitonas, que eu chamava de "frutinhas" . Minha mãe conta que, certa vez, quando era muito pequena, comi tantas azeitonas sem mastigar direito que, `a noite, tive uma grande dor de barriga. Na tentativa de diminuir os gases, meu pai fez uma massagem. Soltei um tiroteio de frutinhas nele. 
Ele sempre ajudava minha mãe em todas as tarefas da casa. No domingo de manhã, cortava nossas unhas e checava nossas orelhas antes de tomarmos banho e vestirmos os vestidos que minha mãe costurara para nós, alguns bordados e sempre engomados, para irmos para o culto na congregação.
Todas as manhãs, saía cedo para a lavoura de café, no morro depois do rio. Por volta das dez e meia, minha mãe pedia para que o chamássemos para vir almoçar. Nós gritávamos com toda a força "Pai...ê!!!!" E ele respondia da maneira que nunca vi ninguém mais responder: "Ê... eu..." Dali a pouco, estaria almoçando conosco, ele e minha mãe na mesa grande, nós na mesinha que ele havia feito, com três banquinhos de tamanhos diferentes, um para mim, um para Etelvina e outro para Aneci, uma garota que estava morando com a nossa família na época e ajudava minha mãe na casa, pois ela, além de costurar para fora, ensinava corte e costura. Eu achava interessante quando montavam os vestidinhos de papel.

Etelvina sempre foi uma criança muito esperta. Apesar de ser treze meses mais nova do que eu, prestava atenção a tudo o que estava acontecendo, até `a mudança do tempo. Certa vez, estava com jeito de chuva e ela falou pro meu pai "Ô pai, nós precisamos guardar essa lenha, porque vai chover."

Não muito longe da nossa casa amarela, na curva da estrada, perto da cachoeira do Córrego Laranja da Terra, havia uma pequena casa, a casa da cachoeira como chamávamos, de chão batido, cimentado com estrume de boi, as paredes pintadas com barro branco e desenhos coloridos, feitos de sumo de folhas e frutas, de diferentes matizes.  Nenhuma obra de arte, que eu por acaso encontre nos museus de Belas Artes, irá superar `aquele mural.
Seu Xavier, o morador já bem idoso,  estava sempre doente e minha mãe ía lá algumas vezes por semana, aplicar-lhe injeções. 
Minha mãe era uma costureira por profissão, mas uma espécie de enfermeira para as pessoas da fazenda, e eu gostava de ver a chama azul e sentir o cheiro do álcool queimando,  quando ela estava fervendo o aparelho de injeção.  Também gostava do café ralinho que a D. Santinha, esposa do Seu Xavier, dava pra gente beber.



De tempos em tempos, passava na estrada um caminhão do tipo baú, azul escuro, com letras grandes rosa e branco, o caminhão da Confiança, que vinha abastecer de balas e doces, a venda do Tio Gil. Algumas vezes, meu pai comprava vidros grandes de "ovinhos de garrincha", como ele chamava os amendoins torrados cobertos de chocolate, diretamente do caminhão. Certa vez, meu pai encontrou-se com o caminhão na estrada e comprou duas latas de biscoito decoradas, para mim e Etelvina, e pediu ao motorista que parasse lá em casa e fizesse a entrega . Estávamos brincando no tereiro, quando o caminhão parou e o homem nos entregou as latas, sem maiores explicações.  Ficamos radiantes e não podíamos acreditar no que estava acontecendo, tinha que ser um milagre. Corremos para dentro, para mostrar para a nossa mãe, os presentes que havíamos ganhado do "Homem da Confiança". Minha mãe não disse nada, pois também não sabia a origem das latas, mas não se preocupou. Não havíamos saído e alguma explicação haveria para o ocorrido.
Quando meu pai chegou, fomos contar-lhe o milagre e ele disse que havia pago por elas, o que nos deixou um pouco desapontadas.
Apelidamos nossas latas de biscoito de "baús" e, algum tempo depois, quando entramos para a escola, usávamos os nossos "bauzinhos", as latas, para colocar os objetos escolares. Anos mais tarde, depois que nossa irmã Clarinda nasceu e já tinha uns dois anos, meu pai perguntava se ela queria ir para a escola e ela respondia que não, pois "não tinha láspi e nem baú". 


Uma vez por ano ou mais, era tempo de fazer farinha, no galpão ao lado do armazém de guardar café, perto da venda do tio Gil. A família toda, meus pais, tios, tias, Vovó Leonina e uma turma de empregados, estariam ocupados em descascar, ralar e prensar mandiocas para fazer a farinha. Por meses ou pelo ano, teríamos farinha para fazer farofa, o polvilho para os biscoitos e brevidades, que eram assados todos os sábados no forno grande na varanda da fazenda do Vovô Américo. Durante as semanas em que a fazeção  de farinha estava acontecendo, a comida vinha da casa do vovô em bacias grandes; o arroz, o feijão, a carne, o angu e a verdura, cada qual num canto. Era uma verdadeira festa para nós, crianças.

Quase todos os dias, meus pais nos levavam `a casa do vovô e normalmente ficavam lá até tarde quando já estava escurecendo, para ouvir as notícias no rádio, ou simplesmente conversar. Na volta, meu pai carregava minha irmã  mais nova nas costas e eu ía andando segurada `a mão da minha mãe, que estava grávida da minha outra irmã. Mas, `as vezes, eu ficava com sono e queria colo também. Meu pai, então, me mostrava os vagalumes e me falava da cidade deles, cheia de luzes. Daquele momento em diante, eu ficava encantada observando a cidade dos vagalumes e caminhava animada até chegar em casa.
Adorava aquela vida. Era prosa e muito  mimada pelos meus pais, tios, tias, avós e primos. Toda  vez que vinha alguém da casa do vovô `a nossa casa, eu aproveitava para ir também e ficava lá até meus pais me buscarem.
Mas, um dia, decidi que já podia ir para lá sozinha. Peguei o trilho do cafezal e comecei minha jornada, até que cheguei ao córrego, que não era muito largo nem muito profundo, mas que tinha apenas uma tora com um lado lavrado que sevia de pinguela. Enquanto estava atravessando, perdi o equilíbrio e caí dentro d'água. Felizmente, além de não ser muito fundo, um empregado do meu pai, de nome Zico, estava por perto, ouviu meus gritos e veio me socorrer. Não me machuquei, mas fiquei com meu orgulho ferido. Estava toda molhada e com medo de que meus pais me repreendessem. (Não que eles nos batessem com frequência, mas me lembro de que uma vez minha mãe me bateu por algum motivo. Fui para atrás da tulha e comecei a chorar e a cantar um corinho da igreja ao mesmo tempo: "Oh, eu sou feliz...")
Então comecei a chorar, não um choro normal que eu choraria se não tivesse que explicar a minha travessura. Decidi me fazer de vítima e, quando cheguei em casa chorando copiosamente, disse aos meus pais; "Por favor, não me deixem fugir outra vez, senão eu caio da pinguela."
Eles me levaram para dentro, trocaram minhas roupas molhadas sem me dar nenhum esculacho, mas eu podia perceber que estavam se segurando para não rir. Anos depois ainda contavam  minha peripécia para os outros. Só aí eu podia rir também.

Família da vovó Etelvina (assentada). Em pé: Tio Astrogildo, meu pai (Norival),
 tio Nolmerindo, tio Ataídes, tio Osvaldo, tia Valmerinda,
tia Lilica (Maria) e tia Valmira
Logo acima da cachoeira, começavam as terras herdadas do meu avô paterno, Vovô Alvim, que falecera muito novo. Tio Osvaldo, irmão do meu pai, morava num sítio logo acima e tia Nair, a esposa dele, era uma mulher muito prendada, sabia cozinhar muito bem e tinha a casa mais organizada e limpa que já conheci. As pessoas diziam que, se alguém estivesse doente e precisasse de um grãozinho de poeira da casa dela para remédio, iria morrer, pois não iria encontrar. Tio Osvaldo, `as vezes parava lá em casa, quando vinha de Manhumirim  onde ía levar café, e nos dava balinhas. O próximo sítio era o da tia Valmerinda e tio José  Ruela.
Depois, subindo o morrinho, do lado direito, estava a casa da vovó Etelvina. Tia Lilica e os filhos moravam com ela e também mantinham tudo muito limpo e organizado. O casarão de dois andares, tinha um salão enorme no segundo andar, com bancos de madeira, um relógio de carrilhão e os quartos ao redor da sala, usados para visitas. Os quartos mais usados eram os do lado da escada que descia para a cozinha. A despensa no andar de baixo era enorme e sempre cheia. Não faltava o melado e a farinha de milho para a sobremesa, feita no monjolo, e o detalhe do qual mais me lembro é que o leite era fervido com uma pitada de sal. A escada do salão no andar de cima para a sala do primeiro andar, tinha umas manchas escuras, de quando o vovô Alvim matava bois e pendurava a carne para ser vendida. Nós tínhamos medo da escada, pois contavam que o filho do tio Astrogildo, João Alvim, havia caído daquela escada e, na minha cabeça, as marcas escuras eram do sangue do João Alvim, que morrera de doença não relacionada com o tombo. Tio Astrogildo e tia Otília moravam no lado esquerdo do córrego, tio Ataídes e tia Lili, próximo da vovó Etelvina, Tio Nolmerindo e tia Ilda no canto `a direita, perto do açude. 
Tia Valmira, irmã do meu pai, casada com o tio Raivil, primo da minha mãe, era a única que morava do outro lado, perto da Fazenda do Tio Lindolfo, irmão do vovô Américo e pai do tio Raivil. Passando pela estrada, eram uns três quilômetros, mas cortando pela lavoura no alto da pedreira, chegava-se em pouco  mais de uma hora de caminhada morro acima e depois morro abaixo. Lá havia as melhores jabuticabas que já comi e um biscoito de polvilho delicioso.
Na maioria das vezes, usávamos o caminho pela casa da tia Julica, irmã da Vovó Etelvina, e aproveitávamos para visitá-la. Algumas vezes, parávamos na casa do tio Eusláquio, irmão da Vovó Etelvina também. A outra irmã dela, tia Filhinha, morava bem perto da Vovó Etelvina, acima do açude do tio Nolmerindo, e íamos lá frequentemente também. 




                                  Mudança para a casa do Vovô Américo


Casa da Fazenda do Vovô Américo
A fazeção de farinha estava de vento em popa. Havia muitos jiraus de polvilho secando ao sol, brancos como a neve. Devia ser inverno, que naquela região montanhosa, atinge temperaturas baixas para o clima tropical brasileiro; mais ou menos quatro graus centígrados `a noite, porque uma noite, acordei com a voz do Zico, o empregado do meu pai que me tirara do córrego, batendo na janela e chamando a Aneci, pedindo as blusas de frio dos meus pais. Aneci era uma garota de mais ou menos treze anos de idade, que estava morando conosco e ajudava minha mãe nas tarefas domésticas. Achei muito estranho que meus pais não estivessem em casa. Aneci entregou as blusas para ele e mandou que eu fosse dormir novamente, sem me dar nenhuma explicação.
Na manhã seguinte, ainda com escuro,  meu pai chegou, explicando para nós que a Vovó Leonina havia morrido de repente, na noite anterior. Eu era muito chegada `a minha avó, de quem herdei o nome. "Ó meu Deus, como é que vou arranjar outra avó tão boa como a Vó Nina?", falei. Minha irmã Etelvina,  um ano mais nova do que eu, que recebera o nome da outra avó, e que parecia ter solução para tudo, depois de ter perguntado onde é que a vovó tinha ido e ter sido informada de que ela estava no céu, perguntou:"Por que a gente não leva um remédio pra  ela, lá no céu, pra ela sarar e ficar boa?"
Fiquei sabendo depois, que meus pais ainda estavam na cozinha na noite anterior, depois de nos colocarem na cama, quando ouviram os gritos da Tia Ilca "A mamãe morreu..."
Minha mãe (Erandi e vovó Leonina)
Vovó Leonina tinha apenas cinquenta anos, mas era um pouco obesa. Sentira uma friagem nos pés e pedira ao Vovô Américo para colocar mais cobertores e como isto não resolvera, Vovô mandara o Tio Jenus buscar folhas de laranja no quintal pra fazer um chá. Tio Jenus ainda estava lá fora quando ela faleceu. Foi nessa hora que a Tia Ilca começou a gritar.
Não me lembro muito do dia do enterro, exceto de que foi um dos piores dias da minha vida. A casa do vovô estava cheia de gente e por algum tempo, que pode ter sido apenas uns quinze minutos ou talvez meia hora, mas que para mim parece ter sido uma eternidade, fiquei perdida no meio daquela multidão, indo de um cômodo para o outro, sem encontrar nenhum parente ou conhecido.
O de que eu me lembro perfeitamente é da minha avó dentro do caixão no terreiro, ao lado da longa escada de cimento da porta da frente, o seu rosto sereno, como se estivesse dormindo e do culto em que cantaram os hinos do Cantor Cristão próprios para a ocasião.


Os dias que se seguiram foram muito difíceis para toda a família. Mudamo-nos para a casa do vovô; ele precisava de ajuda. Dos treze filhos, oito ainda eram solteiros, alguns vivendo em casa, outros no internato do Colégio Evangélico em Alto Jequitibá ou no Ginásio Rui Barbosa em Lajinha; o mais novo, Tio Filadelfo,  com apenas sete anos.
Ainda me lembro do vovô, homem alto, forte, careca e de olhos azuis, assentado no longo banco de madeira na sala, ouvindo o rádio e fumando o cigarro de palha que preparava com toda a paciência. Estava muito deprimido e algumas noites, acordávamos de madrugada com ele cantando "Passarinhos, belas flores, querem me encantar... oh, vão celestes explendores... eu quero já voar", que fala da saudade de Jesus e vontade de ir para o céu.
Pode soar muito estranho, mas para mim, de certa forma, apesar de sentir saudades da vovó, a vida ficou ainda melhor. Eu estava morando na casa do vovô, junto com tios e tias...


A fazenda produzia de tudo, milho, arroz, feijão, mas o principal produto era o café, que meus tios despolpavam para dar melhor classificação. A princípio, vendiam o café para o Alvino, como chamavam o Seu Alvino Heringer, sobrinho do vovô Américo,  dono da fazenda vizinha. Mas depois passaram a comprar café também e o tio Gil tinha um grande armazém onde era feita a catação, para retirar impurezas e os grãos imperfeitos, operação que envolvia muitas pessoas, a maioria mulheres, em bancas montadas dentro da grande tulha. Eu adorava ajudar na catação.
A semana era movimentada  na fazenda. A comida feita num fogão a palha de café; fogo intenso mas com pouca fumaça. A moega de madeira no lado de fora da cozinha, era conectada ao fogão por um tubo de metal com um registro, aberto de acordo com a necessidade. Por dentro do fogão passavam os canos da serpentina que esquentava a água do chuveiro. O forninho do lado do fogão quase não era utilizado para assar; o mais usado era o grande forno `a lenha da varanda.  Mas no inverno, assentávamos em cadeiras na beira do fogão e colocávamos  os pés enrolados num cobertor dentro dele, para nos aquecermos.
Tio Gil, vovô Américo, minha mãe (Erandi), tio Joassi,
 tia Edil, tio Joanilson, tia Elma e tio Filadelfo
Quando era tempo de fazer farinha, família e empregados estariam ocupados em descascar e ralar mandiocas e prensar a massa para extrair o polvilho, e torrar a polpa num forno grande, na realidade, uma tacha grande e rasa, com dois rodinhos de madeira que duas pessoas mechiam sem parar, uma de um lado e a outra do outro, para não queimar o fundo.
Uma vez por semana, minhas tias e uma empregada de nome Ilda contavam casos e riam enquanto lavavam roupa num enorme tanque de cimento. As roupas eram postas de molho, ensaboadas, esfregadas `a mão e postas num taxo de água para ferver, exceto pelas domingueiras ou as que saíam tinta. A seguir eram colocadas para corar num coradouro de capim cidreira na beira do terreiro; o sol tirava as manchas que restavam. Depois, batidas no batedouro, enxaguadas e postas para secar no varal.  As camisetas e cuecas dos tios que estavam no internato eram marcadas com o nome, usando um carimbo esculpido na semente de abacate, a nódoa funcionando como tinta permanente. `As vezes se usava água sanitária para as roupas brancas e, uma certa vez, meu tio Filadelfo tinha ido a Lajinha com o tio Gil e minha mãe encomendou uma garrafinha. Chegaram tarde e ele dormira na casa do tio Gil. Pela manhã quando vimos que o tio Filadelfo estava vindo na estrada, corremos para encontrar com ele. Ele estava caminhando, balançando a garrafinha escura na mão, enquanto contava como tinha sido a viagem. De repente, talvez por causa do movimento e dos gases formados dentro da garrafa, ela perdeu o fundo, derramando o líquido em cima de mim, que estava na sua frente. Tio Filadelfo ficou todo desapontado e corremos até em casa. O vestido xadrez de verde que eu estava usando começou a desbotar e a se rasgar em poucos minutos. Minha mãe me levou para o banheiro e me colocou debaixo do chuveiro, lavando com todo tipo de sabão que tinha em casa. Mas, por dias, eu fiquei com o cheiro de água sanitária que nenhum perfume conseguia eliminar.
A passação era um ritual noturno, e, `as vezes, deixavam que eu e minha irmã Etelvina passássemos as roupas menores.
Meu tio Filadelfo, apenas quatro anos mais velho do que eu, minha irmã  Etelvina e eu, gostávamos de cantar hinos do Cantor Cristão durante estas noites, fazer jogos de barbante, jogar belisca, fazer gaita de papel no pente e outras brincadeiras. Todas as noites, também, minha mãe (Erandi) dirigia o culto doméstico, líamos a Bíblia, o “Manancial”, falávamos versículos e orávamos antes de dormir. E, `as vezes, tia Ilca, tio João ou tia Elma, tocavam o órgão e cantávamos acompanhando. Eu gostava de cantar “Cristo é quem nos manda como luz brilhar” e caprichava no “tu no teu cantinho e eu no meu”. `As vezes, o tio João, com a sua possante voz de tenor, iria tocar o órgão e fazer um solo “Jerusalém... Jerusalém”.
Vovô Américo lavava os pés na bacia de cobre, esfregando um pé no outro; não tomava banho todos os dias, mas também não era necessário pois não fazia muito exercício.
Quando o grande relógio de carrilhão da sala cantava “Hora certa, hora certa...” e  dava sete badaladas, era a “Hora do Brasil” no rádio (depois mudou para “Voz do Brasil”) que começava com a ópera “O Guarani” (Tan...tan...tararan...tan...) e mantinha todos informados sobre os últimos acontecimentos mundiais, uma rotina solene que meu avô não perdia por nada. Na parede, o quadro dos dois caminhos, comuns em muitas outras casas, além de outros dois, um com a foto do vovô João Carlos Heringer, pai do vovô Américo e o outro com os pais da vovó Leonina, vovô Filadelfo e vovó Arminda. 
Minha mãe costurava para a família toda e para outras pessoas também. Nos dias de chuva, fazia roupas para as nossas bonecas e dizia que estava costurando para as netas. Ensinava a gente a pedalar a máquina Singer, que a princípio era difícil fazer  andar só para a frente. Para praticar, ela nos deixava costurar papel, sem linha na agulha. Quando ficamos maiores, ela nos ensinou a fazer roupas para as bonecas. Etelvina, mais nova do que eu, fazia os vestidinhos com detalhes, bolsos, golas e modelos complicados; eu fazia os meus o  mais simples possível. Aliás, ela sempre foi alerta e cuidadosa com tudo. Certa vez, meu pai foi ao Rio de Janeiro e comprou uma boneca enorme para ela e um boneco para mim. O meu chamava-se Gabriel. A dela, eu nem me lembro, pois durou pouco. A boneca era de papelão e ela deu-lhe um banho caprichado que dissolveu-a todinha. Mas mesmo os nossos bebezinhos de borracha ganharam todo o cuidado dela. Cortou as unhas (dedos) das bonecas.


No dia de matar capado, o dia começava cedo. Etelvina, eu e tio Filadelfo, descascávamos bastante alho. Meu pai (Norival) depois de dar uma machadada com a parte não cortante na cabeça do porco, levantava a pata dianteira do animal e perfurava com a faca na altura do  coração. Depois cobria-o com palha de milho e ateava fogo, tirava água fervente do tacho e ía entornando sobre o bicho e, com uma faca bem afiada, raspava a pele eliminando pelos que houvessem resistido ao fogo. Um corte na barriga e retirava os órgãos internos. Minha mãe e minhas tias, além da Ilda, iriam cozinhar, fritar a carne, fazer linguiça e chouriço de mussela e de sangue, rechear o bucho...  E o cheirinho era irresistível. Eu gostava de comer o miolo, pois diziam que era bom para o cérebro também. A carne frita era colocada em latas de querozene limpas, junto com a gordura, e podia ser consumida por muito tempo sem que estragasse. O sabão preto, usado para lavar a roupa, era feito com  "diquada", o produto de água passada pela cinza num barrileiro, e restos de torresmo do qual se havia espremido a gordura e outras partes do porco que não serviam para comer.
Não me lembro se a cozinha da fazenda era de chão batido quando nos mudamos para lá, mas sei que num canto da cozinha, onde ficava o filtro, houve uma época em que se abriu um buraco que nós chamávamos de Japão. Se cavássemos um pouco mais, chegaríamos do outro lado do mundo...
O quintal da fazenda tinha muita laranja e manga, além do pomar perto da venda com aquelas jabuticabas pretinhas, e as mexericas enormes do grotão... Quando chegava a época das goiabas, o movimento era grande. Colher, limpar, cortar, cozinhar, moer ou passar na peneira e finalmente secar no tacho até chegar `a consistência de colocar nas  caixas  retangulares de madeira, que conservava o ano todo.  Goiabada em pedaço, calda ou a cascão comida com queijo em pedaço ou ralado, que sobremesa gostosa! Os queijos eram feitos em formas redondas de madeira e depois enrolados em panos de saco e colocados numa tábua na parte de cima da janela do lado de fora da cozinha para secar. Todos os dias, eram retirados para serem esfregados com sabugo, lavados e colocados novamente para curar até o ponto desejado.
Na colheita do milho, descascar, moer o milho verde na máquina de moer carne, passar na peneira para tirar a bucha e fazer pamonha e papa (ou mingau de milho verde). E algumas das espigas com seus cabelinhos ruivos, viravam nossas bonecas também.
Quando chovia o bastante para encher a vargem, Vovô Américo pegava a “Flaubert” e, com boa pontaria, atirava nas traíras, sem perder nem um tiro. Frango para o almoço? Havia duas opções: pedir ao vovô para matar com tiro (uma vez matou dois com um tiro só) ou mostrar o frango desejado para o Campeiro, o cachorro preto do tio Filadelfo, que o trazia sem machucar.
Certa vez, o campeiro fugiu. Depois de vários dias, alguém falou para o meu pai que o havia visto em Crisciúma, um córrego a mais ou menos sete quilômetros de distância. Meu pai foi lá buscá-lo. Para improvisar uma coleira, usou  embira de bananeira trançada, amarrada num pedaço de pau e o trouxe para casa. Tio Filadelfo ficou muito feliz.
Lembro-me de que uma vez ele falou pra minha mãe: "Erandi, você deve ser uma pessoa muito feliz, não é?" Ela respondeu que sim e ele complementou: "O Norival é muito bom pra você."
Depois que o Campeiro morreu de velhice, tio Filadelfo teve um cachorro castanho chamado Rojão, que o seguia onde ele fosse.
Certa vez, minha mãe foi para um congresso das senhoras na igreja de Chalé. Deixou a Etelvina e eu na casa da tia Lilica, irmã do meu pai. Tio Filadelfo ficou com o vovô. Uma tarde, ele apareceu na casa da tia Lilica. Na verdade, não na casa, mas no terreiro, atrás da tulha, perto da estrada. Tinha os olhos vermelhos e parecia ter chorado. Perguntei-lhe o que havia acontecido e ele simplesmente me disse, entre soluços "Aquele veado... ele viu o cachorro sim".
Um homem chamado Cornélio, que tinha uma máquina de limpar café havia atropelado e matado o Rojão. Tentei consolá-lo e convencê-lo de que teria sido um acidente, mas ele dizia que não. Comecei a chorar junto com ele. Tentei convencê-lo  a entrar na casa da tia Lilica, mas ele não quis. Ficamos assentados os dois por um bom tempo e depois ele foi embora.
Nos três dias em que eu e Etelvina ficamos na casa da tia Lilica, eu aprendi a andar de bicicleta, uma bicicletinha de criança do meu primo Ailton. Fiquei tão excitada com a minha nova habilidade que, quando minha mãe apontou lá no morro, vindo a pé, a uns quinhentos metros de distância, de onde se via a Serra do Caparaó, onde fica o Pico da Bandeira, eu a vi e comecei a gritar "Ô mãe, eu aprendi a andar de bicicleta". Ela não estava entendendo, e eu repetia mais alto: "Eu aprendi a andar de bicicleta".
Quando chegamos em casa, tio Filadelfo já estava melhor.


No dia em que Etelvina e eu voltamos de Manhumirim trazendo caixinhas com brincos, uma meia lua de ouro com um rubi na parte inferior mais larga,  estávamos tão excitadas que não pudemos nem mudar de roupa antes que minha mãe furasse nossas orelhas. Ela, que era a enfermeira oficial do córrego e tinha prática no ofício, pegou uma cortiça, colocou na parte posterior de cada orelha, desinfetou uma agulha e furou com mão firme. Doeu bastante, mas não choramos nem demos sinal de que havia doído.


Pouco tempo depois que a vovó Leonina faleceu, fomos a Itabira, no  Norte (do Rio Doce) visitar os parentes. Vovô Filadelfo, meu bisavô, pai da vovó Leonina, tio Reginaldo, irmão dela, tio Adiles e tia Elzina, tio Joel e tia Geni, tio Jeronil e tia Adenair.
Fomos de ônibus e voltamos com o Dr. Elói Werner, sobrinho do meu avô e advogado que estava cuidando do inventário da vovó Leonina. Não sei se todas, mas pelo menos algumas das terras onde moravam os irmãos da minha mãe em Itabira, haviam sido compradas pelo vovô Américo, dessa forma, herdaram lá e não em Laranja da Terra como os demais.
Dr. Elói tinha uma rural e fizemos uma viagem muito agradável com ele, o tio Joanilson também conosco.
Quando paramos em Caratinga, ele, que morava em Manhuaçu, não disse nada ao meu pai, mas foi a um telefone público e ligou para a esposa, avisando que estávamos com ele.
Ao chegarmos em Manhuaçu, já tarde da noite, meu pai pediu-lhe para nos deixar no Hotel Zapalá, mas ele disse que iríamos para a casa dele. Tio Joanilson dormiria na casa da irmã dele.
D. Edith, a esposa do Dr. Eloi, estava com o jantar preparado e as camas arrumadas, esperando por nós. No dia seguinte, ainda foi mostrar os vestidos das filhas dela para minha mãe, que não perdia a oportunidade de pegar um novo modelo ou o “risco” para um bordado.
Tio Joanilson, entretanto, dormira com fome, pois na casa da prima onde dormiu, não foram avisados ou não sabiam que ele estava sem jantar `aquela hora da noite.
Meu pai perguntou a ele por que não havia falado nada, pedido algo para comer, mas ele, adolescente e tímido, não o faria. E o fato de ser adolescente talvez tenha contribuído para que a fome fosse maior.




Etelvina, Clarinda e eu (Leonina)
Quando minha irmã Clarinda nasceu em 6 de janeiro de 1957,   poucos dias antes de eu fazer quatro anos, foi uma alegria geral e uma resposta aos pedidos que eu e Etelvina fazíamos toda vez que passava um avião no céu "Ô avião, traz um neném para nós", um costume das crianças daquelas bandas, na época. Etelvina tinha menos de três anos e queria saber onde estava o outro neném, pois havia passado uma mulher com crianças gêmeas lá em casa poucos dias antes e ela presumiu que todos os bebês viessem em duplas. Meus pais haviam escolhido o nome de Raquel para ela, mas como semanas antes uma prima da minha mãe, Carmelita, havia tido uma Raquel, decidiu-se por Diva, um nome curto e fácil e de uma vizinha da qual gostavam. Eu interferi dizendo que "Diva não, Diva é feio".  Deixaram a menina sem nome por algum tempo,  na esperança de que eu mudasse de idéia.  Depois de vários dias, meu pai levantou cedo, poliu o F6, um Ford azul que precisava de manícula para pegar, engraxou os sapatos, raspou a barba e aparou o bigode e estava pronto para sair para Pequiá, o distrito mais próximo, para registrar o bebê. Falou baixo para minha mãe, mas de uma forma a me testar sobre o nome. "Ela acaba se acostumando..." Eu ouvi e comecei a minha ladainha novamente "Diva não, Diva é feio..." Como tudo estava preparado para o meu pai sair e o nome Raquel estava fora de cogitação, pensou um pouco e, lembrando-se do nome de uma prima dele que morava no Estado do Rio e nunca conhecemos, me perguntou "E Clarinda, você gosta?" "Qualquer nome",  respondi; "mas Diva não".  Perguntou `a minha mãe se ela gostava do nome e ela disse que sim. Poderiam ter colocado Raquel, pois Carmelita se mudou e, se vimos a Raquel, foram apenas umas duas vezes.


Clarinda se tornou o xodó da casa, gordinha e rechonchuda e tinha o apelido de “Lindinha”. Tio Jenus lhe ensinava a cantar e a dançar umas musiquinhas apimentadas "Dançá agarradinho é bom, namorá agarradinho é bom... Fico todo mole-mole, todo sujo de baton..." e "Eu tava na peneira, eu tava peneirando... Eu tava no namoro, eu tava namorando..."  Era muito engraçadinha. Lembro-me de uma vez em que alguém estava viajando para Itabira e ela disse que era para dar um abraço no tio jenoril (Jeronil), tio Zé Rinaldo (Reginaldo) e em todo bichinho de orelha..."
Quando passávamos em qualquer ponto mais alto da estrada montanhosa da região e dava para ver as encadeadas montanhas azuis do Caparaó, ela dizia:"Olha lá o Macaraó".
Clarinda era muito mimada por todos, era o nosso bebê. Além disto, tinha bronquite asmática e por dias a fio ficava doente. Etelvina, apesar de pequenininha, cuidava dela, dava  banhos e contava histórias para ela. Só que ela tinha a personalidade muito forte e quando queria alguma coisa, como o balanço que tínhamos no pé de goiaba no terreiro, não pedia, simplesmente tínhamos que sair e deixar para ela imediatamente. Senão, eram mordidas e tapas, que não revidávamos. Uma vez, eu estava no balanço e me recusei a sair. Ela, então, subiu no pé de goiaba e quando vi, estava sendo molhada do xixi dela. Até que um dia,  tia Edil me disse "Da próxima vez que a Clarinda te bater ou morder e você não fizer nada, vou te bater também". Clarinda nunca mais me bateu ou mordeu.


As três sobrinhas com tio Filadelfo
Não era tradição para nós, comemorar aniversários. Possivelmente porque havia sempre tanta gente na fazenda que o dia-a-dia já era uma festa. Além disto, a ênfase era dada a alimentar tantas pessoas quantas fosse possível e não gastar com festas. Também, ninguém na casa era especialista em confeitar bolos, e, se fôssemos comemorar todos os aniversários com festa, provavelmente haveria uma ou duas festas por semana.  Quando completei seis anos, entretanto, lembro-me de que houve um culto de oração lá em casa, com café com leite e broa, seguido do "Parabéns pra você". E o resultado foi ótimo. Ganhei algumas notas de um cruzeiro e uma lata de Pó de Arroz Lady (que se pronuncia ''lêide", mas que pronunciávamos "ladi" mesmo).


Numa época, minha mãe trouxe uma filha de uma prima dela, sobrinha-neta da vovó Leonina, Marta, que estava noiva, para a nossa casa e estava fazendo todo o enxoval de casamento dela. O noivo se chamava Mário.
Num dia em que faltou água na casa do vovô, possivelmente porque os animais haviam arrebentado os canos ou coisa assim, tia Edil, tia Elma e Marta foram lavar roupas no rio. O dia estava quente e elas começaram a brincar de jogar água uma na outra, até que ficaram todas molhadas.
Quando, `a tardinha, o noivo, Mário, chegou lá em casa, Etelvina foi correndo contar pra ele que a Marta havia tomado banho no rio.
O casamento foi na casa da Gessi do Ademar, que também era prima da Marta.
 
A vida ficou ainda mais divertida com a chegada do Seu Manuel Beca, caixeiro da venda do Tio Gil, que tinha uma família enorme. A esposa,  D. Lídia, os filhos Áurea, Adelina, Adenilce, Abel, Alda, Alcali e Natanael, na época. Fazíamos casinhas de galhos de assapê, amarradas com a fibra do mesmo arbusto, com janelas, portas e telhado. E gangorras de imbaúba, um tronco comprido, anelado e fino, como de palmito. Um furo no meio do tronco, que era colocado de boca para baixo em cima de um toco de madeira  de ponta afilada de mais ou menos um metro, que enterrávamos no chão, formando uma balança. O mesmo número de crianças agarradas de cada lado empurrando para pegar embalagem e depois montando em cima do tronco e a  gangorra estava rodando sh...sh... Uma vez caí da gangorra que bateu na minha cabeça. Vi tudo escuro, mas fiquei bem em seguida.
Alda Beca era a minha amiga inseparável e quando a mãe dela mandava o Abel ir chamá-la lá em casa, eu a escondia na tulha de palha de café e ficava lá, como se não tivesse nem idéia de onde a Alda andava. Não gostava do Abel, principalmente porque minha tia Elma dizia que eu iria me casar com ele.


Não sei porque, mas houve um tempo em que não havia escola próximo `a fazenda, ou não havia professora, não sei bem. Só me lembro de que a Adelina, filha do Seu Manoel Beca deu aulas particulares para nós e os filhos do Tio Gil, na sala da casa dele.  Aprendi a ler e escrever com ela e ainda me lembro da alegria de saber decifrar o que estava escrito em livros. Lia tudo, as revistas "Jóias de Cristo", da Escola Dominical, a revista Almanaque, o dicionário Lello Ilustrado do meu pai e os livretos de propaganda do Biotônico Fontoura, com a história do Jeca Tatu. Todos na família, magricelas, anêmicos... Depois do Biotônico, ficam saudáveis, bem vestidos e calçados. Inclusive os porcos e galinhas na fazenda  passam a usar  sapatos.
Depois comecei a ir `a escola regular, que ocupava a maior parte do dia, porque ficava longe.   Na Fazenda dos Braga, a uns dois quilômetros de pasto, uma matinha e o grotão do tio Gil com a plantação de milho e feijão, um trilho bem a pique para subir e mais a pique ainda para descer, no meio da lavoura de café. Na volta cansados, a subida a pique... Tio Joanilson, antes de ir também para o internato em Lajinha, costumava amarrar a blusa de frio na cintura dele, a minha ou da Etelvina na cintura da gente e, amarrando as duas mangas, nos puxava morro acima.  Minha irmã Etelvina era magricela e, `as vezes, tio Joanilson a deitava no pescoço dele e pedia para ela ficar esticadinha. Carregava-a atravessada no pescoço como se fosse um cabo de vassoura. Minha mãe preparava a merenda, uma farofa de arroz, ovos e couve com farinha, colocada numa latinha que ía no bolsinho de fora do embornal de livros, costurado por ela.  De vez em quando, dávamos a volta por um caminho mais longo, pelo Tinguaciba, para que o tio Joanilson acompanhasse a namoradina, Zulma, filha de uma prima da minha mãe, Zulina, e neta do Seu Vertulino, até `a casa dela.




A escola consistia de um cômodo grande, onde uma professora excelente e pessoa adorável, D. Arlete Vieira, que vinha de Pequiá todos os dias, dava aulas para uma turma de quase quarenta alunos de primeira `a quarta série.  ."Passava deveres para um grupo e depois para outro e assim por diante. Nem sempre dava conta de manter todos ocupados. Eu gostava destes intervalos em que eu não tinha  nada para fazer. Achava um lugar escondido num canto da sala onde o Alcione, filho da tia Valmerinda, num tom bem baixinho, lia histórias para mim.   Eu era ótima em linguagem, mas detestava matemática.
"Vovô viu a uva", na Cartilha da Infância, e um livro de histórias do qual não me lembro o nome, mas que tinha, entre outras, a fábula do "Bicho Folharal", a história de uma raposa que queria beber água, mas estava com medo da onça... Passou mel no corpo e deitou-se nas folhas secas, que ficaram coladas no seu corpo. Ao chegar `a fonte, a onça lhe perguntou que bicho era, e ela responde: "Eu sou o Bicho Folharal". Só que a água lava o mel e as folhas começam a cair... Além da tabuada, que eu detestava. 


Depois que o tio Joanilson foi para o internato, tio Filadelfo passou a ser o nosso líder. Ceta vez, num dia em que os filhos do tio Gil não foram `a escola, resolvemos matar aula. Ficamos no grotão de manhã até `as onze e meia mais ou menos, simplesmente matando o tempo, tio Filadelfo esculpindo alguma coisa no barranco com o canivete. Houve um hora em que começou a chover e nos escondemos numa cabana feita para guardar o feijão colhido. Passado o tempo da aula, voltamos para casa. Só que um rapaz dos Braga havia passado na estrada e nos visto e quando chegamos em casa, todos já sabiam da nossa aventura. Meus pais não nos puniram, tampouco o vovô puniu o tio Filadelfo. Apenas nos disseram que aquela não era uma boa atitude e não deveríamos repetí-la.
No ano seguinte, D. Arlete foi lecionar na escola que abriram na fazenda do pai dela, Seu Joãozinho Vieira, em Pequiá. Uma professora recém-formada, de Guaçuí, veio lecionar na nossa escola. Calculo que não sabia nada sobre a vida na roça, pois, certa vez,  levou-nos para um piquenique onde encontraríamos com a escola da D. Arlete, nossa ex-professora, num lugar chamado Profunda, a uns três quilômetros da nossa escola. Colocou-nos em fila e tivemos que caminhar um atrás do outro como se fôssemos um pelotão do Exército. Não estávamos acostumados com fila de espécie alguma, pois na nossa escola nem desfile de Sete de Setembro havia. E, quando alguns alunos começaram a pedir pra sair da fila para irem ao banheiro, ou melhor, ao mato, ela disse que estávamos querendo comer a merenda antes do piquenique.
Não me lembro se passamos por alguém no caminho, ou se alguém perguntou onde estávamos indo. Mas, caso tenhamos passado, deve ter parecido estranho ver um grupo de crianças indo para um piquenique com aquelas caras tristes, como se fosse um pelotão de execução. A maioria de nós caminhava em passos pequenos, com as pernas apertadas uma contra a outra para evitar que o xixi saísse.
A certa altura, não aguentei mais, abri as pernas e simplesmente fiz xixi na calça. Tio Filadelfo, sendo apenas alguns anos mais velho do que eu, mas um defensor ferrenho dos sobrinhos, vasculhou todo o seu repertório de palavras feias para xingar a professora. "Feda..." Naquele momento, a professora se deu conta de que estava errada e não fez nada contra ele, Simplesmente, mandou que o resto da turma, meninos para um lado e meninas para o outro,  fosse procurar um matinho para aliviar a bexiga. Para mim, entretanto, era tarde demais. Eu e minha irmã Etelvina estávamos usando vestidos novos, estampados de roxo e branco, com gola marinheiro, que minha mãe fizera para a ocasião. Eu estava com a calcinha molhada e fedendo a xixi.
Quando chegamos ao local do piquenique, Dona Arlete estava chegando com a turma dela. Traziam folhas de palmeiras nas mãos e cantavam "Salve lindo pendão da esperança...", o Hino `a Bandeira. Nós estávamos invejosos e ao mesmo tempo tristes pelo que tínhamos perdido, nossa querida Dona Arlete.
No caminho de volta, nossa professora resolveu passar por um caminho diferente, por dentro da mata do tio Gil no Tinguaciba, para tirar fotografias. Tio Filadelfo não quis acompanhá-la. Voltamos direto para casa.
Não demorou muito e o ano letivo terminou e aquela professora retornou para Guaçuí e não voltou no ano seguinte. A maior parte da minha infância, eu tive raiva dela. Depois vim a entender que ela estava tendo tanta dificuldade de adaptação quanto nós. Era uma professora novata, que veio lecionar numa fazenda, tendo que comer uma comida com a qual não estava acostumada, sofrendo saudades da família, dos amigos e da vida da cidade.


Fora a escola,  nossa maior responsabilidade como crianças,  além de pequenas obrigações como varrer o terreiro  que era dividido em partes para cada um (Etelvina e eu dividíamos a parte debaixo do assoalho da casa, que era alto),  era brincar com o os primos,  Edenilza, Dalva e Gerval e outras crianças da fazenda. Na matinha nos fundos da casa do tio Gil, agarrados aos cipós, voávamos, por alguns metros. Para a cozinhadinha oficial com supervisão de adultos, na casa vazia onde o Zico e a Biró haviam morado, macarrão com as rolinhas que o tio Filadelfo matava com atiradeira e pelotas de barro. E latas vazias para cozinhar ovinhos miniatura, de galinhas velhas, no fogãozinho clandestino de tijolos que meu pai não permitia, pois tinha medo de que nos queimássemos, mas que o tio Filadelfo fazia assim mesmo para nós, debaixo do assoalho alto da casa ou na beira do rio.
Descer de canoa de palmeira de coquinho pasto abaixo, quebrar coquinhos no toco que servia de escada para o quarto do tio Jenus, do lado direito da casa e que dava para o terreiro, caçar casas de aranha no barranco, umas construções interessantes, uns tubos parecidos com papelão com tampa, e tirar cera de uma abelha pequenininha que fazia uns tuneizinhos amarelos, rendados, na porteira que dividia o terreiro do pasto. O broto de capim tinha um gostinho adocicado e também servia pra fazer um assobio...
De vez em quando, eu e Etelvina dormíamos na casa do tio Gil. Edenilza e Dalva, Etelvina e eu, atravessadas numa cama de casal, tampávamos nossas cabeças com o cobertor e ficávamos imaginando coisas fascinantes que estávamos vendo. O quarto escuro e o cobertor faziam com que nossos olhos criassem cidades iluminadas e outras imagens que desejássemos. 


Quando eu tinha uns cinco anos, ganhei um velocípede de presente da Marli, minha prima, filha da tia Valmira. Ela era uns dois anos mais velha do que eu e já não usava a condução. Com um assento de madeira e um ajuste de acordo com o crescimento do motorista, o velocípede foi uma grande novidade para nós. Tio Joel veio com a família, de Itabira, nos visitar e nós, junto com as crianças dele, tanto usamos o velocípede que acabou por cortar o pedal.


 Na fazenda havia um cavalo castanho, do qual não me lembro o nome e um burro branco, o Soberbo, que puxava a carroça. Soberbo era forte, mas `as vezes empacava e empinava. Certa vez,  Etelvina e eu estávamos na carroça com o tio Joanilson, quando Soberbo teve uma de suas crises e a carroça virou. Etelvina quebrou a clavícula. Sentiu dores o dia todo. Meu pai não estava em casa e quando chegou, perguntou a ela onde estava doendo. Ela apontou a clavícula e ele, ao passar a mão, notou que os osso estava fora do lugar. Foi apertando forte até que ouviu um grande estalo. A princípio, pensou que havia feito algo errado e que acabara de quebrar-lhe a clavícula, mas imediatamente, ela parou de sentir dor. O osso havia voltado ao lugar.


Quase sempre havia visitas, colegas de internato dos tios, que vinham nas férias, o pastor ou  um rapaz chamado Adevalde, que vinha pregar na congregação, que funcionava na sala da casa ligada `a venda do tio Gil.
Pastor Ambrósio era nosso favorito. Sempre pensei que foi ele quem celebrou o batismo do meu pai e da Tia Edil no mesmo dia. Mas pude ver pelo certificado de batismo do meu pai que foi um pastor chamado Enoque Balbino Lima, do qual me lembro do nome, mas não da pessoa. Eu ainda era pequena e chorei pois achei que ele os estava afogando. 
Pastor Ambrósio era muito bom e bastante liberal. Uma vez, deixou que experimentássemos o suco de uva que estava preparando para servir como vinho na ceia, normalmente oferecido somente para os adultos "membros de uma igreja batista da mesma fé e ordem”. Um idealista e grande benfeitor, fundou o Ginásio Rui Barbosa em Lajinha e o internato, para onde trazia estudantes cujas famílias não podiam pagar pelos estudos. 
`As vezes, visitávamos a igreja-sede, em Lajinha e lembro-me de ter tomado a primeira vitamina de banana, feita pela D. Aurizé, esposa do Pr. Ambrósio, uma iguaria e tanto para nós que nem conhecíamos liquidificador. Depois disto, passamos a fazer batida lá em casa. Amassávamos a fruta (abacate, por exemplo), misturávamos com  o leite e o açúcar, colocávamos numa garrafa e sacudíamos bastante. Para gelar, deixávamos a garrafa fechada a noite toda na caixa d’água que ficava no morrinho do lado de cima da casa. Válida a tentativa…
Casa da venda do tio Gil (anos mais tarde, 
quando já não existia a venda)
Adelina, já crescida, está na foto com
 o irmão Abel e os filhos
Irmão Altivo Maria, diretor de música, ensaiava o coral. “Jus... Jus... Justo és Senhor... nos teus santos caminhos...” (cada voz começando num momento diferente)… o melhor coral do mundo.
No Natal, o programa num palco construído do lado de fora da venda; paredes improvisadas feitas com lençóis brancos com flores naturais pregadas com alfinetes. Tia Ilca tocava o harmônio trazido da casa do vovô.  As “Belemitas”, na peça, íam visitar o menino Jesus…E “O sineiro da aldeia, todo alegre e festival, badala o sino, badala, anunciando o Natal...” eu declamava. A árvore de verdade, mas não um pinheiro, enfeitada com bolas de natal, sacos de papel crepon cheios de doce de leite, mamão ralado e outros. Meu primo Alcione, filho da tia Valmerinda, irmã do meu pai, que não havia visto a preparação da árvore, pediu `a mãe dele que plantasse uma árvore que desse docinhos, achando que as sacolas de doces fôssem frutos naturais.
Nós acreditávamos em Papai Noel. Num Natal, quando ainda morávamos na casa amarela, minha irmã Etelvina descobriu nossos presentes, máquinas de costura de plástico, escondidas, muitos dias antes do Natal. Meu pai disse que o Papai Noel tinha entregado a ele os presentes para que ele nos desse no Dia de Natal.
Mas no próximo Natal, já na casa do vovô, resolveu nos contar a verdade sobre o Papai Noel.
Estava escuro naquela noite e eu me lembro de que estávamos assentados no banco da cozinha da fazenda. Uma luz que não sei se era de um carro pequeno, ia passando lá longe, na estrada e ele nos disse que eram os faróis da caminhonete do Papai Noel. Nós já havíamos deixado nossos sapatos atrás da porta do quarto para que o Papai Noel deixasse nossos presentes. Enquanto ele nos distraía com a história da caminhonete do Papai Noel, minha mãe saiu pela porta da cozinha e entrou pela porta da sala, colocando os presentes nos sapatos. Quando as luzes da estrada sumiram, meu pai nos chamou para irmos ao quarto para ver se o Papai Noel já havia deixado os presentes. Estávamos impressionadas, e eu, particularmente, meio intrigada acerca da caminhonete do Papai Noel. Afinal, eu não vira o farol vindo em direção `a nossa casa. Mas pensava comigo "carro de Papai Noel" é misterioso mesmo... Ficamos eufóricas com os presentes e ainda estávamos comparando o que havíamos ganhado, quando ele resolveu nos contar o truque usado pela minha mãe.
Aliás, na celebração de Natal feita no palco do lado de fora da venda, tio Joanilson vestiu-se de Papai Noel e as crianças cantavam uma musiquinha assim:" Sai daqui seu bobo, velho impertinente, fazendo vergonha no meio da gente."

Pessoas como o irmão Januário e Tatico, vinham de longe com suas famílias, `as vezes descalço, com as mãos calejadas, para congregar conosco. Ainda posso sentir o cheiro de suor e talvez de brilhantina que exalava dos cabelos da Terezinha, uma das filhas do irmão Januário, que tinha longas e grossas tranças. Depois do culto, íam para a casa do vovô para comer, conversar, jogar vôlei, birosca, pular maré, brincar de bilboquê, pião, perna-de-pau e outras brincadeiras.
Numa época, meus tios  amarraram um laço numa árvore que ficava num barranco mais alto na beira do rio, puseram um estribo na ponta do laço; adultos e crianças usavam o balanço para atravessar o rio e saltar na outra margem no areião.
Num dia, a tia Elma estava usando salto alto e o sapato dela ficou agarrado no estribo. Foi e voltou e o balanço parou no meio do rio numa parte onde o rio era bem fundo. Um custo para tirá-la de lá, mas era calma e não se apavorou.
De tempos em tempos, havia uma Escola Bíblica de Férias na congregação, dirigida pela Cisina, Vasti ou outra pessoa da igreja de Lajinha. Tempo de ouvir histórias de flanelógrafo, aprender novos corinhos e versículos da Bíblia. "Estou seguindo a Jesus Cristo... Deste caminho, eu não desisto... Atrás não volto, não volto mais". E marchar em volta do terreirão de cimento, cantando “Mesmo que eu não marche na Infantaria, nem na Cavalaria, nem na Artilharia...”, usando nossos chapeuzinhos com as letras EPB (Escola Popular Batista) como eram chamadas as Escolas Bíblicas de Férias nas igrejas batistas da época. Uma das nossas classes reunia-se debaixo do pé de manga no terreiro da venda; uma grande tora servia de banco para assentar.
Muitas vezes havia culto nas casas dos irmãos Tatico, na Crisciúma,  e Januário, na Fortaleza. íamos a pé ou a cavalo, `as vezes, voltávamos com noite escura ou `a luz da lua e das estrelas. 


Nas férias, sempre havia algum colega de internato do tio Joassi ou tio Joanilson  passando dias na fazenda. E as sociais no terreiro da fazenda eram uma oportunidade  para a moçada socializar e flertar e se deliciar com “Olha o macaco na roda” ou “Locomotiva deu apito dentro do meu coração, ora vamos pra estação... funda lata...” as brincadeiras dirigidas pelo Biguito (Altair), filho do Seu Alvino Heringer, sobrinho do Vovô Américo e dono da fazenda vizinha.
Uma outra coisa da qual eu gostava era de ir a Laranja da Terra, `a pracinha, na Fazenda do Tio Luizinho,  o centro do córrego, onde havia o campo, com times de futebol de salão e vôlei muito bons. Minhas tias gostavam de ver os primos jogando e sempre comentavam a respeito dos mais bonitos, que interessavam a elas. Na pracinha, a Igreja Presbiteriana, o consultório de dentista do Jerônimo Werner, a venda do Dionésio e o cinema do Ademar, os dois últimos filhos do tio Luizinho. Do cinema havia apenas o prédio com as cadeiras dobráveis, mas foi lá onde assisti o primeiro filme. A farmácia do Seu Pedro Werner era mais acima, perto da tia Valmira e da Fazenda Flor da Mata, da viúva do tio Lindolfo, irmão do vovô Américo, tia Alzira.
Aliás, estávamos cercados de parentes por todos os lados. No Tinguaciba morava a Eli, do Zé Braga, filha do tio Elói, que visitávamos de vez em quando. 
Na Fazenda do Seu Alvino, cercada de casas dos filhos, Airle e Olívia, Adenir e Oziel, Abgair (Bêga) e Valderez, Altair (Biguito) e Maria José (tia Zeca) e Adair (tio Chico) e Lurdes, que moravam do lado da laje do rio. 
Airle foi o primeiro a ter um automóvel em Laranja da Terra. Meu pai tinha um caminhão F6, tio Gil e tio Afonso tinham jipes de capota de aço. Mas no dia em que o Airle chegou na casa do vovô Américo com a família num automóvel, fiquei impressionada... Antes ele tinha uma motocicleta, que também era novidade... 




Certa vez, depois que o tio João mudou-se para Belo Horizonte e gravou um LP daqueles grandes e pesados,  fomos `a casa do tio Aurino e tia Ambrosina, cunhado e irmã do Vovô Américo, que tinham uma vitrola,  para ouvir o disco. Lembro-me de que o primeiro hino da lista era "O Senhor é o meu pastor..." e começava lento, suave. Mas quando chegava na parte "...Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei...", ficava forte, tão forte, mais forte, pela voz forte de tenor do tio João.
Estávamos mais acostumados a ir `a casa do tio Eloi, do tio Brilhantino, tia Alzira, tio Luizinho (na casa do tio Afonso fomos poucas vezes, a esposa dele, D. Nila não era muito chegada com a família) do que no tio Aurino. Mas acabamos passando o dia por lá, conversando, comendo e chupando jabuticaba.  Tio Aurino  havia comprado uma máquina de lavar roupas e com o maior entusiasmo, mostrou-nos  como funcionava. Colocou uma toalha para lavar e quando terminou a operação, deixou-nos tocar na toalha para ver como estava praticamente seca.


Tio Jenus uma vez nos deu um susto muito grande. Estava dirigindo o caminhão, passando na curva da estrada logo depois do encontro do Córrego Laranja da Terra com o Fama, e o caminhão tombou uns dez metros até parar na laje de pedra, que cobria a maior parte do córrego naquela altura. Ouvimos um barulho enorme e saímos correndo para ver o que tinha acontecido. O caminhão estava todo estragado, mas, milagrosamente, tio Jenus tinha apenas alguns arranhões.
Minha mãe sempre reclamou que quando chegou o momento dos meus avós escolherem entre ela e o tio Jenus para mandar para o internato, para continuar os estudos, (em Laranja da Terra só tinha até `a quarta série), eles escolheram o tio Jenus. Mandar uma mulher para estudar, seus irmão comentavam, poderia ser um desperdício de dinheiro, pois ela se casaria, teria que criar os filhos e não teria uma carreira. Então o tio Jenus terminou o curso científico e não sei ao certo se fez o vestibular para o curso superior.  Sei que tinha o sonho de ser médico, e teve uma época em que consideraram de mandá-lo para Portugal ou outro país da América Latina para estudar, mas nunca chegou a ir. Ao invés disto, voltou para casa, fez muitas inovações na fazenda e teve o acidente com o caminhão.

Ele era bonitão, alto e magro, usava óculos com aros de metal redondos e finos, falava muito bem, um rapaz muito educado. Gostava de comer abacate sem açúcar e eu não podia entender como alguém poderia gostar de uma coisa sem sabor nenhum, da mesma forma que não sabia como alguns gostavam de coisas amargas como jiló e jurubeba.
Lembro-me de que tio Jenus me chamava de “a macia do tio”, por minha pele sedosa, e ele gostava de passar a barba no meu rosto.
Algum tempo depois, ele mudou-se para Governador Valadares, onde administrava o depósito de madeiras processadas na serraria dos tios Joel e Jeronil em Itabira. Também tinha um comércio separado, só dele, de cabiúna e outras madeiras de lei. Prosperou muito também.
Ele era muito bom com cálculos. Dizem que ele olhava uma tora e podia supor as suas medidas, fazer as operações na cabeça e os resultados seriam os mesmos, quando mediam oficialmente a tora, usando a trena. Tenho certeza de que os estudos o ajudaram no seu sucesso pessoal. Mas, minha mãe diz que, se ela tivesse ido para o internato, pelo menos teriam tido uma professora na fazenda. A casa amarela em que moramos fora construída pelo tio Joel quando estava para se casar, mas ele tinha em mente transformá-la em escola algum dia.
Minha irmã Etelvina era muito agarrada com minha mãe, e quando meu pai lotava o  F 6  azul de gente, para ir `as festas no Beira Rio, Lajinha, Chalé ou outro lugar,  ía na cabina com minha mãe. Mas  eu ía na carroceria com o pessoal e nunca perdia a oportunidade de sair, mesmo que minha mãe ou pai não fossem, com minhas tias e tios.
Lembro-me de uma vez em que o tio Jenus foi buscar a tia Edil no internato em Alto Jequitibá e me levou com ele. Paramos em Manhumirim e ele comprou um par de sapatos de plástico transparente com estrelinhas, para mim. Penso que nunca calcei sapatos mais bonitos.


Tio Afonso, irmão do vovô Américo, cuja primeira esposa tinha problema de demência, vivia com D. Nila, que diziam, ele havia comprado do marido por um caminhão de abóboras. Ela tinha um filho muito bom, chamado Nelson, cuja esposa Terezinha foi professora em Laranja da Terra. Tio Afonso e Nila tinham um jipe de capota de aço como o do tio Gil e depois, uma rural também. As más línguas atribuíam a ela a frase:"A vural é só pra ir a Berolizonte..." Tinham um apartamento mobiliado em Belo Horizonte e, certa vez, uns ladrões chegaram lá com um bilhete, supostamente do tio Afonso, para os tomadores de conta, pedindo que abrissem o apartamento porque eles estavam se mudando. Os ladrões lotaram os caminhões e levaram tudo, com a ajuda do casal, que ainda teve o cuidado de embalar a mudança direitinho para não quebrar nada.


Tia Ilca e tio Cincinato (eu fui a dama de honra)

Tia Ilca começou a namorar um rapaz que veio de Valadares e estava trabalhando de pedreiro na casa do tio Afonso. Certo dia, tio Afonso, chegou na casa do vovô para conversar com ele um assunto confidencial. Estava lá para avisar que o rapaz havia tido umas encrencas lá em Valadares e estava em Laranja da Terra para se esconder dos seus desafetos. D. Nila, a mulher do tio Afonso, era amiga de um engenheiro e construtor de Valadares, Dr. José Loyola, que o havia recomendado como bom profissional. Cincinato trabalhara para ele como especialista em acabamentos. Realmente, trabalhava muito bem e fez serviços para o tio Nolmerindo, tio Osvaldo e várias outras pessoas em Laranja da Terra.
Vovô ficou meio desapontado, mas deixou a decisão para a  tia Ilca, que se decidiu por se casar assim mesmo. 
Certo dia, o namorado dela, Cincinato, ficou lá na casa do vovô até mais tarde e a Etelvina, com o seu expediente natural disse para ele: "Ô Cincinato, já tá na hora de você ir embora, está ficando escuro..."
Eu fui a dama de honra do casamento deles. Meu vestido era igual ao da noiva, mas, na cabeça, ela usava uma grinalda de flores  de cetim e o véu e eu apenas uma coroa de florzinhas, também de cetim.  Nas mãos, ela levava um buquê e eu uma flor, do mesmo material da grinalda e buquê, com as alianças. Um bonito bolo, docinhos colocados em forminhas de papel em forma de flor, bastante chique para um casamento na roça. Leitoa assada, recheada com farofa e enfeitada com azeitonas fincadas em palitos.

O enxoval da tia Ilca também foi dos melhores. As filhas da D. Dalziza, no Tinguaciba bordavam a todo o vapor e lembro-me de passarmos na Pedra Torta, lá no Areado, onde moravam bordadeiras que estavam trabalhando para ela também. Toalhas, lençóis, etc, com bordado aberto, cheio e matiz.
Não me lembro bem da cerimônia, mas acho que foi realizada no terreiro, pois me lembro de ter deixado as alianças cairem na escada de cimento da frente da casa, uma escada de uns dez degraus, com uma mureta que usávamos como escorregador.
O  fotógrafo contratado, Seu Bramantino Segal, de Lajinha, não apareceu; havia chovido muito nos dias antes do casamento. Desta forma, não houve a tradicional fotografia dos noivos em frente ao pé de murta no final do terreiro, como nos casamentos da minha mãe e tia Elzina. Poucos dias depois, fomos a Lajinha no F6 do meu pai para tirar as fotos no estúdio do Foto Bramante, onde estivemos em outras ocasiões também. Seu Bramantino arrumava a gente em frente `a grande cortina, depois se escondia atrás de um pano preto da máquina de tripé, para tirar a foto. Tia Ilca era muito elegante e a foto ficou muito boa, apesar de todos, até eu, estarmos sérios. Parece que as pessoas não podiam rir para as fotos.
No caminhão, de volta para casa, começou a chover. Tia Ilca e minha mãe estavam na cabina com o motorista, meu pai. Eu só gostava de andar na carroceria com o resto do pessoal. Tio Cincinato, o noivo, estendeu uma lona para nos proteger da chuva, improvisando uma tenda. Zico, o empregado do meu pai que me resgatou quando caí da pinguela, e a filha dele, Lurdes, estavam no caminhão também. Zico estava meio embriagado e, de vez em quando perguntava pra ela: "Cê vai bem aí, Lurdinha?" Meu pai, muito crítico, aprendeu esta frase e, toda vez que queria saber se estávamos bem, perguntava "Cê vai bem aí, Lurdinha?"
Tia Ilca e tio Cincinato íam morar no Norte, no Córrego Azul, onde o vovô Américo havia comprado um sítio. Vários irmãos dela já moravam em Itabira, tia Elzina, tio Joel, tio Jeronil, além do Vovô Fildelfo e tio Reginaldo, pai e irmão da vovó Leonina, que foram os primeiros da família a irem para lá.
Eu gostava muito da tia Ilca e do tio Cincinato, e dizia que iria com eles. Tio Cincinato havia me dado uma foto três por quatro dele, que guardo até hoje, mais de cinquenta anos depois.
Tia Ilca tocava o órgão e eu gostava de acompanhá-la e quando soube que ela não iria levar o órgão consigo, achei um absurdo. Tia Elma e tio João também tocavam, mas eu sempre associei o instrumento com a tia Ilca.
Menos de um ano e tia Ilca voltou, não exatamente para visitar, mas para ter a Gláucia. Lembro-me das batas de grávida que usava, com saias, uma moda muito bonita. Tia Ilca era chique por natureza.
Também das sopas de galinha, feitas com farinha de milho por semanas a fio, que eram a norma para as mulheres que davam `a luz, na época, mas que toda a família comia. Hum... delícia...


                                                 O Pito Aceso




Durante o dia,  com um pouco de esforço, podia-se ver a pequena casa de barro batido no topo da montanha, que ficava além do rio, ao longe, do lado da cozinha da fazenda. Mas era `a noite, quando tudo estava calmo, com a luz fraca do gerador, que podíamos notar melhor a habitação lá em cima, ou melhor, o ponto brilhante no meio da escuridão.
Tocado pela água do Rio Fama, que vinha através do rego feito com paredes de cimento, o gerador acionava o moinho perto da venda do tio Gil, o ralador de mandioca, o despolpador de café, além de acender as lâmpadas da fazenda, que eram pouco mais vermelhas que um tomate maduro.
Ouvindo os grilos e sapos, observando os vagalumes na escuridão e assentados nos longos bancos de madeira, através das janelas, podíamos ver aquela pequena luz lá longe no alto, talvez de uma fogueira ou de um fogão `a lenha, ou mesmo de uma lamparina de querozene mas que parecia tão pequena como o lume de um cachimbo, razão pela qual chamavam aquele lugar de "Pito Aceso".
De certa forma, a fazenda não estava tão parada assim. Havia a passação de roupas, o culto doméstico, uma hora inteira de notícias no rádio e os comentários das notícias. Num país chamado Estados Unidos, havia um carro para cada pessoa e eu, que não tinha nenhuma idéia de que existisse a expressão "per capita", matutava com meus botões que aquilo era uma tremenda mentira. Falavam de um tal de Fidel Castro, num país chamado Cuba e do Comunismo trazido da Rússia, onde todos tinham que negar a existência de Deus e muitas crianças eram retiradas das famílias para serem educadas pelo governo.  Olhos arregalados, eu pensava em como poderia existir tanta crueldade.  E alguns cientistas afirmavam que o homem descendia do macaco... Comentava-se também sobre o "moto-contínuo", um motor cujo combustível era apenas água, idéia de um tal de Sebastião, que nunca conheci. Nunca mais ouvi do "moto-contínuo", mas tenho a esperança de que algum Sebastião ou Manuel ou simplesmente "Mr. Inventor" ainda o possa descobrir.
Entre os visitantes frequentes, Seu Vertulino Moreira, velho simpático e elegante, viúvo de uma prima da Vovó Leonina, Ridumira,`as vezes, vinha sozinho ou com o irmão, Seu Joaquim Moreira. Só que uma vez, estava conversando com meu pai sobre umas coisas que não pude ouvir muito bem, mas que incluíam pessoas atiradas aos leões... Perdi o sono naquela noite. Penso que deviam ser histórias do tempo do Império Romano.
Dona Madalena Forte, que pernoitava de tempos em tempos, era uma senhora negra, que diziam havia sido escrava quando bem jovem, mas se casara com um homem branco e fora alforriada. Estava muito idosa e com a mente confusa. Andava de fazenda em fazenda, comia e dormia em uma e ia para a outra, num círculo contínuo. Num dia de bastante calor, eu estava usando shorts, e como tenho uma pinta preta na parte traseira da cocha esquerda, tio Joassi disse que aquela pinta era um beijo que a Dona Madalena Forte havia dado na minha perna. Por muito tempo, me recusei a usar shorts.
Certa vez, na hora do jantar, quando Dona Madalena estava colocando comida no prato, havia uma panela com uma coisa branca e cremosa no canto do fogão, e ela pensou que fosse sopa de batatinha. Tia Elma lhe disse que era gordura de porco talhada, mas ela se recusou a acreditar e colocou uma boa quantidade da "sopa de batatinha" no prato.  "Eu não sei ler nem escrever, mas ninguém me passa na farinha", disse. Quando começou a comer, percebeu que tia Elma tinha dito a verdade e teve que jogar toda a comida fora e servir outro prato.
Ainda no meu tempo, antes do Pastor Ambrósio, o Pastor Pedrosa, um português, vinha de Manhumirim, de ônibus, mas minha mãe contava que,  quando ainda não existia a linha de ônibus, vinha a cavalo e foi ele quem casou os meus pais. Falavam muito também, de uma tal de Missueste (Miss. West), uma missionária americana que ensinou a tia Elzina a tecer "frivolité", um trabalho muito delicado feito com "navetes" e também a fazer ternos para homens. Falava-se muito também no Pr. Jackson, um missionário americano e sua esposa D. Paulina, que visitavam a congregação.

Não era muito comum fazermos fogueiras na fazenda, mas, numa época lembro-me de que o pai da Ilda, a empregada, Seu Domingos, estava visitando, e fazia fogueiras no altinho, atrás da tulha de guardar palha de café, perto do rachador de lenha. Estava frio e, em volta da fogueira, reuniam-se empregados e o pessoal da fazenda, para contar anedotas e piadas e cantar cantigas acompanhados do violão do Seu Domingos.
Apesar do número de pessoas e visitantes, para mim, as noites na fazenda tinham um ar de nostalgia.  Era melancólico o suficiente cá embaixo, que eu olhava o "Pito Aceso" e imaginava como seria lá. Quantas pessoas viveriam naquela casinha, seria uma família, apenas um casal, ou uma só pessoa? Será que essa pessoa ou pessoas desciam daquela montanha frequentemente? Tinham um rádio como nós? Penso que eu não imaginava que, fosse quem fosse que morasse lá, naquela casinha de pau-a-pique, essa pessoa ou pessoas, deveriam trabalhar tão duro na roça que, lá pelas oito da noite, estariam tão cansadas que iriam dormir cedo e nem teriam tempo de curtir a noite. Ou, talvez, estivessem reunidos em volta de uma fogueira contando casos...
Na verdade nunca descobri quem morava no "Pito Aceso". Minha mãe me disse recentemente, que as terras pertenciam `a Fazenda do Seu Alvino,  o sobrinho do vovô, dono da fazenda vizinha, que tinha uma serraria na fazenda também, mas que funcionava muito pouco pois a madeira da região já estava escassa.
Houve um tempo em que uma mulher que morava no Pito aceso,  era lavadeira da minha avó, que lá nascia uma água muito boa. Perguntei-lhe quem levava a roupa da fazenda pra lá, mas ela não se lembra se os meus tios levavam ou se a mulher buscava. Se buscava, penso que devia ser numa carroça. E uma carroça bem grande, puxada por animais bem fortes...

                                                    Rute


Nunca cheguei a saber o verdadeiro sobrenome da família "Pescadô", uma vez que pescador  era um apelido dado a eles por terem o hábito de pescar, não pescaria profissional, apenas uns lambarizinhos ou carás, no córrego, perto da casa deles. Eram uma família numerosa, que trabalhava para o meu pai, isto se trabalho pudesse ser uma metáfora para pescaria, pois estavam quase todo o tempo pescando, além de tomarem umas pingas. Eram um casal de idosos, três filhos casados e um punhado de crianças sujas e malnutridas, amontoados em duas casas no terreiro uma da outra.
Havia uma garota nesta família cujo nome era Tereza e minha mãe resolveu adotá-la. A família parecia estar contente de vê-la morando na casa grande da fazenda. Minha mãe e tia Edil apararam e pentearam os cabelos dela, deram-lhe um bom banho, cortaram-lhe as unhas, fizeram roupas novas para ela, compraram-lhe sapatos. Parecia que havia se transformado em outra pessoa. Tanto que a tia Edil sugeriu que lhe trocassem o nome. Decidiram-se por Rute, com o qual a menina não só concordou, mas passou a responder prontamente. A família passou a chamá-la de Rute, também.
Igreja Presbiteriana de Laranja da Terra
Estava indo muito bem, aprendendo novos hábitos higiênicos e fazendo algumas pequenas obrigações na casa.
Mas nem tudo muda de um instante para o outro.
Era o dia da inauguração do novo templo da Igreja Presbiteriana de Laranja da Terra, na pracinha, ou seja, na cabeceira do Córrego Laranja da Terra, onde havia o povoado. Ficava nos terrenos da fazendo do tio Luizinho, irmão do vovô Américo, onde havia o campinho de vôlei com um time que se tornou famoso, a venda do Dionésio, a farmácia do Seu Pedro Werner e o cinema do Ademar Heringer, que funcionou pouco tempo, mas ainda existia o prédio com as cadeiras dobráveis e tudo.
Quando chegaram `a igreja, minha mãe pegou a Rute para ajudá-la a descer da carroceria do caminhão. Meu pai, que estava em baixo, esperando para pegá-la, fez a maior careta, deixando minha mãe intrigada. Meu pai cochichou no ouvido da minha mãe... A garota não tinha costume de usar roupa de baixo e, apesar do vestido novo, não havia colocado a calcinha. O vestido era compridinho e como minha mãe não havia trazido  roupas extras para a menina, ela  continuou como estava.
Pouco depois, a família foi assistir a um culto na casa do vovô e a irmã dela roubou carne-seca. Mas, na hora de ir embora, não pode levar e escondeu debaixo do assoalho.
No dia seguinte, o cachorro achou a carne-seca. A Rute, que sabia do fato, contou que a irmã tinha pegado.
Rute não ficou muito tempo lá em casa, nem conservou o nome, depois que a família a levou de volta para a casa deles. Mudaram-se e nunca mais ouvi falar dos "Pescadô".
Certa vez, um sujeito chamado João "Desdobro", cujo apelido fora dado a ele pelo fato de ter muita força para trabalhar, mas cuja preferência era roubar, estava roubando galinhas, na casa do tio Gil. O dia estava amanhecendo quando  os "Pescadô" chegaram na casa do vovô chamando "Sô Amerco!!! Sô Amerco!!!".  Vovô acordou assustado e consequentemente todos os da casa, para verem os "Pescadô" segurando o João "Desdobro" com as mãos para trás, a boca sangrando pelos socos que recebera.
-"Esse safado tava robano galinha no terrero do Sô Gil."
Mostraram uma corda de pião e uma sacolinha de milho, que, segundo eles, João "Desdobro" estava usando para pegar as galinhas.
Vovô simplesmente pediu que largassem o homem, não sem antes aconselhá-lo a que não roubasse mais. Nunca soube que o fizesse depois disto.
Mas houve uma outra vez em que passamos susto parecido. Foi quando o Seu Romildo, doente mental que de vez em quando ficava internado em Barbacena, chegou na casa do vovô, desta vez durante o dia, também chamando "Seu Amerco". Por muitas noites, eu tive pesadelos e ía pé-ante-pé, deitar nos pés da cama dos meus pais. Aliás, eu tinha pesadelos também com cachorros doidos, que, de vez em quando apareciam por lá. Penso que ainda não existia vacina anti-rábica e a maneira que testavam para ver se o cachorro estava doido era jogar água no animal. Se estivesse hidrófobo (com medo de água, literalmente), cairia o queixo.
Meu avô contava que o sobrinho dele, o Artur Werner, tinha um cachorro que ficou doido e mordeu uma menina que morava na fazenda dele. A menina teve que ser morta com uma injeção. Depois disto, ele tomou pavor de cachorros e todos os sem dono que apareciam por lá, ele mandava matar e plantar um pé de café por cima da cova. Fez uma "lavoura de cachorros".
De vez em quando, quem passava na fazenda, ou víamos na estrada, era o João "Bico". um rapaz de lábios grandes e prominentes, que morava na casa do Alberto Heringer, primo da minha mãe. Ele também tinha problemas mentais e andava empurrando uma carrocinha. Tinha muito medo da "captura", nome que davam `a polícia na época, se não estou enganada.
Outro que, para mim, se tornou um personagem legendário, foi o Seu Sinfrônio. Perdera uma mão quando soltava um foguete e usava uma capinha de couro para proteger o cotoco do braço. O modo como meu pai se referia a ele para nos advertir dos perigos de soltar foguetes, fazia-nos pensar nele, não como um ser humano normal, exceto pela falta da mão, mas como um símbolo da má sorte, originada na imprudência. Para mim, não importava se ele tinha uma outra mão, dois pés, dois olhos, dois braços, uma cabeça... Nem se era bom ou mal, se tinha esposa ou filhos, se trabalhava, mesmo tendo apenas uma mão. Via-o apenas como o símbolo da imprudência, mesmo que o seu ato tivesse ocorrido muitos anos atrás e já tivesse amadurecido tanto que nem soltasse mais foguetes. Ou, se o fizesse, tomasse bastante cuidado.


                                             Dia de Finados


Dia 2 de novembro, o "Dia de Finados", era um dia de emoções controversas para mim. A excitação começava logo cedo, quando colhíamos flores, fazíamos os buquês, tomávamos banho e trocávamos de roupa. Depois caminhávamos a pé mais ou menos um quilômetro e meio até o cemitério na Fazenda do Seu Alvino, sobrinho do Vovô Américo. Era excitante ouvir as histórias de parentes que tinham vivido num outro tempo, muito tempo atrás, de quem talvez nunca teríamos ouvido se não fosse pelo Dia de Finados.
Por outro lado, era triste lembrar os que haviam morrido recentemente, como a Vovó Leonina. Vovó Etelvina, mãe do meu pai e o Tio Osvaldo, irmão, haviam falecido também, todos dois de câncer no intestino, dois dias de diferença um do outro. Sentia tristeza por nós e por todos os que tinham saudades deles, especialmente o tio Filadelfo, que perdera a mãe, vovó Leonina, com apenas sete anos de idade.
O cemitério estaria capinado e as poucas catacumbas pintadas de novo. Seu Altivo Maria, o regente do coral da congregação, que morava perto do cemitério, recolhia dinheiro dos fazendeiros para capinar o cemitério e pintar as catacumbas dos parentes daqueles que desejassem.
A maior parte das sepulturas eram apenas montes de terra como se fossem barrigas grávidas, quase todas com uma cruz de madeira na cabeceira, algumas com o nome e a data de nascimento e morte da pessoa ali sepultada.
Havia duas catacumbas de cimento, grandes, bastante antigas, uma no alto do lado esquerdo do cemitério era a do Tio Lindolfo, irmão do Vovô Américo; a outra do lado direito, do Vovô Alvim, pai do meu pai, que morrera muito antes de eu nascer. Vovó Etelvina fora enterrada na mesma catacumba, a coroa de flores metálica, que ainda era nova, enfeitava a catacumba.
Havia apenas uma catacumba de azulejos pretos, a do tio Osvaldo, que tinha também uma coroa de flores metálica igual `a da vovó. Tia Nair, a viúva dele, já deveria ter vindo ao cemitério, pois a catacumba dele estava cheia de flores, os azulejos bem lavados. Tia Nair, como sempre, tinha a casa mais limpa e o jardim mais bonito da região.
No mesmo ano em que Vovó Etelvina e tio Osvaldo morreram de câncer, perdemos uma prima, a Maria Etelvina, filha do tio Astrogildo, de câncer no olho. Lembro-me de vê-la com o olho arroxeado e inchado, chorando no colo do pai dela. Interessante é que, se sua sepultura estava ou não naquele cemitério, não sei. Talvez tivesse sido enterrada em outro cemitério. 
Do lado esquerdo da sepultura do tio Osvaldo, ficava a do Clair, filho da tia Valmira, irmã do meu pai, que morrera com doze anos num acidente de carro. Estava na traseira do Jeep dirigido pelo Dico, irmão dele, quando, ao passarem por um caminhão numa curva da estrada, o canto da carroceria com os ganchos para amarrar a lona, bateu no Jeep, direto no pescoço do Clair, causando morte instantânea. Foi um acontecimento muito triste. Eles haviam acabado de chegar do internato em Alto Jequitibá.
Mais abaixo, no centro do cemitério, três catacumbas caiadas de branco, uma grande no centro, da Vovó Leonina e duas pequenas dos lados, dos filhos do tio Gil que morreram de doenças infantis. Gediel, o garoto, era mais ou menos da idade da Etelvina, minha irmã, Edinéia, a menina, um pouco mais nova.
`As vezes, eu ficava intrigada porque quase todos os tios e tias haviam perdido algum filho para o sarampo ou verminoses e a minha mãe e meu pai, não. Nunca tiveram um filho que nascera morto ou um aborto, o que parecia a história de quase todas as casas na época. Além de terem uma família pequena, apenas três garotas, meu pai, que vivera no Rio de Janeiro por muitos anos, tinha seus próprios meios anticoncepcionais e era muito preocupado com a saúde. Ele nos tratava com homeopatia, remédios sem gosto de nada, apenas umas gotinhas parecidas com álcool numa colher de água. Acônito, briônia, beladona, ipecacuanha.  Também estava alerta para qualquer sinal de febre alta ou "ataque de bichas", como se chamava quando as lombrigas atacavam. Certa vez, o Gerval, outro filho do tio Gil, já estava ficando roxo, se asfixiando pois as lombrigas haviam se juntado na garganta dele. Meu pai pegou uma colher, abriu `a força a sua boca que estava travada e colocou uma solução de hortelã amassada garganta abaixo, salvando-lhe a vida.
Tio Gil mandara cortar pedras de mármore com os nomes gravados para colocar sobre as catacumbas da vovó Leonina, do Gediel e da Edinéia, mas as pedras ficaram muito grandes para as catacumbas e continuavam por muito tempo atrás de um móvel na casa dele.
Andando de cima abaixo no cemitério, colocando flores sobre as sepulturas, ouvindo histórias dos mortos e da causa das mortes, chorando por eles, me fazia sentir bem. Penso que a tendência masoquista, a atração pelo lado dramático da vida, o gosto pela tragédia, comuns `a natureza humana, me faziam voltar para casa uma criança feliz, ansiosa para que chegasse o próximo Dia de Finados para voltar ao cemitério.



                                          Viagem a Belo Horizonte


Tio João havia se mudado para Belo Horizonte para continuar os estudos no Colégio Batista. Acabou comprando uma pensão e levou a tia Elma e a Maria Veríssimo para trabalhar lá. 
Maria Veríssimo havia sido empregada da vovó Leonina e babá do tio João, e mesmo depois que se casara com o Zé Rita (José, filho de uma mulher chamada Rita), bem mais novo do que ela e alcoólatra,  continuara morando na fazenda e trabalhando para a vovó. Por vezes, quando ela se cansava dos abusos, separava-se dele e vinha morar dentro da casa da vovó novamente. Ela também gostava de uma pinga, mas nunca bebia para ficar muito bêbada.
Numa destas épocas em que estavam aparentemente separados de vez, tio João a levou para trabalhar na pensão e mesmo depois de ter vendido o negócio e entrado para o DI (Departamento de Instrução) da Polícia Militar, ela continuou trabalhando para ele, no apartamento que dividia com colegas. Maria adorava uniformes militares, especialmente os da Banda da Polícia Militar, que ela chamava de "musgueiros" (fazedores da música). Maria cozinhava muito bem, fazia uma carne assada deliciosa e era bastante vaidosa, tendo o cuidado de ir ao salão de vez em quando alisar os cabelos.
Na época em que tio João tinha a pensão, meu pai resolveu nos levar para conhecer Belo Horizonte, mais ou menos uns trezentos e cinquenta quilômetros de distância. Pegamos o ônibus para Manhumirim e o trem da Leopoldina para Manhuaçu, uma novidade, pois era a primeira vez que andávamos de trem. Ficamos hospedados no Hotel Zapalá. Etelvina, muito curiosa, estava mexendo nos arranjos de flores e foi repreendida pela dona do hotel.  
`A noite, fomos visitar o tio Quinquim e a tia Lia, irmão e cunhada da vovó Etelvina, mãe do meu pai, que moravam na Rua Monsenhor Gonzalez, em Manhuaçu. Na volta de Belo Horizonte, lembro-me de que visitamos o tio Luciano e  a tia Maria, irmão e cunhada do vovô Américo em Manhuaçu também.
No dia seguinte, pegamos o ônibus para Belo Horizonte. Estávamos acostumadas a viajar mais ou menos a mesma distância quando íamos visitar os tios que moravam no Norte, em Itabira (mais tarde Itabirinha, para diferenciar de Itabira do Mato Dentro) mas era por estradas poeirentas e pequenas cidades. 
Vestido da Clarinda com bordado da cantiga do Sabiá
Ficar hospedados numa pensão era uma grande novidade, Sentíamo-nos importantes tendo o café da manhã com outros hóspedes na sala de jantar cheia de mesas bem arranjadas, cobertas com toalhas, com a cesta de pães, pequenas mantegueiras de vidro redondas e outras amenidades, sem perder no conforto de estar em casa. Afinal, a pensão era do tio João e ele nos paparicava o tempo todo. Tio João tinha um cachorro chamado Tiquinho que era o guardião da pensão.


Minha irmã mais nova, Clarinda, com uns dois anos na época, tinha um lindo vestido com ilustração e letra de uma cantiga, bordados em matiz em volta da saia do vestido. Lembro-me de que ela ficava uma fera quando, até na rua,  as pessoas paravam para apreciar o fino trabalho de arte e cantar em volta do vestido "Sabiá lá na gaiola, fez um buraquinho... Voou..." a história de um passarinho que consegue fazer um buraquinho na gaiola e voar até um abacateiro, deixando a sua dona, uma garota, chorando e implorando "Vem cá, sabiá, vem cá."
Meu pai se tornou amigo de um sírio-libanês que havia vendido a pensão para o tio João, o Seu Tufi, e foi na casa dele que fomos apresentadas pela primeira vez a um caixote falante com tela arredondada, a televisão. Minha irmã Etelvina, não podendo conter a curiosidade, colocou a mão na tela e foi olhar lá atrás da televisão para ver de onde saiam aquelas imagens.
Uma coisa que me intrigava, mas que não perguntei pra ninguém, era como os sinais de trânsito sabiam quando vinham carros de um lado ou do outro para ficar verde ou vermelho. Na minha cabeça, tinha a impressão de que o sinal obedecia ao fluxo de carros e não o oposto.
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Eu havia acabado de aprender a ler e estava muito entusiasmada com isto. Certo dia, ao ver um ônibus com a placa Formiga, perguntei ao meu pai, em tom de brincadeira, se aquele era um ônibus de carregar formigas. Não tinha nem idéia de que havia uma cidade com este nome no Estado de Minas Gerais. 
Trouxe de volta revistas "Nosso amiguinho", um tesouro. Agora teria muito mais para ler do que apenas os livros da escola, o Almanaque, a revistinha do Jeca Tatu que vinha com o Biotônico Fontoura e o grosso Dicionário Lello Ilustrado do meu pai. Mais tarde, descobriria os livros guardados na gaveta do guarda-roupa com espelho do lado de fora, junto com a caixinha do pesado anel de ouro com as suas iniciais, NFG, Norival Fortunato Gomes e algumas fotos antigas, de colegas do Exército ou cartões e fotos de ex-namoradas. Minha mãe nem se importava com os últimas. Romances de Machado de Assis, um livro sobre o Duque de Caxias e a Guerra do Paraguai e um romance de um autor que estivera na congregação, "Eles também são humanos", de Himain Lacerda, estavam entre os livros que ele guardava com carinho.
Um professor por natureza, e tendo morado no Rio de Janeiro por oito anos enquanto servia o Exército, meu pai queria nos mostrar tudo o que pudesse.  O Parque Municipal com os balanços e pedalinhos, o Aeroporto da Pampulha, o Zoológico, onde fiquei impressionada, não com o leão ou o tigre, ou a zebra, mas com um animal que achei horrível: o macaco mandril, com a sua bunda vermelha que eu nunca esqueci.
Levou-nos para andar de bonde, de trolleybus (ônibus elétrico, de suspensório), a uma Feira de Amostra de Pedras Preciosas e até a uma granja de galinhas, com incubadoras e todas as galinhas brancas, bem diferentes das galinhas do nosso galinheiro na fazenda. 
O  único lugar onde meu pai levou apenas minha mãe, foi ao Museu de Cera, pois não era permitida a entrada de crianças. Eu, muito mimada, reclamei que crianças deveriam ter os mesmos direitos dos adultos. Quando cresci e fui ver um Museu de Cera, as deformidades e abnormalidades mostradas em cera me fizeram querer que ele fosse proibido para adultos também.
Um dia, fomos `a casa de uma prima da minha mãe, Iraci, professora e funcionária do Ministério da Educação, casada com um Engenheiro Agrônomo, escritor e político, Abdênago Lisboa. Quando chegamos, ele perguntou ao meu pai como tinha conseguido achar o endereço naquela cidade grande. Meu pai não respondeu, mas depois falou conosco que um peixe acostumado a nadar no oceano, não se perderia num córrego. Morara no Rio de Janeiro e Belo Horizonte para ele era fácil. O homem continuou perguntando para a esposa dele se minha mãe, a prima, também era das "locas" onde ela havia nascido (Laranja da Terra). O resto da tarde, entretanto, nos tratou muito bem e amigavelmente, e a sua falta de cortesia parecia ser só a casca, pois a sogra dele, tia Verônica, irmã do vovô Américo, morava com eles.
Mas, anos mais tarde, quando estávamos morando em Itabirinha, ele esteve lá, fazendo campanha política para Deputado Estadual e chegou `a nossa casa. Foi bem recebido e também eleito, mas duvido que tenha ganhado votos dos parentes caipiras.
Essa viagem a Belo Horizonte foi uma das mais importantes excursões educacionais que eu já tive. Só uma coisa meu pai se esqueceu de explicar para nós. Pelo menos não explicou antecipadamente. Foi quando estávamos indo para Belo Horizonte. A estrada estava em obras, havia escavadeiras e tratores trabalhando e, a uma certa altura, perto de Abre-Campo, um cheiro forte de alcatrão. Minha irmã Etelvina, sempre a primeira a ver e fazer as coisas, vendo que estavam passando um rolo em cima de uma camada grossa de um material preto e brilhoso, perguntou para minha mãe o que era aquilo. Minha mãe também não sabia. Ela só fez "sh... sh... sh..." com medo de que alguém ouvisse a conversa. Então, perguntou ao meu pai, que explicou para ela e para nós que aquela coisa preta era chamada asfalto. O ônibus começou a rodar muito mais suavemente daquele ponto em diante.





                                                 Mudança para o Norte



Não posso precisar o que aconteceu primeiro, se foi a decisão do meu pai de se mudar para o Norte ou a do meu avô de se casar novamente. O fato é que as duas coisas aconteceram simultaneamente.
Poucos dias antes de nos mudarmos para um lugarejo chamado Itabira, numa região que as pessoas chamavam de Norte por estar ao Norte do Rio Doce, Margarida, uma garota de dezesseis anos que fora empregada na casa do tio Gil, mudou-se para a casa do vovô. 
Minha mãe sugerira que se casasse com uma prima do meu pai, na casa dos trinta, mas ele se apaixonara pela Margarida e queria se casar com ela. Foram a Lajinha tentar casar-se, mas o Juiz de Paz se recusou a fazer o casamento de uma garota de dezesseis anos com um senhor de sessenta e sete. Então, vovô se decidiu que não era culpa dele que viveriam juntos e disse que se considerava legalmente casado. 
Margarida era calada, magra, bonita, com cabelos compridos e uma cruz tatuada num dos pulsos. Fumava, o que para nós parecia estranho. Meu avô também fumava, mas ele já era velho. A mãe dela, uma senhora que para mim parecia uma cigana, trouxe Margarida para a casa do vovô. A garota parecia estar conformada com a sorte, nem com medo ou reclamando, como uma ovelha levada para pastos melhores, onde supostamente haveria mais dinheiro e a vida seria mais fácil do que cozinhar e lavar na casa dos outros.
Nesta época, todos os tios e tias solteiros já haviam se mudado, exceto pelo tio Filadelfo,  que estava com uns dez anos. Foi muito difícil para nós nos despedirmos dele e deixá-lo com aquela família completamente estranha, a nova família do vovô. 
Ainda com escuro, o caminhão se afastava de mansinho. O vovô, a Margarida e o tio Filadelfo ficaram no terreiro... Etelvina e eu de calças compridas, eu feliz por ter convencido meu pai a deixar-nos usá-las. Mas com um nó na garganta...e os olhos marejados de pena do nosso Tio Definho.

Logo depois que nos mudamos, tivemos a notícia de que ele estava andando armado de canivete e brigando na escola.
Quando voltamos, meses depois, para visitar o vovô, a casa parecia ter sido assaltada. O enorme estoque de polvilho e farinha que ficara, havia desaparecido. As grandes caixas de madeira onde se guardava as roupas de cama, estavam praticamente vazias, possivelmente distribuidas com familiares. Margarida cozinhava muito bem, era agradável e continuava torrando o fubá que era guardado na latinha amarela e que vovô gostava de comer com a comida.
Algumas das minhas tias quando vinham visitar, queriam que a casa voltasse a ser como antes; lavavam e esfregavam os assoalhos de madeira (meu avô não gostava disto nem nos tempos antigos) e reclamavam da interferência da família da Margarida na casa e do estilo de vida que levavam.
Minha mãe se ajustou rapidamente `a nova situação. Nas nossas férias escolares, sempre vínhamos passear em Laranja da Terra, ficávamos uns dias na casa dos parentes do meu pai, especialmente na tia Lilica, mas passávamos alguns dias na casa do vovô também. Comíamos a comida deliciosa da Margarida, conversávamos amigavelmente e, `as vezes, minha  mãe fazia roupas para eles, Vovô parecia contente com o casamento.
Tiveram três filhos, um menino, João Batista, e duas meninas, Ednéia e Luciléia. A mais nova faleceu de krupp ainda bebê. A Ednéia (Néia), uma menina linda, de Leucemia, com quatro anos. Foi sepultada com um vestido bordado, que minha mãe fez para ela. 

                                              

                                                   





                           Parte II
                  - História dos Ancestrais -  
Miscegenação - Início da Imigração Alemã para o Brasil

                            Muito tempo antes de eu ter nascido...

Antes que o caminhão, lotado com a mudança e conosco mesmos, viaje horas na Rio-Bahia sem asfalto, pegue a estrada de Valadares para Mantena, também sem asfalto e cheia de costelas, até Divino das Laranjeiras, depois uma outra, estreita e cheia de curvas, passando por Mendes Pimentel para chegar a Itabira, gostaria de voltar no tempo e falar um pouco sobre pessoas e fatos ocorridos muito, muito tempo antes de eu ter nascido.
Do momento em que o caminhão estacionar em frente `a casa onde vamos morar, se não tiver explicado anteriormente quem é este meu tio-avô, tio Reginaldo, de quem o meu pai alugou a primeira casa onde moramos e como foi para Itabira, fica difícil de entender o desenrolar dos fatos. E, se parar a história na porta da casa para dar todos os detalhes, as pessoas dentro do caminhão, cansadas da viagem de mais de doze horas, ali esperando, vão ficar furiosas comigo.
Sei que alguns que estão lendo este livro, não gostam muito de árvores genealógicas, e talvez, irão pular esta parte para ir direto ao ponto onde a mudança está sendo descarregada do caminhão. Mas, prometo que, aqueles que tiverem paciência para a lerem, estarão bem mais preparados para compreender tudo o que vai acontecer. Não só conosco, mas com Itabira, o lugarejo para o qual estamos nos mudando, e os demais vilarejos  nesta  faixa contestada por Minas e Espírito Santo, onde  não existe jurisdição definida e, alguns salafrários se aproveitam disto para burlar a lei e o direito, cometer fraudes, usurpar propriedades, impunemente.  E, infelizmente, `as vezes acobertadas por autoridades dos dois estados a que pertencem, ou melhor, que reclamam a sua posse ao mesmo tempo. 
Também terão a oportunidade de perceber como a História interfere no desenrolar da nossa própria história e como nós podemos mudar o curso da história, a nossa, de outras pessoas e de lugares, quando resolvemos que não nos subjugaremos aos atos de injustiça que ocorrem ao nosso redor.

Fui registrada Leonina Fortunato Heringer, mas deveria ter sido Leonina Heringer Fortunato, pois normalmente o sobrenome do pai vem por último. Mas, meu pai, Norival Fortunato Gomes, quando foi me registrar, achou que soava melhor Fortunato Heringer do que Heringer Fortunato. Depois que lerem este livro sobre os meus ancestrais, verão que nem são estes mesmos os sobrenomes que deveriam constar do meu nome, se é que há uma regra a seguir. Por exemplo, um meu bisavô paterno, cujo nome é Joaquim Gomes Coelho passou Gomes e não o Coelho (último nome) para a sua descendência. Por outro lado, pegamos o Fortunato do meu pai, quando o nome dele era Norival Fortunato Gomes (se é o último nome que prevalece, deveríamos ter pegado o Gomes, como minha mãe).
Do meu avô paterno, Alvim Fortunato Gomes, não sei muita coisa, a não ser que era filho de José Fortunato Gomes e Maria Aniceta de Novais, e veio para Laranja da Terra, de Carangola. Meu pai dizia que eu era parecida com a avó dele, Maria Aniceta de Novais, baixinha e brava.
Conta-se que o Coronel Novais, pai da minha bisavó, era muito valente e tinha muitos jagunços. Certa vez, um empregado dele foi preso na rua em Carangola, porque estava bêbado. O Coronel Novais mandou um recado para o delegado dizendo que se não o soltasse até `as tantas horas, ele viria com os seus bois de carro, laçaria a cadeia e a arrancaria. O delegado não deu a mínima atenção `a mensagem. Continuou o seu dia como de costume. Só foi se dar conta da coisa, quando alguém o alertou para olhar para o morro que dava acesso `a cidade. Uma centena de bois estavam vindo pela estrada. O delegado apressou-se a soltar o preso e mandá-lo escoltado encontrar-se com o patrão. Soube que fizeram um documentário sobre o Coronel Novais, mas não tive a oportunidade de assistir.
Pelo que dizem, vovô Alvim também tinha capangas e era bastante valente, suas encrencas ligadas `a política. O córrego Laranja da Terra fazia parte de Lajinha, Minas Gerais, e diz-se que, certa vez, um dos Vieira, seu inimigo político, foi até `a casa dele com uma jagunçada a fim de matá-lo. Chegaram e pediram que ele saísse lá fora, no terreiro, para conversar.  A esposa dele, vovó Etelvina, disse que, se quizessem conversar com ele, que entrassem dentro da casa, pois marido dela não tinha segredos com ela. O tal sujeito acabou indo embora, pois tinha vindo para matá-lo, mas não dentro da sua cozinha.
Vovô Alvim faleceu muito jovem, depois de ter um derrame. Tinha a mania de comer ovos fritos tarde da noite e quando perguntavam se não lhe fazia mal, ele respondia:”Meu estômago não sabe olhar horas.”. Conheci uma cunhada do vovô Alvim, a tia Viana, que visitamos no Córrego Azul, uma senhora negra,muito agradável, viúva de um irmão dele que tinha os olhos azúis.
 Aguns anos atrás, meu primo Maurício, que queria conseguir a cidadania italiana, foi procurar o assentamento do nascimento dele, em Espera Feliz, mas a igreja onde tinha sido batizado, havia pegado fogo ou coisa parecida.
Etelvina Maria Gomes, a mãe do meu pai, era filha de Joaquim Gomes Coelho, dono da Fazenda do Suíço, em Laranja da Terra, em frente `a Pedra do Peixe. Vovô Quinca Silvestre, assim chamado porque era filho de Silvestre Gomes Coelho, (Quinca do Silvestre, abreviado para Quinca Silvestre). Dizem que o vovô Quinca falava tão alto que, quando contava um segredo na cozinha da fazenda, dava pra ouvir lá na estrada. Minha mãe o conheceu e disse que tinha um cachorro chamado Nabuco e um cavalo apelidado de Pica-pau. A mãe da vovó Etelvina, Julieta Maria de Jesus (não sei se assinava Gomes, do vovô Quinca), era filha de Francisco Tomás Leite Ribeiro, o Comendador Leite e de uma de suas escravas, da qual ainda não consegui descobrir o nome (não admira que o meu pai fosse moreno e tivesse o apelido de Nêgo). Sua irmã gêmea chamava-se Júlia e casou-se com o irmão do Vovô Quinca, José Gomes Coelho, o Tio Zeca, que morava em Mutum, portanto as irmãs eram concunhadas. Segundo a Iraci, filha do tio Quinquinho (Joaquim Gomes Filho) irmão da vovó Etelvina, o pai dela contava que o Comendador Leite comprou as terras em Laranja da Terra, que íam desde a Onça até `a presente Fazenda do Suíço, para dar `as duas filhas espúrias. A biografia do Comendador Leite lista quatro filhos, um deles, José Leite Ribeiro, casado com uma prima, Ana Leite Ribeiro; dos outros ainda não consegui descobrir os nomes. Tenho que pesquisar mais, pois segundo a história da fundação de Lajinha, foi um genro do Comendador Leite, Antônio Pedro Garcia, quem doou um alqueire de terra na propriedade que herdara do sogro, a Mateus Laranja e José Lucas de Barros, que cortaram a mata e preparam o terreno para a construção da capela de Nossa Senhora de Nazaré, dando origem `a cidade de Lajinha.  Se este genro era casado com uma filha ilegítima também, eu não sei. É interessante  que, só hoje, dia 10 de dezembro de 2011, com cinquenta e oito anos de idade, fiquei sabendo que a minha bisavó era filha de escrava. Não me lembrava do nome dela, e havia pedido `as minhas irmãs e meu irmão para pesquisarem, mas ninguém o fizera.
Decidi ligar para a Aurinha, esposa do Adeíldo Heringer Gomes, que é filha da Colinha, esposa do Seu Álvaro Dias (filha de Arnaldo Leite, que era filho de José Leite Ribeiro, filho do Comendador Leite), que eu sabia ser prima da vovó Etelvina. Tia Julica (Júlia), irmã da vovó, sempre passava lá na casa dela pra visitar a prima. A Aurinha me deu o telefone do tio dela, Seu José Leite Ribeiro, irmão da Colinha (Iraci Leite Ribeiro), que me deu os nomes do seu pai, seus tios e do avô, José Leite Ribeiro, filho do Comendador. Mas não sabe o nome do outro (ou outros) filhos do Comendador. Orientou-me a ligar para a Shirley, esposa do Antônio Alvim, filha de Alzira (Zizinha), filha de José Ribeiro Leite, e muito interessada na história da família. Shirley me deu muitos nomes, inclusive de dois filhos de José Ribeiro Leite com uma escrava, “tio Levindo Leite e tio Mendonça Leite, pretos de alma branca”, como ela diz. Mas nada sobre minha bisavó. Sugeriu que eu escrevesse uma carta para a Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens, de Iúna (Lajinha pertencia a Iúna, na época do Comendador), que me dariam informações.
Fiquei desencorajada. Estava procurando pela minha bisavó, que era filha do Comendador Leite, e falando com os familiares dele, mas não conseguia descobrir nada.
Resolvi ligar para os primos do meu pai que ainda estão vivos. Comecei pela Iraci, filha do tio Quinquinho (Joaquim Gomes Filho), esposa do Antônio Sanglard, do qual meu pai foi sócio na malharia. Ela foi direto ao assunto. “Leonina, o meu pai contava que a mãe dele, Julieta (esposa do vovô Quinca) tinha uma irmã gêmea chamada Júlia, e era filha do Comendador Leite com uma escrava.
 Levei um choque, não pelo fato da nossa herança africana estar tão próxima, mas por não ter sabido disto até agora. Será que o meu pai, que já é falecido, sabia? Minha mãe, que está com Alzheimer, mas tem momentos de grande lucidez, diz que ele não sabia. Minha tia Ilda, viúva do tio Nolmerindo, também não sabia. Interessante é que o meu filho Olímpio Júnior tem os cabelos crespos e meu pai sempre brincava dizendo que ele havia herdado os cabelos da tia Viana, negra, esposa do tio dele, irmão do vovô Alvim, que não tem relacionamento de sangue conosco. Penso que se soubesse não esconderia, nem atribuiria o detalhe do cabelo do meu filho `a tia Viana. Como sou a mais morena dos filhos, sempre me dizia que nós dois tínhamos a cor que não desbota…
Agora posso entender, não só o cabelo crespo do Júnior, mas também porque tenho os glúteos avantajados, para não dizer a bunda grande, quando minha mãe nem bunda direito tem. Fiquei contente de ter encontrado um ingrediente que faltava no meu rótulo.
Tornei a ligar para o Seu José Leite para lhe contar que havia descoberto a minha ancestralidade negra (escrava). Perguntei-lhe novamente se sabia alguma coisa da minha bisavó, mas ele disse que não. A única coisa que acrescentou, foi confirmar a história da sua prima, Shirley, sobre os filhos do avô deles,  José Leite Ribeiro, Levindo Leite e Mendonça Leite, que foram registrados como filhos dele e da esposa legítima e criados com o casal.
Disse também que ouviu que o Comendador Leite tinha uma fazenda no Ocidente, para onde levava as escravas escolhidas (uma espécie de harém, comentário meu e não dele).

A Zilmar, prima do meu pai, me passou informações sobre o vovô Quinca (Joaquim Gomes Coelho:
Pai: Silvestre Gomes Pereira; Mãe: Maria Rosa Coelho
Os irmãos de Joaquim Gomes Coelho: João Gomes Coelho, José Gomes Coelho, Vespasiano Gomes Coelho, Pedro Gomes Coelho, Teodora Gomes Coelho, Maria Gomes Coelho e Josefina Gomes Coelho, esta mãe da Clarinda, da qual minha irmã herdou o nome. Aliás, o Sidney, filho do tio Quinquim, outro primo do meu pai, me deu os nomes de todos os filhos da tia Josefina: Mariza, Tarcila, Lucas e Clarinda (a que já foi citada, de quem a minha irmã herdou o nome). Ele disse que quando era vendedor da malharia que tinha de sociedade com o cunhado Antônio Sanglard (mais tarde vendeu a parte dele para o meu pai), sempre passava na loja do Lucas, em Espera Feliz, se me lembro bem.

Filhos do vovô Quinca com Julieta Maria de Jesus (a filha do Comendador Leite com a escrava):
 . Etelvina Maria Gomes (minha avó), casada com Alvim Fortunato Gomes, cujos filhos são Osvaldo, Astrogildo, Maria (tia Lilica), Norival, Valmerinda, Nolmerindo, Ataídes e Valmira;
. Joaquim Gomes Filho (tio Quinquinho), casado com Maria Vieira Gomes, pai do Sydnei, Amélia, Iraci e tia Lili (Eli, que se casou com meu tio Ataídes);
. Júlia Maria Gomes, casada com Pedro Domingos, cujos filhos são Mimita (Élima Élida ) e Jojô (José Joanez);
. Joaquina Gomes (tia Quininha), primeira esposa do Seu Geraldo Gomes e mãe do Bililim (Nilton Gomes);
. Maria Gomes, casada com Paulo Eliocádio e mãe do Seu Júlio Vieira Gomes e Tarcília;
. Julieta Gomes, casada com Antônio (Antõezin) de Oliveira, mãe do Abdias e Alandia;
. Eusláquio Gomes, casado com Eni Gomes, pai do Eney, Joaquim, Nilda e Gessi;
      . Antônio Gomes, tio Totônio, que morava no sítio que pertenceu ao Jaime Heringer e cuja esposa se chamava Maria, cujos filhos são Reinvir, Air, Renilda, Maria de Lourdes e Terezinha;
. Silvestre Gomes (Ti Véte), do qual não sei o nome da esposa, que morava no Côco, faleceu bem jovem, sem filhos, de hemorragia causada por um tiro, quando uma espingarda pendurada na cabeça do arreio do animal que cavalgava, disparou atingindo sua perna.
Pelo jeito, os descendentes legítimos do Comendador não impediam que os filhos tivessem contato com os parentes descendentes de escravos, caso contrário não haveria amizade entre a tia Julica e a Colinha.
Fica a dúvida; era costume dos senhores de escravos doarem terras para seus filhos espúrios? Penso que tenho muito a pesquisar sobre o assunto.
O Júlio, filho do Jojô (José Joanez Domingos) e da Leinice, me enviou o documento abaixo. Seus pais são primos, ambos descendentes do vovô Quinca e a Leinice conserva uma cadernetinha dele, que o pai dela, Seu Júlio Vieira Gomes, filho da Maria, guardava com muito cuidado. Eram as anotações de todos os eventos importantes na vida dele. O Júlio copiou apenas alguns:

“Trechos de um caderno que estava em poder do meu avô Julio Vieira Gomes e que pertenceu ao avô dele Joaquim Gomes Coelho.

Vou providenciar uma cópia das páginas dele e envio em breve.”

                (Júlio Gomes Domingos)



Joaquim Gomes Coelho e filhas Etelvina (mãe do meu pai), Joaquina (tia Quininha),
 mãe do Bililim e tia Maria (mãe do Seu Júlio Vieira e Tarcília)

"8 de janeiro de 1864 nasceu Joaquim Gomes Coelho



Casei-me com a Excelentíssima Senhora Dona julieta Maria de Jesus, no dia 17 de janeiro de 1885. E nasceu a minha filha Maria no mesmo ano a 24 de outubro.


Nasceu a minha filha Itelvina no dia 14 de setembro de 1887

Nasceu o meu filho Antonio no dia 14 de junho de 1889

Nasceu o meu filho Joaquim no dia 24 de agosto de 1890

Nasceu o meu filho Silvestre no dia 24 de dezembro de 1893

Nasceu a minha filha Julieta no dia 16 de março de 1896

Nasceu a minha filha Julia no dia 3 de abril de 1903

Nasceu o meu filho Euslaquio no dia 8 de novembro de 1905

Nasceu a minha filha Joaquina no dia 6 de fevereiro de 1908

Casei a minha filha Maria no dia 15 de abril de 1906

Casei a minha filha Itelvina no dia 31 de julho de 1909

Nasceu a minha neta Tarcilia filha da Maria no dia 21 de dezembro de 1907

Nasceu meu neto julio no dia 8 de março de 1909"

Fiquei emocionada de ler as anotações do meu bisavô, especialmente por ver como ele tratava minha bisavó, Julieta Maria de Jesus, filha de escrava, como Excelentíssima Senhora Julieta Maria de Jesus, a qual faleceu com quarenta e dois anos de idade.

Vovô Quinca casou-se novamente com a tia Catuta (Idalina Vieira), que não era tia do meu pai, mas ele a chamava de tia. Era irmã da tia Lia (Maria), esposa do tio Quinquim (Joaquim). Teve dois filhos  com ela:
. Ademar Vieira Gomes, que se casou com Zilpha Alves Heringer (filha do tio Brilhantino, irmão do vovô Américo) e
Casamento do Tio Dedé e Tia Zilpha
. Nivaldo Vieira Gomes, não sei o nome da esposa do primeiro casamento; casado com Maria Gomes, em segundas núpcias.
Tio Dedé (Ademar) teve os seguinstes filhos: Zilmar, Ilza, Adeíldo, Aloísio, Eniglacy, Sueli, Dalambert, Gilberto, Leíse e Liliane. Tio Vadim (Nivaldo) teve duas filhas do primeiro matrimônio (Maria Celeste e Sueli) e um filho do segundo matrimônio, Nimar.

Por incrível que pareça, sem que eu procurasse, estão aparecendo informações que eu não tinha e nem esperava conseguir. Um amigo de Lajinha, Gilberto Bahia, para quem enviei algumas revistas Bate-Papo, com uma crônica sobre o meu encontro inesperado com a irmã dele aqui em Boston, numa festa de casamento, depois de mais de quarenta anos sem nos vermos, enviou-me a Revista de Lajinha (2000), que traz a biografia do meu trisavô Comendador Leite. Vejam a cópia na página que se segue (Para tentar ler, clique na figura da página, depois é só fechar no X).









































Conta-se que quando o Comendador veio de São João Del Rey com a sua grande caravana de escravos, empregados e familiares, trouxe uma santinha (N.  Senhora de Nazaré), que foi colocada na primeira capela na Fazenda S. Domingos e, eventualmente, transferida para a capela na vila, tendo dado nome `a Igreja de Nazaré, em Lajinha. A santinha permaneceu no altar daquela igreja até os anos sessenta ou setenta, quando a esposa de um político em visita a Lajinha, talvez percebendo o valor da peça barroca, encantou-se com ela. Foi-lhe dada de presente.

Fiquei intrigada com um detalhe. O Comendador não deu o sobrenome `as suas fihas escravas, mas colocou um nome que estava na família dele há muitos anos, Maria de Jesus nas filhas (Julieta Maria de Jesus e Júlia Maria de Jesus). Uma das avós do Comendador chamava-se Escolástica Maria de Jesus Moraes. Não sei até que ponto este era um costume dos senhores de escravos, de doarem os seus filhos espúrios a Maria e Jesus ou se ele teve alguma intenção de perpetuar a memória da sua avó nas filhas. O certo é que não sei também se era costume os senhores de escravos doarem terras para seus filhos mulatos. Mas o Comendador Leite doou terras para as filhas.

Alguém me disse que o Comendador Leite teria tido quatro filhos legítimos. Entretanto, não descobri outro além do José Leite Ribeiro, mesmo após demorada pesquisa e de ter ligado para um que me indicou outro, que me indicou outro, e acabar falando com Lajinha quase toda. Descobri também, que quase todas as pessoas daquela cidade, tem algum tipo de parentesco. Portanto, encontrei informações apenas deste filho legítimo e das duas filhas escravas, minha bisavó Julieta e a sua irmã gêmea, Júlia. 


Da família do meu avô  materno, Américo Marcelo Heringer, até que temos bastante informações, graças a pessoas que gostavam de escrever e registrar fatos e também de documentos em arquivos do Primeiro Reinado (D. Pedro I), que tem registro do primeiro acordo formal feito para admitir imigrantes não católicos no Brasil. Portanto, mesmo tendo havido uma colônia de alemães no Sul da Bahia, a primeira leva de imigrantes alemães a chegarem no Brasil reconhecida pela Coroa, foi a que veio no Navio Argus, saindo de Den Helder na Holanda.
O pai do vovô Américo, João Carlos Heringer, foi casado duas vezes e teve vinte e dois filhos. Depois que a primeira esposa, Isabel Emerick,  faleceu, casou-se com Antônia Raposo.
Quando comprou as terras ao longo do córrego a quem ele mesmo deu o nome de Laranja da Terra, pela fruta nativa encontrada no meio da mata, meu avô, Américo era adolescente.  Veio com o pai, vovô João, para ver as terras. Pararam num pequeno rancho no meio da mata. Do lado de fora havia um pilão, e um menino nu brincava dentro dele. Chegaram e começaram a conversar com a mulher que, depois  de alguns minutos, perguntou ao meu bisavô se ele aceitava um café e ele disse que sim.  Ela, então, saiu para o terreiro, cortou umas canas, picou-as em pedaços.  Mandou o menino sair do pilão, limpou-o rapidamente com um pano seco, pegou uma mão de pilão  e socou a cana dentro dele. Colocou a mistura pra ferver com água e passou o café num coador de pano. Meu bisavô, vovô João, tomou o café. Quando saíram, pergunta ao filho Américo: “Ô menino bobo, por que não tomou o café?”  O rapaz então explicou que vira onde e como ela preparara a cana para o café, através dos buracos na parede do rancho.
Tio Elói, Vovô Américo e tio Brilhantino
Minha mãe conta que na véspera do dia em que devia fazer o pagamento das terras que comprara em Laranja da Terra, assaltantes chegaram na sua Fazenda Rancho Alegre em Alto Jequitibá e renderam toda a família, querendo o dinheiro. Amarraram todos nas cadeiras na sala, ficando um jagunço vigiando com uma arma, enquanto os outros reviravam tudo para ver se encontravam o dinheiro. Minha mãe disse que o vovô Américo contava que o tio Afonso era garoto e não conseguia ficar acordado e cochilava amarrado na cadeira. Vovô João havia viajado na véspera. Foram embora sem nada. Os ladrões estavam lá a mando do próprio vendedor, do qual eram empregados, um homem da região de Pequiá, tendo sido reconhecidos como tal pelo pessoal da casa.
De uma outra feita, vovô João estava viajando a cavalo e foi parado por um assaltante que o revistou todinho e não encontrou nenhum dinheiro. Acabou dando-lhe uns chutes na bunda, dizendo: "Velho rico sem vergonha, andando sem nenhum dinheiro." O dinheiro estava no bolso de trás da calça, uma novidade na época,  da qual os ladões não sabiam ou não se lembraram.
Quando os filhos do Vovô João estavam abrindo clareira nas terras em Laranja da Terra, vovô Américo e outros fizeram uma cabana com pernas de pau bem altas e colocaram uma escada para subir. Certa noite, a onça estava rosnando no pé da escada e tiveram que jogar a escada lá embaixo.


Vovô João vendeu ou emprestou dinheiro para um jovem chamado Alvim Fortunato Gomes, comprar uma fazenda. Na data marcada para receber, foi `a casa do devedor e o mesmo lhe disse que não tinha o dinheiro para pagar. Entretanto, o chiqueiro estava cheio de porcos gordos, havia muito milho e outros cereais no paiol e o Vovô João disse a quem o estava acompanhando "O homem é trabalhadeira, ele paga..." E foi-se embora. Sem saber que, dali a alguns anos, o filho daquele senhor, meu pai, Norival,  iria se casar com a sua neta, minha mãe, Erandi, que ele não chegou a conhecer. Faleceu no dia sete de setembro de 1931.    Ela nasceu um mês e pouco depois, em doze de outubro.

Vovô Américo e vovó Leonina
                no Rio de Janeiro (anos 20)
O meu outro bisavô materno chamava-se Filadelfo Mariano de Freitas, filho de Narciso Antônio de Freitas e Cândida Theresa de Freitas e minha bisavó Arminda Antônia de Freitas, filha de Ovídio Alves da Silva e Emília Antônia Soares.  Vovô Ovídio, minha mãe o conheceu já bastante idoso. Ficou doente mental e só passava por caminhos antigos, nunca em estradas novas. Tia Edil me disse, poucos anos atrás, que a vovó Leonina dizia que uma bisavó dela, foi pega a laço. Era puri, índia.  
Meu avô materno, Américo Marcelo Heringer nasceu em 16 de janeiro de 1896 e casou-se com minha avó Leonina Soares de Freitas (que se tornou Leonina de Freitas Heringer) em 25 de dezembro de 1920. Ele tinha vinte e quatro anos e ela dezesseis. O Seu Vertulino Moreira, que era casado com a Ridumira, prima da vovó Leonina, contava que logo depois do casamento, vovô Américo ía na estrada conversando com os sogros e a Leonina, ía na frente, saltando como uma criança, que ainda era.
Depois de uns dois anos de casados, foram passear no Rio de Janeiro, na casa da tia Mimi, irmã do vovô Filadelfo, e foi quando ela engravidou, da tia Elzina, me parece. Depois nasceu o tio Gil.
Quando tio Gil era ainda bem pequeno, Vovô Américo e Vovó Leonina foram ao Rio de Janeiro novamente. Tia Mimi e o esposo, do qual não me recordo o nome, dormiam em camas separadas, no mesmo quarto (talvez um costume da Modernidade, introduzido pela Teoria do Individualismo). Tio Gil notou o detalhe e comentou com os pais:"Mas, aposto, que, de noite, ele passa pra cama dela."
Minha mãe conta que o casal teve muita dificuldade em manter uma vaca leiteira para tratar das crianças, pois na época, havia tantos mosquitos que o animal não resistia e morria. Passaram a criar uma cabrita, amarrada perto da casa, para tal fim.
Na época em que minha mãe era criança, a condução usada era o carro de boi. Vovó Leonina, quando ía a Lajinha, levava as crianças menores no carro de boi e as maiores íam caminhando. Pernoitava na casa da prima Júnia, esposa do Jovino Seu Aguiar, no Areado.


Vovô Filadelfo e vovó Arminda viviam na fazenda onde nasci, no final do Córrego Laranja da Terra. Na época da Grande Depressão, estavam para perder a fazenda para o banco. Devido `a Queda da Bolsa de Nova Iorque, o café passou a não valer nada, de tal forma que se queimavam grandes quantidades do produto. O genro, vovô Américo, que avalizara para ele, vendeu a fazenda que tinha na cabeceira do mesmo córrego para o cunhado Aurino, esposo da tia Ambrosina, pagou a dívida e ficou com a fazenda do sogro. Vovô Filadelfo mudou-se para o Norte, do Espírito Santo, um lugar chamado Pancas.
Vovó Arminda e tio Reginaldo (filho dela)
Em Pancas, comprou um sítio onde havia umas pedras interessantes, facetadas, tipo lapis e coloridas. Não precisavam nem cavar para encontrá-las, achavam-nas até na superfíce. Entretanto, o lugar era muito perigoso. Havia uns assassinos que, por qualquer coisa, levavam as pessoas para uma cachoeira e lá as assassinavam. Como não havia justiça, seguiam impunes com seus crimes.
Tio Reginaldo, irmão da vovó Leonina, era jovem e muito positivo e acabou por ser levado pelos assassinos para a cachoeira também. Só que não tiveram coragem de matá-lo… Vovó Arminda, a mãe dele, não quis ficar em Pancas…
Alcino, Vovó Arminda e Vovó Leonina
Como haviam se tornado amigos da família do Seu Pedro Marcolino, pessoas muito boas que estavam se mudando para Itabira, resolveram mudra-se para lá também. Não passou muito tempo e descobriu-se que as pedras de Pancas eram pedras preciosas, e o homem que comprara o sítio do vovô e do Seu Pedro Marcolino, ficara muito rico.
Por outro lado, a vida da família em Itabira foi muito próspera também. Tio Reginaldo montou um armazém e depois um posto de gasolina. A princípio, viajava para Valadares com um galão de metal que trazia com gasoline para vender, depois montou o posto.  E comprou várias casas na “rua” como se costumavam referir  ao vilarejo de Itabira. Uma uma dessas casas do tio Reginaldo que meu pai alugou e na qual chegaremos de mudança.
Quando vovô Américo e vovó Leonina foram visitá-los, em Itabira, compraram terras lá também, onde os filhos (tio Joel e Jeronil, e depois Adiles e Elzina) foram morar e tiveram grande sucesso. Divina Providência...
Vovó Arminda ficou paralítica, conta-se que foi porque saiu na chuva com o corpo quente, depois de ter torrado café. Ficou muito depressiva, pois era uma mulher muito dinâmica. Trabalhava bastante, fazendo doces para a venda que o filho Reginaldo tinha em Laranja da Terra, a venda na propriedade do tio Brilhantino, que no meu tempo era de um tal de Chico Rosa e depois do Jairo Heringer. Mas gostava de viajar e estava sempre indo ao Rio de Janeiro, pois tinha a cunhada que morava em Niterói, a tia Mimi, irmão do Vovô Filadelfo. Levava as amigas que precisassem de se tratar e há uma foto em que ela, minha avó Etelvina, mãe do meu pai e a tia Verônica, irmã do vovô Américo estão no Rio de Janeiro, muito elegantes, de chapéus.
O certo é, que quando se mudaram para Itabira, não sei até que ponto viajaram de caminhão, se é que viajaram. De um determinado ponto em diante, ela foi na cadeira de rodas, dentro do carro de bois, no qual também ía o cachorro da família. Com as estradas muito ruins, num certo momento, o carro de bois tombou, derrubando toda a carga. Todos ficaram alarmados, querendo acudir a Vovó Arminda, cuja primeira reação foi perguntar pelo cachorro, para saber se havia se machucado.
Meu pai, Norival Fortunato Gomes, nasceu no dia 8 de setembro de 1918. Cresceu cercado de irmãos e irmãs, tios e tias. O avô dele, Joaquim Silvestre Gomes, ficou viúvo e casou-se com D. Catuta Vieira e teve dois filhos, tio Dedé (Ademar) e tio Vadim (Nivaldo). Tia Filhinha (Julieta), irmã da vovó Etelvina era a costureira oficial da família e passava dias na casa da vovó Etelvina costurando, Certa vez, fez um terninho para o meu pai. Ele estava todo feliz, até que chegou um fotógrafo e vestiram o terninho dele no tio Vadim, mais ou menos da mesma idade (seis, sete anos...). Ficou furioso e, da próxima vez que o tio Vadim foi `a casa dele, travou uma luta com ele, jogando-o na lama. Deram banho nos dois, tio Vadim não tinha roupas extras para vestir e colocaram o terninho do meu pai nele. Como ele dizia "ficou com o chifre doído pela segunda vez".


Quando meu pai tinha dez anos, passou por Laranja da Terra, indo para Lajinha, o primeiro caminhão. A estrada cheia de morros, o pior sendo o Morro da Padaria do Seu João Gomes, o homem que colhera assinaturas para passar Laranja da Terra para o Estado do Espírito Santo. Meu pai foi o candeeiro dos bois que puxaram o caminhãozinho morro acima na área próxima `a fazenda do vovô Alvim, que na época era a fazenda pertencente ao Seu Alvino, pouco abaixo da fazenda do vovô Américo. Contava ele que, quando o caminhão apareceu na estrada, a lavadeira da vovó Etelvina, Maria Veridiana, estava carregando uma bacia de roupas na cabeça, que jogou no chão, saindo correndo e gritando:"D. Etelvina, lá vem uma casinha azule arrasano o mundo".
 O motorista do caminhão dormiu na fazenda e o assunto era "chofer pra cá, chofer pra lá". A Maria, pensando que a carga do caminhão, vasos de cerâmica tivessem este nome, comentou: "O caminhão tá lotado de chofer".                               
Só vou introduzir aqui um detalhe: a história dos transportes evoluiu muito rapidamente em Laranja da Terra, pois, se em 1928, pasou por lá o primeiro caminhão, bem antes de eu nascer, em 1953, quando eu nasci, já existia o campo de avião na fazenda do tio Elói. Não sei em que ano o Adiel, filho dele, começou a pilotar, mas a tia Edil contava que, na primeira vez em que ele foi a Laranja da Terra de avião, o tio Elói fez festa três dias para a inauguração do campo. Muitas pessoas tiveram a oportunidade de "dar uma voltinha" com ele no avião. Tio Elói era tão bom com a gente, sempre com a mesma expressão depois que a gente falava:"Tá dereito". Também o Magalhães, genro do tio Aurino, era piloto de aviões.


Meu pai serviu o Exército no Rio de Janeiro, tendo feito parte do Batalhão de Guardas, tendo servido na Guarda do Palácio Presidencial nas gestões dos Presidentes Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. Durante o tempo em que morou no Rio de Janeiro, oito anos ao todo, fez também o Artigo 99, equivalente do Curso Ginasial, no Instituto de Ciências e Letras do Rio de Janeiro.  


Norival Fortunato Gomes
Quando o tio Joel e tio Jeronil se mudaram para Itabira, em 1950, meu pai já havia dado baixa no Exército e voltado para Laranja da Terra. Minha mãe, treze anos mais nova do que ele, menina ainda, já sentia uma grande atração pelo vizinho que vinha do Rio de Janeiro desfilando o seu uniforme. Entretanto, foi nesta mudança dos tios para o Norte, que o meu pai foi convidado para ir junto como motorista, além do Seu José , o Adnílio e o Jeús. Minha mãe e a Iracema, irmã da tia Jeni, foram para ajudar com as crianças e nas obrigações. Gilza tinha menos de dois anos e o Jesonias dois meses. Tia Adenair, esposa do tio Jeronil, não foi porque estava grávida, perto de ter o bebê. 
O caminhão, além da mudança e das pessoas, levava tijolos e cimento. De São Sebastião (uma vila bem pequenina que existia depois de Mendes Pimentel) prá lá, não tinha como o caminhão passar, pois não tinha ponte. Ficaram numa casa onde a mulher matou uns frangos para jantarem. Um carneiro cismou com o meu pai e não podia vê-lo que vinha dar-lhe cabeçadas. Tio Joel mandou o Adenílio a Itabira buscar animais para levar as mulheres e as crianças. Minha mãe sugeriu que fôssem caminhando até encontrar-se com os animais. Meu pai, Norival, foi a cavalo, pra Mantena, resolver documentação pro tio Joel. 
Batalhão de Guardas Rio de Janeiro
               (Meu pai, Norival, no meio, em pé) 
A minha mãe carregava o Jesonias e a Iracema, a Gilza. Quando chegaram a Barra do Funil, havia uns pés de laranja carregados. "Forrei um pano no chão, coloquei o Jesonias e ficamos chupando laranja", minha mãe conta. "Aí os animais chegaram e a mudança ficou pra ser buscada depois que arrumassem a ponte. Ficamos um mês lá. Não tinha água encanada; tínhamos que lavar as roupas no rio; `as vezes quatorze calças. 
Casamento dos meus pais (Erandi e Norival)
1952
Seu Pedro Marcolino, o amigo do vovô Filadelfo, que era confrontante, estivera tomando conta da fazenda para os tios Joel e Jeronil.
Era para o tio Jeronil voltar para olhar os negócios do caminhão que haviam comprado dos primos em Realeza, mas o tio Joel decidiu que era melhor que ele voltasse. Tia Adenair, que esperava o tio Jeronil, chorou muito quando viu que ele não havia vindo.
Meu pai voltou também e quando, um mês depois, minha mãe chegou com a Iracema, ele foi `a casa dela para saber notícias do pessoal que havia ficado em Itabira. Começaram a namorar. 
Eu (Leonina) aos seis meses de idade
Minha mãe disse que os pais dela não eram favoráveis ao casamento dos dois, pelo fato de o meu pai ser de família católica. Entretanto, ela pensava que os Fortunato eram muito bons pra família e não teve dúvidas em se casar com ele. O primeiro beijo foi na véspera do casamento e ela disse que não dormiu direito `a noite, preocupada com o acontecido.
No ano seguinte, em 23 de janeiro de 1953, eu nascia.

Vou interromper minha narrativa novamente para dar uma palinha sobre os ancestrais do meu avô materno, Américo Marcelo Heringer. Não porque ele mereça mais atenção do que os outros avós, simplesmente porque tenho mais informações sobre a família dele que dos outros.
Para isto, vou ter que voltar na História do Brasil e do mundo, dois séculos atrás.






Início da Imigração Alemã para o Brasil - História dentro da nossa história
             
                                                 Nova Friburgo

(Pesquisa feita com a ajuda dos seguintes livros e sites da internet:
     . Muller, Armindo L - O Começo do Protestantismo no Brasil

. Áurio, Pedro - Como surgiu Nova Friburgo
. Lacoud, Raphael - Os Colonos Alemães e a Comunidade Evangélica de Nova Friburgo
. Sathler,  Rev. Anderson - A História da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá
. Acervo da Comunidade Evangélica de Nova Friburgo
. Caderno de Cultura -série 8 vol. 1-Notas Para Estudo da Presença Alemã em Nova Friburgo
. Heringer, Alvelina - Escritos Esparsos
. Heringer,  Berenice - Pelos caminhos vão teus pés ligeiros (Dados Históricos e Descendência da Família Heringer (1982)

A primeira leva de colonos alemães vinda para o Brasil em caráter oficial, ocorreu em 1824. Antes disto, o Brasil, país oficialmente católico na época, não aceitava imigrantes protestantes. Colonos suiços (de fé católica), haviam sido trazidos e instalados em  Nova Friburgo, numa vila especialmente construída para tal. Fatos históricos desencadearam a vinda dos colonos alemães.
 Em 1808, o Exército de Napoleão Bonaparte, Imperador da França, invadiu Portugal, causando a fuga do então Prícipe Regente D. João e toda a sua corte para o Brasil. A chegada da Família Real traz muito progresso para a colônia. Os portos são abertos ao comércio, fábricas são criadas (antes eram proibidas, lembra que o sabão era do Reino, a pimenta…), são criados a Biblioteca Nacional, o Banco do Brasil, entre outros.
Entretanto, em 1820, o Rei D. João VI retornou a Portugal, deixando em seu lugar o Príncipe Regente D. Pedro de Alcântara. Prevendo que o Brasil brevemente se tornaria independente de Portugal, instruiu o filho a que, caso sentisse que isto iria acontecer, que tomasse providência para que ele mesmo o fizesse, continuando o Brasil sob a liderança de um deles. Foi aí que D. Pedro I,  cujo  Exército era constituido na maioria de portugueses,  sente a necessidade de criar uma tropa estrangeira, não ligada a Portugal, para defendê-lo. Em primeiro de setembro de 1822, seis dias antes de ocorrer o suposto Grito do Ipiranga, tornando o Brasil independente de Portugal, parte para a Europa, a mando de D. Pedro, um alemão de nome George Anton Von Schaffer, com a função de contratar soldados mercenários.
O senhor Schaffer, aproveitando a oportunidade de estar a mandado do Príncipe do Brasil,  planejou também trazer colonos para um outro alemão, Johann Philipe Hening, que, supostamente era dono de uma grande área de terra no Sul da Bahia, num local denominado Jacarandá, a que deram o nome de Frankenthal, em homenagem a uma cidade alemã. Também afirmavam que haviam requerido uma outra área próximo a esta, a quem dariam o nome de Leopoldina, em homenagem `a esposa de D. Pedro I.
 Em quase toda a Europa, era proibido o aliciamento de mercenários, temendo-se o que acontecera com Napoleão Bonaparte que, com a ajuda de mercenários suiços, tentara dominar a Europa. As Guerras Napoleônicas eram responsáveis em grande parte pela situação desastrosa em que o continente europeu se encontrava.

O senhor Schaeffer então, usou uma estratégia bastante interessante. Resolveu chamar a todos de colonos, os soldados classificados como colonos de primeira classe, teriam suas passagens pagas  pelo Imperador e ficariam no Rio de Janeiro, para fazer parte do Batalhão de Estrangeiros; os colonos de segunda classe, destinados `as colôninas de Leopoldina e Frankenthal, pagariam as suas próprias passagens e o contrato com os mesmos oferecia as seguintes vantagens:
“Todos os pais de família… receberão incontinente `a chegada ao Brasil (Com anotações de Raphael L. S. Jaccoud, no seu livro “Os colonos Alemães e a Comunidade Evangélica Luterana de Nova Friburgo, pág. 4):
 O direito de cidadão com todas as vantagens… e todos os direitos gerais e especiais de que gozam os proprietários e possuidores livres… conforme as leis do país…. Sua Majestade Imperial… tem resolvido que os colonos neste (contrato) mencionados  sejam incorporados `as colônias já fundadas desde 1816, de Leopoldina e Frankenthal sobre os rios Caravelas e Viçosa. Tendo os possuidores e proprietários… os senhores Georg Anton Schaffer e Guilherme Freireys (um outro alemão interveniente) tomado a obrigação de receber todos os colonos nas terras a eles pertencentes… Cada pai de família e cada homem independente… receberá logo que chegar, duzentas jugardas renanas (medida de terra da região do Rio Reno) de terra (cerca de 77,44 hectares). Os senhores possuidores e proprietários das colônias de Leopoldina e Frankenthal obrigam-se a dar a todos os colonos as casas e outros edifícios necessários… devendo os objetos assim feitos serem considerados como propriedade dos colonos. Os senhores possuidores acima mencionados obrigam-se a fornecer gratis a todos os colonos, as sementeiras e mudas dos produtos do país… o abaixo assinado (contratante) com aprovação do major Schaffer, tem firmado contrato especial com o senhor pastor Frederico Sauerbrom… para servir de cura e pregador evangélico das comunidades de Leopoldina e Frankenthal… o Governo brasileiro obriga-se a conceder ao pastor Sauerbrom o mesmo ordenado que se paga aos curas do Império… o abaixo assinado (contratante) convida… a todos os senhores colonos a que se acaso o ordenado paga pelo Governo não for igual ao vencimento de dois mil florins renanos… as famílias colonas lhe concederão uma contribuição pro-rata e declaram-se prontos a pagarem o dito aumento de ordenado . Finalmente declaram todos os colonos abaixo assinados que eles pagarão… as despesas de sua passagem…”

Como se percebe, as ofertas neste contrato não são ruins. Sair de um continente assolado pela guerra e com oportunidade de vir para as Américas, recebendo terra, casa para morar, sementeiras e mudas, além de  “outros edifícios necessários…”
Além disto, os colonos não estavam sozinhos. Tinham a companhia                                                                                                 de um pastor, um  líder espiritual que os guiaria na nova aventura.
Estava assim quebrada a proibição do exercício da religião protestante no Brasil. E, por incrível que pareça, o Pastor Sauerbrom iria ser pago pela Coroa Brasileira.


                            Navio Argus ou Argos -  

A viagem  para o Brasil foi bastante tumultuada. Trazia 284 pessoas, 134 colonos e 150 soldados.
Vou reproduzir aqui um trecho da carta que o Pastor Friederich Sauerbronn, que veio liderando os passageiros do Navio Argos, uma embarcação `a vela para transporte comercial, adaptada com beliches para acomodar passageiros, escreveu a parentes na Alemanha, datada de 10 de setembro de 1824.

Propaganda do Navio Argus,
embarcação de bandeira neutra
“Partimos do Porto Holandês de Den Helder em 19.07.1823, depois de termos ficado 31 dias na Holanda. Após 18 dias de viagem fomos obrigados, com o mastro médio quebrado, sob uma horrível tempestade, voltar ao mesmo porto. Levamos mais 12 dias para conseguir entrar no canal onde, outra vez, uma tempestade nos obrigou a entrar no Porto de Couse, na Inglaterra, onde, permanecemos onze dias recebendo novos abastecimentos, e de onde seguimos a viagem até as Ilhas Canárias. Levamos 54 dias, com ventos desfavoráveis, até `a Ilha de Tenerife, a maior das Canárias.
Um dia antes da chegada em Santa Cruz, capital da Ilha Tenerife, fomos abordados por um pirata africano que tinha 100 homens e 36 canhões a bordo. Há ½ litro de espingarda distante de nós, carregaram todos os seus homens, com excelentes fuzis, pondo junto a cada canhão um homem pronto para abrir fogo. O pirate, com voz horrível, mandou que baixássemos nossas velas. Depois de feito isso, ele veio a bordo acompanhado por um único homem, vestido com um uniforme pitoresco. Ele viu o medo estampado em nossos rostos e percebeu que nosso navio era um pobre navio de colonos, mudou de repente seu tom de voz e nos ofereceu frutas como uvas, figos, laranjas, maçãs e também vinho e cachaça.
Após nossa chegada a Santa Cruz, soubemos que o mesmo pirate, um dia antes, capturou um navio transportador de mercadorias.
De Santa Cruz `as Ilhas de Cabo Verde, não tivemos mais tempestades, mas sempre ventos contrários. Um dia antes da chegada `aquelas ilhas, vivi as mais tristes horas de minha vida: 17/11/1823, `a meia noite, minha esposa, para sempre inesquecível, deu `a luz um saudável garoto. Reinou alegria geral nos nossos camarotes e eu doei 36 garrafas de vinho de Tenerife.
Após a alegria exagerada, vem a tristeza. Dia 18, `a uma da tarde, minha querida esposa morria. Ela não conseguiu ver o belo Brasil. Levei meu filho recém nascido para Nova Friburgo, onde um mês após a chegada, ele morreu de disenteria.
A viagem do navio continuous sem acontecimentos especiais. Após 8 meses, desde a partida da Alemanha, chegamos ao Rio de Janeiro em 13.01.1824, com mais pessoas do que partimos em Bercherbach, morreram 2 pessoas, mas nasceram 16.
Lista parcial (I) dos passageiros do Argus que foram para Nova Friburgo
(Philip listado como Phil e Jacob como Jacques)
Ao chegarmos, ficamos numa grande área pertencente ao Imperador chamada Armação, e eu consegui, com a minha família, uma casa excelente e alimentação com Monsenhor Miranda, o Inspetor da Colonização Estrangeira. Ficamos três meses por conta do Imperador e todos em "Dulce" júbilo. O Imperador (D. Pedro I) e a Imperatriz (D. Leopoldina, de origem alemã) nos visitaram várias vezes; eram muito condescendentes e conversavam com cada criança. 
Lista parcial(II) dos passageiros do Argos que foram
para Nova Friburgo
Dia 25 de abril fomos transportados, também por conta do Imperador, para aqui, Nova Friburgo, 40 horas distante do Rio de Janeiro. O lugar tem o tamanho aproximado de Glanodernheim e consta de prédios pertencentes ao Imperador, prédios de um andar, com telhados muito bons, com quatro quartos cada um. Os pisos não são como na Alemanha, de táboas, mas de palhinha, que tem muito aqui, ou de terra batida, como na Alemanha, o piso dos celeiros.
Cada família ganhou uma casa e por um ano e meio, diariamente, um franco ou meio potac por cabeça, o que é suficiente. Durante este ano e meio, cada família terá que cultivar uma parte das terras e lá construir uma casa."


O Navio Argus do Rio de Janeiro no dia 14 de janeiro de 1824. Os colonos de primeira classe, ou seja, os soldados mercenários, foram encaminhados ao Batalhão de Estrangeiros. Os de segunda classe foram instalados provisoriamente na Armação da Praia Grande, local usado como depósito de petrechos relacionados `a pesca da baleia. É que não havia nem sinal do Sr. Schaffer, que certamente estava na Europa aliciando mais colonos (trouxe quatro ou cinco levas de imigrantes) ou do Sr. Hening, ou mesmo do do "outro alemão interveniente" Guilherme Freireys,  as partes no contrato assinado pelos colonos que tinham como destino `a Colônia de Frankental e Leopoldina, todas aquelas benfeitorias descritas acima. 

A situação deles era bastante difícil, pois, ao assinarem o contrato com o Senhor Schaffer, haviam recebido o direiito `a cidadania brasileira, mas ao mesmo tempo, perdido a cidadania alemã. Isto feito deliberadamente para evitar que alguém que se arrependesse, quisesse voltar.
Antes que tivessem um destino, chegou mais um navio, o "Caroline", que chega ao Rio de Janeiro em 14 de abril de 1824 com soldados e 231 colonos.
Depois de de alguns dias, resolveu-se que os colonos seriam assentados na Vila do Morro Queimado, em NOva Friburgo.
Entretanto, alguns dos colonos não estavam satisfeitos com o desfecho da viagem. Haviam sido contratados para a colônia Frankenthal (e Leopoldina) na Bahia e era para lá que queriam ir.
Segundo Rafael L. S. Jaccoud, "quem mais bateu o pé foi o ourives Jacob Heringer, chefe de uma família de sete membros, oriundos de Oldenberg. Ele simplesmente negou-se a viajar para o Morro Queimado. Aliás, causa espécie o fato de um ourives participar de uma leva de colonos destinada a abrir e lavrar uma região agrícola no Sul da Bahia. Teria ele seus olhos postos nos diamantes do Rio das Contas ou nas rutilantes gemas do Rio Doce? Tudo isso são meras conjecturas." 
Famílias de Jacob Heringer e Philip Heringer
que chegaram ao Brasil no Navio Argus em 1824
E acrescenta: "Depois de algumas altercações e xingamentos, Heringer (Jacob) foi preso e sua família ficou `a beira de sofrer as piores privações. Depois, por interferência de terceiros, ele acabou por pedir desculpas ao Imperador (D. Pedro I). Este perdoou, e os Heringer subiram a serra e passaram a compor, com muito brilho, a Comunidade Friburguense."

Pois bem, é bom esclarecer que este não era o único chefe de família Heringer no Argus. O irmão de Jacob, Philipe também estava na lista de passageiros. Mas Philipe e a família, quem sabe, já deviam estar em Nova Friburgo quando Jacob foi liberado.  Phillip, nascido em Oldenburg, em 1794, tendo listada a sua procedência como de Veisrodt, trouxe consigo apenas a esposa Anna Mari Margaretha Heringer, nascida em Oberstein em 1805.        
                  Teve filhos no Brasil, Maria Catharina, nascida na Armação das Baleias (1824), Elisabetha (1836), Heinrich Philip (20/09/1830), Margaretha (19/10/1835), Carl (09/08/1838) e Joseph (15/11/1845). Mas, a partir de 1847, desaparece dos registros da igreja luterana, deduzindo-se que voltou para a Alemanha com a família.                                              
Jacob Heringer, nascido também em Oldenburg , em 1788, mas cuja procedência é listada como  Veitsrodt, veio acompanhado da esposa Maria Elisabetha Cullman, nascida em Oberstein em 1784, e os filhos Johann Peter Heringer, nascido em 1814; Johan Jacob Heringer, nascido em 1816; Maria Elisabeth Heringer, nascida em 1817; Johann Karl Heringer, nascdo em 1819; Anna Maria Catharina Heringer, nascida em 1822.  

Lapidação de pedras em Idar-Oberstein no século XiX
Apesar de não podermos atestar cem por cento que Jacob, o qual tinha na sua ficha a profissão de ourives, queria ir para a Bahia por ter ouvido falar das pedras preciosas da região, é bem provável que seja. A região de onde veio, Idar-oberstein, na Região do Rio Reno, era na época em que saiu de lá, para onde se mandavam as pedras de todos os lugares do mundo para serem lapidadas e a cidade é famosa até hoje pela lapidação de pedras preciosas. Apesar de ser ainda relativamente pequena, com 35.000 habitantes, Idar Oberstein é um dos quatro maiores centros de venda de diamantes e pedras preciosas no mundo, sendo os outros três em Nova Iorque, Amsterdã (Holanda) e Joanesburgo, na África do Sul.
Quadro de pintor não identificado retrata a Vila de Nova Friburgo
ao tempo da colonização suíça e  alemã
Aliás, com a vinda de imigrantes alemães para o Brasil, a lapidação de pedras em Idar-Oberstein teve um grande reavivamento, pois uma variedade de pedras, especialmente a ágata, eram mandadas para Idar e Oberstein, duas vilas que se tornaram numa só cidade. Imagino o desencanto do Sr. Jacob, que pensava ficar rico imediatamente pois conhecia os segredos da lapidação, de ter que trabalhar na agricultura.
Uma região de pedras preciosas por 500 anos,
Idar-Oberstein: selo de 1997 da República Federal da Alemanha 
O Registro da Igreja Protestante (Luterana) de Nova Friburgo, de Março de 1828 (quatro anos após a chegada dos alemães), trás a ficha de Jacob Heringer com o acréscimo de uma filha nascida em Nova Friburgo, Johanna com três anos e tem as seguintes observações:
Chegaram em Nova Friburgo em (não diz)
Receberam os lotes números 96 e 97.
Ele é bom e aplicado trabalhador. Possuem 09 cavalos. Ele viaja muito para Porto de Caixas, para trazer e levar porcos e galinhas.
Com muitas crianças ainda pequenas, falta-lhes a necessária ajuda para cuidar da terra.



Os filhos de Jacob Heringer: Johann Peter Heringer casou-se com Anna Margarida Eller; Maria Elisabeth Heringer casou-se com George Phillip Emerich, nascido em Hesse em 1814; Johann Carl Heringer casou-se com Julianna Catharina Loubach, Anna Maria Catharina Heringer casou-se com Joseph Friederich Boy.


Johann Carl Heringer e Juliana Catharina Loubach Heringer (filha de João Loubach e Juliana Eysamer Loubach, tiveram os seguintes filhos: João Carlos Heringer, meu bisavô, nascido em 27 de junho de 1847, Frederico Jacob Heringer, Anna Catharina Heringer Knnup, Pedro Evaristo Heringer, Felippe Heringer e João Honorato Gregório Heringer.
João Carlos Heringer casou-se em 1868 com Isabel Emerich e veio para Alto Jequitibá, na Zona da Mata de Minas Gerais em 1873, já com dois fihos: Catarina Clara Heringer(tia Clarinha) e Pedro Honorato Heringer (tio Pedrinho, pai do Seu Alvino).




                                                Alto Jequitibá

Essa história que Francisco Eller teria contado ao missionário Dr. Kyle em visita a Alto Jequitibá, consta do livro A História da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá, do Rev. Anderson Satlher.     
D. João VI mandou abrir uma estrada em plena mata virgem ligando Vitória-ES à vila rica do Ouro Preto-MG com a finalidade de agilizar os meios de comunicação da época para que os estafetas (correio a cavalo) levassem mais depressa a correspondência destinadas às importantes cidades de Minas Gerais onde circulava muito ouro. Esta estrada passou a movimentar muias tropas e produtos vindos do Rio Doce. 


Então os moradores de Santa Luzia do Carangola resolveram abrir uma picada ligando a cidade àquela estrada. Certo dia, os trabalhadores já se aproximando dos trechos finais da picada, avistaram uma copa de árvore muito frondosa e mais alta de todas. Era um jequitibá. Curiosos, dobraram seus esforços em número de foiçadas com a finalidade de chegarem até à tal árvore, o que se deu ao entardecer. Cansados da jornada, resolveram pousar ali debaixo onde encontraram um colchão de folhas. Nas proximidades corria uma água límpida, fresca e abundante de uma nascente próxima. No dia seguinte, prosseguiram com a picada, mas voltaram a pousar debaixo do Alto Jequitibá. Pronta a picada, a maioria dos tropeiros passaram a fazer daquele Alto Jequitibá um pouco confortável, seguro e aconchegante nas suas trajetórias entre a estrada de D João VI e a vila de Santa Luzia do Carangola.
O parágrafo acima, retirei do site http://www.gripp.com.br e está descrito no livro do Rev. Anderson SSathler, "História da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá", segundo  o qual, esta seria a história contada por Francisco Eller ao Rev. Kyle, fundador da igreja.

Segundo depoimento da tia Alvelina, a filha mais nova de João Carlos Heringer, nos seus "Escritos Esparsos", publicado "in memorian" pela prima Berenice Heringer, com ilustrações de Alura Heringer, no Segundo Encontro da Família Heringer (1985), João Carlos Heringer "veio com outras famílias de Cantagalo, Friburgo e Macaé, por motivo de incêndio". Ainda, segundo ela "ficou morando em baixo de uma árvore com a esposa e os filhos. Construiu, aos poucos, uma casa de dois andares, pintada de branco... Fazenda Vista Alegre..."  
"Escritos Esparsos" de Alvelina Heringer,
minha tia avó 
Sobre este incêndio, não tenho notícias de onde e como aconteceu e qual foi a extensão do mesmo. A árvore, segundo se conta, era um jequitibá muito alto, debaixo do qual tropeiros acampavam-se. 
Outros descendentes dos imigrantes alemães e suiços ja haviam comprado terras em Alto Jequitibá. 
As famílias que vieram para a região constam os Eller, Sathler, Werner, Gripp, Heringer, Catheringer, Sanglard, Boechat, Stutz, Schwuab, Consta que o primeiro a vir foi o Sr Guilherme Eller, o seu filho Pedro e seus familiares. A maioria deles eram descendentes de famílias alemãs luteranas, mas como não existissem congregações evangélicas na região,alguns estavam se desviando da sua fé e se entregando aos vícios e até batizando os filhos na igreja católica. Henrique Eller, filho do Sr. Guilherme Eller tenta manter os patrícios unidos em torno da fé. Conseguem, então, a assistência do pastor batista Salomão Ginsburg, um pregador itinerante, cognominado "um judeu errante no Brasil", homem culto e autor e tradutor de muitos hinos. Entretanto, a diferença no batismo fez com que não mais o chamassem.                                                                               
           Segundo a História da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá, foi o Sr. Francisco Eller, filho do Sr. Henrique Eller, que, em 1897, em viagem com sua esposa e filha a Cantagalo, Nova Friburgo e adjacências, que, assistindo a um culto em São José do Ribeirão, relata ao pregador, médico e missionário americano Rev. Dr. John Merry Kyle, as dificuldades dos evangélicos de Alto Jequitibá. Este se compromete a ir pregar em Alto Jequitibá. Em julho do mesmo ano faz a viagem até Carangola, de onde viaja mais 48 quilômetros a cavalo, até lá..

Reverendo Aníbal Nora e esposa D. Constância Lemos
O primeiro culto é realizado na casa de João Carlos Heringer, dono da patente de Capitão da Guarda Nacional e segundo Juiz de Paz da cidade de Pirapetinga (Manhumirim) a que pertencia o distrito de Alto Jequitibá. O primeiro templo foi construído por iniciativa do Sr. Henrique Eller, que cortou a madeira ele mesmo para construir o templo num lugar alto e de destaque. 
Rev.  Cícero Siqueira e
esposa D. Cecília
Rodrigues Siqueira
Como o Rev. Kyle não tinha condições de permanecer em Alto Jequitibá, necessário se fez procurar um pastor que assumisse a igreja. Alguns irmãos escreveram ao Rev. J. G. Meyer, que substituíra o Pr. Sauerbronn na Igreja Luterana de Nova Friburgo, que lhes respondeu que era muito difícil de se conseguir um pastor para eles. Foi aí que o Dr. Kyle, em visita ao Seminário em S. Paulo, consultou os estudantes sobre a possibilidade de atenderem`a necessidade do rebanho em Alto Jequitibá, mas todos os alunos do segundo e terceiro anos já estavam comprometidos. Um aluno do primeiro ano, entretanto, Mathatias Gomes dos Santos, se dispôs a, depois de formado, ir para lá. A igreja é organizada em 09/03/1902. 
Outros pastores passaram por Alto Jequitibá. Em 1908, assume o pastorado da igreja o Rev. Aníbal dos Santos Nora, que, juntamente com sua esposa Constância, abriram uma escola, que mais tarde, em 5 de março de a926,  se transforma no Ginásio Evangélico. 




João Carlos Heringer cedeu um dos seus melhores prédios ao qual foi feito um acréscimo de modo que foi conseguido, com relativa qualidade, organizar o Ginásio com internatos masculino e feminino. Com algumas dificuldades conseguiram o professorado, sendo preciso de início, chamar alguns do Rio de Janeiro e São Paulo.
Inauguração do Gymnasio Evangélico em 1922
Substituiiu o Rev. Aníbal Nora o Rev. Cícero Siqueira, que juntamente com sua esposa, D. Cecília, dedicou o resto  da sua vida `aquela instituição. 
Filhos e netos e bisnetos de João Carlos Heringer estudaram na instituição e um dos prédios tem o seu nome, além da sua foto no Museu do Colégio Evangélico. Segundo alguns historiadores, foi ainda, João Carlos Heringer, quem introduziu as bases da cultura cafeeira na região. O livro "Pelo caminho vão teus pés ligeiros", de Berenice Heringer, com a árvore genealógica de João Carlos Heringer, publicado no Segundo Encontro da Família Heringer, em 1985, diz:


"João Carlos Heringer amanhecia em sua lavoura de onde voltava somente depois do por do sol. Quem o procurava para negócios precisava ir à roça, onde ele se encontrava entre seus empregados. Gostava muito de comprar terras e de plantar café. Foi assim que ele formou várias fazendas nos municípios de Manhuaçu, Manhumirim, ... 

Jo
Edifício João Carlos Heringer e alojamento nos primeiros anos do
Colégio Evangélico
       Aproveitando a madeira das derrubadas, cujo terreno era utilizado em pastos e lavouras, construía casas na povoação. Houve ocasião em que quase todos os prédios do Arraial do Alto Jequitibá eram de sua propriedade. João Carlos Heringer não tinha vícios e era chefe de família exemplar. Membro da Igreja Presbiteriana, era assíduo e respeitava o dia de Domingo. 
       Era homem de grande simplicidade. Conhecia os ofícios de pedreiro e carpinteiro.  O capitão João Carlos Heringer legou aos seus descendentes uma boa fortuna em terras, lavouras, prédios e dinheiro. Porém, além dessas riquezas, deixou-lhes a grande fortuna de um nome muito honrado e respeitado como crente    crente em Cristo. Seus descendentes devem imitá-lo. Faleceu em 07/09/1931." 
Interessante que, num dia desses (abril/2012), no grupo Dos Heringer no facebook, o Dr. Mário Heringer postou algo que eu nunca havia ouvido sobre a nossa família, mas que já sabia de experiência ser o lema da família.  
Ele disse "tem Heringer por todos os lados.......e todos orgulhosos. Eu sou! E acho que tá ligado diretamente ao nosso comportamento herdado dos antepassados próximos que herdaram dos seus.....e, em resumo, o que ouvi sempre e me ajudou formar posições pessoais é que Heringer é pão duro mas muito solidário (parece contraditório?), teimoso mas sempre nas posições corretas, político mas não politiqueiro, amigo sem ser subalterno, prometeu cumpre......Resumindo: Gente boa!"


        
                               Filhos  de João Carlos Heringer


Primeiro matrimônio (esposa: Isabel Emerich Heringer)


Foto de João Carlos Heringer, no Museu do Colégio Evangélico
em Alto Jequitibá
CAtarina Clara Heringer, casada com Luís Werner; Pedro Honorato Heringer, casado com Eugênia Stobel Heringer; Alfredo Nicolau Heringer, casado com Maria Marques Martins;  Nicolina Heringer Eller, deixou quatro filhos mas não sei quem era o marido; Verônica Heringer Silva, casada com Quirino Antônio Silva; Luciano Carlos Heringer, casado com Maria Eller Heringer; Américo Marcelo Heringer, casado com Leonina de Freitas Heringer; Silvina Margarida Heringer Werner, casada com Luiz Frederico Werner; Luiz Moisés Heringer, casado com Helena Faria Heringer; Lindolfo Tibúrcio Heringer, casado com Alzira Freitas Heringer; Brilhantino Agripino Heringer, casado com Dolariza Alves Heringer; Eloy Carlos Heringer, casado com Aurora Dias Heringer; Afonso Heringer          ficou viúvo duas vezes: Virgilina Heringer e Nila de Moraes e casou depois com Elza, da qual não sei o sobrenome, a qual deixou viúva.


  Segundo matrimônio (esposa: Antônia Raposo Heringer)


Maria Heringer Sathler, casada com José Augusto Sathler; Florinda Heringer Dias, casada com Alair José Dias; Arminda Heringer Gerardt, casada com Luís Estácio Gerardt; Antenor Heringer, casou-se com Pulcina, que faleceu, então casou-se com a irmã dela, Helena; Ambrosina Heringer Emerick, casada com Aurino Cincinato Emerick; Isabel Heringer Sathler, casada com Elias Sathler; Olívia Heringer Bussinger, casada com Elias Rodolfo Bussinger; Guilherme Carlos Heringer, casado com Esmeralda Cardoso; Alvelina Heringer (não se casou).




                                                                           
                                         Parte III- Itabira

      A Questão da Serraria Heringer e o Fim do Contestado de Minas e Espírito Santo



Pedreira em Itabira
Itabira, o lugar para onde nos mudamos em 1960, um vilarejo de apenas algumas ruas sem calçamento, tinha como principais atividades a extração de madeira e pedras preciosas, o gado de corte e leiteiro, e a agricultura, muito milho, feijão e arroz. Tio Joel e tio Jeronil tinham fazendas e uma grande serraria e eram donos da pequena usina hidrelétrica  que abastecia o lugar. Estavam construindo uma usina maior e precisavam de instalar canos enormes para levar a água da represa na propriedade deles para a usina, que ficava na fazenda do tio Adiles e tia Elzina, logo abaixo.
Meu pai, não sei por que, resolveu vender a propriedade nas terras do vovô Américo, em Laranja da Terra, ir ao Rio de Janeiro e comprar todo o material para montar uma oficina em Itabira, a fim de fazer o serviço da hidrelétrica dos cunhados. A máquina de soldar, me parece que foi o Ademar Heringer, filho do tio Luizinho, quem construiu para ele. Aliás, os primos da minha mãe, Ademar e também o Airle do Seu Alvino, sempre foram meio gênios e excelentes em inventar ou fazer suas próprias máquinas.
Sem ter nenhum conhecimento do ofício, meu pai contratou um torneiro especializado, “Seu Pedro Mecânico”, para trabalhar de sociedade com ele. Acabado o serviço da montagem da usina, Seu Pedro acabou voltando para Aimorés, de onde tinha vindo.
Minha mãe queria que meu pai comprasse uma fazendinha de gado, atividade da qual ela gostava muito, mas ele acabou comprando um sítio de café, na Limeira, alguns quilômetros distante, um lugar mais alto e menos quente, que dava mexericas enormes, mas continuou com a oficina, fazendo serviços de mecânica de carros e caminhões... e de velocípedes, também...                                                                    
O velocípede que eu ganhara da prima Marli e cujo pedal havia roçado durante a visita do tio Joel e a família a Laranja da Terra, agora era frequentemente soldado de volta, na oficina do meu pai. Todos os domingos, os primos que moravam nas fazendas, filhos do tio Joel e tia Jeni, tio Adiles e tia Elzina, íam para o culto na Igreja Batista. Tio Joel tinha uma rural, mas os demais íam nas carretas, que, nos fins de semana se transformavam em carros de passeio. E, quase sempre,  depois do culto, para a casa da Tirandi (tia Erandi). Minha mãe, `as vezes fazia bolo, e a Eloilda, que tinha uns três anos, ía chegando lá em casa e perguntando:-Tem muito bolo aí? A fila para andar no velocipede era grande e o pedal gastava novamente, tendo que ser soldado de volta. Tio Jeronil e família eram da Igreja Presbiteriana e, depois do culto, íam para a casa do Seu Alvino, que era seu primo primeiro e sogro, pai da tia Adenair.

Pedra da Boneca
Diz-se que o nome Itabira teria vindo do Tupi-guarani, ita, pedra e bira, vira, a pedra que vira.  Não sei se é verdade, mas o que sei é que a Pedra da Boneca fica num conjunto de lindas e monumentais pedreiras, que serviam de pano de fundo para a vila. Uma enorme montanha arredondada, mais uma rocha alta e pontuda, com o formato de Pão de Açúcar e uma série de rochas alinhadas formando um paredão, uma delas que lembra uma boneca. Havia uma história de que, se você fosse para o final da rua, na Vila Nova, supostamente deveria ver as costas da Pedra da Boneca. Entretanto, o que se vê, é a frente dela, daí o nome de pedra que vira. O que sei é que aquele monumento natural de proporções gigantescas, contrastava gritantemente com a simplicidade do vilarejo. Eu fui ao topo da parte arredondada pelo menos duas vezes. Havia uma pequena casa construída e uma plantação. Para se chegar lá, subíamos pelo lado da Vila Nova, era difícil o acesso através de um trilho estreito, por horas, por trás do pão de açúcar, onde havia o que chamavam de “Sete Cavernas” na pedra, escuras e cheias de morcegos. Próximo `a casa, uma água fresca e gostosa, corria numa bica feita de imbaúba, onde assentávamos e comíamos o lanche trazido para o piquenique, um momento refrescante para os escaladores exaustos.
Descer a pedra também não era fácil. Tínhamos que freiar e, algumas vezes, assentar para não cair, de tão a pique.  Em certos pontos, aproveitávamos para simplesmente escorregar...

O movimento de carretas que transportavam toras era muito grande, algumas vezes podia-se contar mais de meia dúzia de Fenemês, ACs e NVs, estacionados, especialmente próximo `a Pensão do Barbudo. Lembro-me de que quando íamos `a fazenda do tio Adiles, os caminhões apontavam no topo do morro e os motoristas tinham o costume de businar naquela curva, para advertir carros que viessem em sentido contrário na estradinha estreita . A buzina para mim soava como música “Pararam… pampam… pampam…"
De trás p a frente:Jesonias, tio Joanilson, 
Alair, Adalmário, Adirlei (em cima),
Eniuza, Elce, Eloilda (no para-lama).
Assentadas: Léia, Américo, e Gilza.
As grandes florestas ficavam no Peixe Branco, em Boa União e Córrego Azul, onde o tio Cincinato e a tia Ilca moravam, mas todas as carretas tinham que passar por Itabira. A estrada de terra, pelo menos até São João, no caminho para Mantena ou São Vítor, indo para Governador Valadares era muito estreita e com pontes que eram apenas duas toras lavradas, e os motoristas dos caminhões para mim eram artistas por calcularem certinho onde passariam os pneus do cavalo e da carreta, sem cair lá embaixo.

Não sei dizer em que estado ficava Itabira pois a região toda era chamada de Contestado ou Zona Litigiosa,  reclamada pelos dois estados vizinhos,  Minas Gerais e Espírito Santo. O conflito por terras entre estes estados datava de muitos anos antes, sendo o motivo arguído pela maioria dos estudiosos de que Minas queria estender sua jurisdição até ganhar um pedaço de mar.
Na época em que nos mudamos para Itabira, a faixa do Contestado estava bem menor, incluindo Ataléia, Mendes Pimentel, Água Doce...
Fazenda dos tios Joel e Jeronil (engenho de cana, 
mais próximo, e serraria ao fundo)
Quando, anos depois se dá a dissolução do Contestado e Itabira fica no Estado de Minas, a cidade passa a se chamar Itabirinha de Mantena, para diferenciar de Itabira do Mato Dentro, perto de Belo Horizonte, Mais tarde, perdeu o "de Mantena", ficando só o Itabirinha.
Penso que aquele vilarejo para o qual nos mudamos, poderia muito bem ser chamado de “Limbo”, pois ficava em dois estados ao mesmo tempo, Minas e Espírito Santo, ou melhor, os dois estados reclamavam a posse do lugar, resultando em múltipla jurisdição.
Se uma criança nascesse lá, os pais poderiam escolher registrá-la como mineira ou capixaba, dependendo do cartório onde fossem, mais acima ou mais abaixo na longa e quase única rua que formava a vila. Havia também duas escolas primárias, uma de cada estado, ambas  com instalações precárias, sem prédios próprios, funcionando em locais improvisados, como cômodos de vendas e outros. Exceto por alguns professores com formação acadêmica, os demais eram leigos, muitos que nem haviam teminado o curso primário. Alguns haviam feito um Exame de Proficiência, para testar a aptidão e conhecimento, que dava direito a se tornar professor efetivo.


Ônibus da Viação Águia Branca
(motorista José Gomes de Freitas, Zé Miguel)
Etelvina, minha irmã, estudava na escola mineira, eu, na capixaba. Pela manhã, saíamos juntas para caminhar uns duzentos ou quinhentos metros, dependendo de qual o cômodo de venda servia de sala de aula; uma para aprender que a bandeira do seu estado era com três faixas (azul, branca e rosa) com a inscrição "Trabalha e confia", e a outra, que era uma bandeira branca com um triângulo vermelho circulado pelas inscrições "Libertas que sera tamem" ("Liberdade ainda que tardia").

Havia duas cadeias, na verdade, dois cubículos sem instalações sanitárias ou cama, onde pessoas, na maioria bêbados, eram presas por poucas horas. Os que cometessem crimes mais graves, seriam encaminhados a Mantena ou Mantenópolis, respecitvamente as sedes do município pelo Estado de Minas e Espírito Santo.
A grande desvantagem de ter duas cadeias e duas polícias diferentes era que alguém poderia ser punido duas vezes pelo mesmo delito, como no caso de um bêbado que fosse liberado antes de estar totalmente sóbrio e, a poucos metros ou poucos minutos depois, poderia ser preso pela polícia do outro estado. 
Lembro-me que o Sargento Manoel, da Polícia Capixaba era casado com a D. Marcionília e tinha vários animais no quintal, inclusive uma tartaruga. E do Cabo Levi, filho do Seu Pedro Marcolino, que também era da Polícia Capixaba.
Em tempos de eleições, candidatos a prefeitos (de Mantena e Mantenópolis), deputados, senadores e governadores de Minas e Espírito Santo, vinham fazer suas campanhas. As pessoas podiam escolher se se alistavam no diretório mineiro ou no capixaba.
Os partidos políticos principais eram PSD e UDN, os pessedistas apelidados de "Pica-paus", devido a uma história de que um membro do partido assaltara o cofre da prefeitura não me lembro de onde, e os udenistas de "Corta-goelas",  reminiscência de um crime cometido por um deles.

As eleições para presidente aconteceram em 3 de outubro de 1960, ano em que chegamos a Itabira. Os candidatos eram Jânio Quadros, pela UDN, com a vassourinha como símbolo, o Marechal Lott, do PSD, com a espadinha e Ademar de Barros, que não me lembro se tinha algum símbolo. Eu me achei muito especial por ter ganhado um broche da vassourinha do Jânio, que prometia varrer a suposta corrupção de Juscelino Kubitschek durante a construção de Brasília, a nova capital federal. Jânio venceu as eleições, mas renunciou logo depois.

No período entre uma eleição e outra,  nenhum político viria visitar, e quase nada seria feito em prol do lugar, nem por um estado, nem pelo outro.
Pagava-se os impostos ao estado que se escolhesse, na respectiva prefeitura (Mantena ou Mantenópolis) ou no banco,  impostos que não deviam ser pequenos, pois o lugar produzia bastante. Impostos que calculo, raramente retornavam. Meus tios Joel e Jeronil costumavam colocar seus tratores para encurtar estradas, diminuir curvas, construíam pontes, pois necessitavam delas para o seu próprio comércio. Tinham um depósito de madeira em Governador Valadares, que o tio Jenus administrava. A serraria deles processava a madeira, transformando-a em tábuas, tacos e outros.                                                                                                                                                                             


Não havia rede de esgotos em Itabira. Algumas casas tinham fossas; graças a Deus a nossa, alugada do tio Reginaldo, irmão da vovó Leonina, que tinha um posto de gasolina em Itabira, se incluía nestas, com vaso sanitário no banheiro. Mas, muitas casas tinha apenas uma casinha de tábua, no fundo do quintal, com pernas de mais ou menos um metro de altura, e um buraco no meio do assoalho, onde se fazia as necessidades. Os porcos que andavam debaixo destas latrinas, comiam os excrementos. Depois passeavam soltos pelas ruas poeirentas, com suas caras e costas sujas e fedorentas, obrigando as pessoas a se desviarem deles.





Esquina dos Aflitos
Na maioria das casas, a água, tirada da cacimba, era saloba, com muitos sais minerais e gosto ruim; os banhos eram banhos de cavalo, com balde e caneca, ou na bacia. A grande novidade para mim era o sabonete Lifebuoy, que eu não conhecia em Laranja da Terra.

No ano em que chegamos, 1960, houve uma grande enchente, causada por uma tromba d’água, que caiu sobre uma casa na cabeceira do córrego, matando uma família inteira e inundando a vila.
Tivemos sorte que morávamos num lugar mais alto, que não foi afetado pela catástrofe. Com a enchente, veio uma epidemia de febre aftosa nos porcos e também um surto de sarampo. Todos os dias, passava uma ou mais procissões de pessoas, levando os “anjinhos”, crianças vítimas do sarampo e, durante o dia, as lojas eram fechadas, de tempos em tempos, em respeito `a passagem dos pequenos funerais. Algumas vezes, não havia pessoas suficientes para compor o cortejo fúnebre, e pediriam a ajuda de classes escolares para tal.  Desta forma, os alunos estariam carregando os cachõezinhos, sem saber o risco que corriam de pegar o sarampo.
O cemitério já estava superlotado por tantas mortes. Lembro-me de ver caveiras azuis, soltas pelo chão, sobras de esqueletos que tinham sido desenterrados para dar lugar a um novo defunto. 

Uma rua atrás da nossa igreja era chamada de Coréia, a zona de prostituição. Penso que possa ter ganhado este apelido por causa da Guerra da Coréia, mas, na época, eu não tinha nem idéia de que houvesse um país com este nome. Até hoje, nunca tive notícia de outro lugar onde a zona de meretrício fosse apelidada de Coréia, a não ser lá. Para nós, crianças, começando a descobrir a sexualidade, o nome Coréia era um nome proibido, mas eu sempre imaginava de que prazeres este nome era sinônimo.  As mulheres com rostos pintados com muito rouge, saias rodadas e curtas, muitas ainda adolescentes, andavam no vilarejo em duplas ou trios, olhadas com desdém pelas moças e senhoras direitas. Algumas por que os pais haviam expulsado de casa, quando descobriram que estavam grávidas ou não eram mais virgens, as traziam para o a zona, onde eram exploradas pelos cafetões ou cafetinas. Por outro lado, estes mesmos pais, encorajavam os filhos homens, ainda muito jovens, a frequentar a zona para se tornarem homens.
Cheguei a ver uma moça que estava num jipe, sendo levada para Mantena para fazer um exame médico, pois havia se casado e o marido suspeitava de que ela já não fosse virgem na noite de núpcias. Se o exame confirmasse a perfuração do hímem anterior `aqueles poucos dias após o casamento, ele a retornaria para a casa dos pais dela.

Não havia hospital no lugar, apenas duas ou três farmácias, onde os farmacêuticos faziam o melhor que podiam para tratar as mais diversas doenças. Do lado da primeira casa onde moramos, ficava a farmácia do Seu Hindemburgo Araújo, casado com a Dona Terezinha, muito simpática. Mais acima, a do Seu Alfeu, marido da Dona Hortelina, que foi minha professora. O seu  filho mais velho, João Geraldo foi meu colega de sala; os mais novos, Lacarmélio e Consolação. A sogra, Dona Placedina, de saia comprida e muito doce, chamava, respeitosamente, o genro, de Seu Alfeu. 
Certa vez, D. Hortelina ensaiou um teatro conosco em que eu e mais algumas meninas embalávamos as nossas bonecas e cantávamos “Papai me deu um presente, um bebé engraçadinho… mas não fala o pequenito, anda sempre doentinho…” e tinha uma parte que dizia “era tempo do entrudo…” talvez uma canção de Portugal já com fronteira com a Espanha (entrudo: carnaval, em Português de Portugal; pequenito: pequeno em Espanhol).
Durante estes ensaios, D. Hortelina aproveitava também para nos dar aulas de etiqueta. Uma das poucas, de que minha colega de aula Célia Cardoso, que encontrei depois de quarenta e oito anos, se lembrou, é que quando se segura o copo, não se deve levantar o dedinho. Todos os dedos devem tocar o copo.
Seu Alfeu gostava muito de ouvir os jogos de futebol no rádio, o que era costume de vários vizinhos. Nos domingos `a tarde só se ouvia "cruzou pela direita, driblou... e go..o..o...ol...". E, `as vezes, ele chegava tarde em casa para encontrar a porta trancada (não sei por que não tinha a chave). Mas o certo é que ficava lá fora, implorando “Telica, Telica, abre a porta pro seu Alfeuzinho.”  Uma coisa interessante era a placa na frente da farmácia dele: “O Prático Alfeu" E abaixo: "Não garantimos vida de ninguém. Fazemos o que podemos.” E acredito piamente que ele estava certo. Num lugar daqueles, com poucos recursos, onde pessoas vinham de longe, das roças, em jipes, cavalos e até carregadas em padiolas, com todo tipo de doença grave, não dava pra garantir vida de ninguém mesmo.
Nós, na maioria das vezes em que ficávamos doentes, éramos tratados com homeopatia, pelo meu pai. Ele tinha suas próprias receitas para determinadas doenças, que fazia questão de ensinar. Para equizema, a mãe dele havia sido curada com banhos de permanganato de potássio, um pó roxo, e chás de um mato chamado douradinha do campo. A mesma receita curou a D. Amélia Vial, membro da nossa igreja, que tinha as pernas muito afetadas pela doença e ficou completamente limpa.
`As vezes, íamos `a casa do Seu José Medeiros, que viera de Laranja da Terra também e onde era o tratador da nossa família. Fazia garrafadas para tudo, incluindo infruenza, uma palavra estranha para mim que ele usava. 
A cada tantos meses de que não me lembro, era tempo de tomar vermífugo, normalmente pós verdes e amargos misturados a líquidos, ou líquidos com gosto enjoativo.
Mas, houve uma vez em que o Seu Alfeu, que era vizinho, atendeu a Clarinda que estava pondo sangue pelo nariz. Mandou buscar gelo no Bar do Primo, para ajudar no tratamento. Pediu que ela ficasse imobilizada por um período de tempo.

Nota: (Lacarmélio Araújo se tornou um grande cartunista, criador do Celton. A irmã dele Maria Consolação esceveu a história dele num blog (alguns nomes, incluindo o nome do lugar, Itabirinha, foram trocados.Para ler mais sobre a história dele visite http://celtonquadrinhos.blogspot.com/2011/11/o-nascimento-do-lacarmelio.html)

O terror dos porcos e dos meninos, era o Seu Pêdo Rádio, um senhor baixinho e claro, que falava sem parar (daí o apelido), castrava porcos, e que alguns pais mencionavam, quando queriam que os filhos fizessem ou não, alguma coisa. Ele gostava da brincadeira de amedrontar crianças, que corriam quando o viam.  Na nossa família, quase todo mundo tinha um apelido, O Edézio era "Dedé"  e "Coquin", o Moacir, "Tisiu", o Adirlei, "Cuêi", a Marilda, Patita, e o Gelcir, baixinho e branquinho, era "Pêdo Rádio". Tisiu, o Moacir vivia com um braço quebrado, não sei se era levado demais ou tinha alguma deficiência nos ossos. Eu morria de inveja, pois achava o máximo ter um gesso e autógrafos... Mais tarde, soube que minha irmã Etelvina não tinha apenas inveja do gesso; chegava a se jogar no chão para ver se quebrava alguma coisa...


A uma certa altura, veio de Laranja da Terra, trabalhar na oficina, o Paulinho, filho de um primo do meu pai. Pela lógica, dir-se-ía que se chamava Paulo. Na verdade chamava-se Raul. A mãe, D. Nêga, havia escolhido o nome do pai dela, Paulo, para o bebê. O esposo, Seu Júlio Vieira, escolheu outro, Raul, e o registrou com este nome. Mas a mãe o chamava de Paulo e nunca ouvi ou soube de alguém que o chamasse ou conhecesse como Raul. Era e é o Paulinho do Seu Júlio Vieira.


Houve uma época em que a meninada parecia falar inglês. Usavam uma expressão que nunca ouvi em outro lugar: "Comigo num tem perrépis" (seria perhaps, "talvez" em inglês?). Outra coisa que nunca soube do significado é "Ô derréía", uma expressão para expressar coisa ruim, que era usada pelas crianças lá.

O Cinema do Machadinho era no segundo prédio `a esquerda da nossa casa e, apesar de simples, era possivelmente o mais sofisticado do lugar. Eu tinha uma paixão secreta pelo rapaz que trabalhava no cinema, um moreno de olhos verdes de uns dezesseis anos, que tinha o apelido de “Tatão”,
Jovens em Itabirinha (cerca 1962)
Moças:(esq. p/ a dir: Maria Vantuil, Maria Helena Batalha,
Carmita e Clarice Bicalho, Marlene Cardoso,
Santa do Meladinho, Miúda, Naede Cardoso e Hilda Bicalho.
(Atrás, tio Joanilson, o terceiro da direita
 para a esquerda de paletó escuro, é o único que consegui identificar)
Todas as noitinhas, um alto-falante anunciava o filme e tocava, entre outras músicas “Eu sou cigano, levo a vida cantando…Ô ciganinha!!!...”, “Aquela colcha de retalhos que tu fizeste…” “Fica comigo esta noite…” na voz sensual de Nelson Gonçalves e “O maior golpe do mundo que eu tive na minha vida…” do gaúcho Teixeirinha. E para as crianças,  o palhaço Carequinha, claro, do qual eu era fã, mas que, para o meu desespero cantava que “O bom menino não faz xixi na cama…” 

Nota: Ler tbém as memórias, bem mais recentes do que as minhas, de Ronald Viana sobre o Cine Ideal (eu nem me lembrava do nome do cinema. Aliás, na época dele já havia dois cinemas em Itabirinha
http://www.itabirinha.com.br/?pg=recordacoes/cine_ideal 




 Eu e minha irmã Etelvina fazíamos xixi na cama, quase todas as noites. O único conforto era que muitos dos primos também urinavam na cama e ninguém estranhava quando dormíamos nas casas deles.
Pela manhã, o mesmo ritual, lavar as roupas de cama e colocar no varal para secar.
Íamos ao cinema apenas quando havia um filme especial, como “Cala a boca Etelvina…” que fomos ver pelo fato da minha irmã se chamar Etelvina. Mas isto não nos impedia de conhecer muitos personagens do cinema, pois uma das minhas melhores amigas, a Emilinha, era irmã do Neném Machadinho, dono do cinema e nos contava todos os filmes que assistia, Charles Chaplin, Oscarito, Ankito... Também a Eliete, filha do Seu Wilson Berto e da Sadorce, donos do bar ao lado, minha outra melhor amiga, era frequentadora assídua do cinema. Brincávamos de Tarzan e Jane nos pés de manga do quintal, pena que não havia os cipós da matinha do tio Gil para nos pendurarmos.  Usávamos as roupas do desfile de Sete de Setembro, que era comemorado todo ano, principalmente as da Emilinha, uma boa ginasta e baliza. A mãe dela, D. Nega, comprava os panos mais sofisticados para minha mãe costurar.
Eliete era muito delicada e boa, mas o irmão dela, Élio, muito levado, atrapalhava nossas brincadeiras, estragava os nossos fogõezinhos de tijolo e barro, fazendo a Eliete chorar.
Minha mãe, que tinha três filhas mulheres, dizia para mim que iria arranjar um menino. Eu falava para ela “Pode arranjar, mas eu vou bater nele.”
Só de pensar que o meu irmão seria igual ao Élio, me fazia entrar em pânico.
Quando eu já tinha dezesseis anos, nasceu o Fábio, meu irmão caçula, que sempre foi um bom irmão.
O auto-falante tocava também a sombria “Ave-Maria”, para anunciar todas as mortes de pessoas prominentes do lugar.
Quando o Seu Galdino faleceu, meu pai nos levou até lá.  Ele queria que a gente não tivesse medo de defunto e levou-nos bem pertinho do caixão. O efeito era sempre o oposto das intenções dele.
Quando o Seu Honorato Mozer, esposo da D. Anita, que tinha uma loja, faleceu de paratifo, febre tifóide, o corpo veio de Mantena e não lhe fizeram a barba. Estava muito pálido e eu disse pra minha mãe que quando eu morresse, queria que me passassem rouge para que não ficasse tão feia. Não tinha nem idéia de como enfeitam os defuntos hoje em dia, que ficam mais bonitos que quando eram vivos.


Aliás, o que não faltava no vilarejo, eram alto-falantes. Havia o da Igreja Assembléia de Deus, o da Igreja Batista, que chamava "É o Pai Celeste, Jesus nos fala assim: Ó cansados e oprimidos, vinde a mim". E Feliciano Amaral cantava que "O amor de Deus é singular" e Edgar Martins "Mais perto quero estar", por vezes, competindo com o alto-falante do circo tourada, no largo mais abaixo, que continuava depois que o culto começava, tornando quase impossível ouvir a pregação.
Voz forte também tinha o Seu Nelson Malaquias, da igreja, que era regente do coral.
Quando o tio João vinha a Itabira, também fazia solos na igreja, vestido na sua farda de Oficial da Polícia Militar. Tocava o órgão, que na época estava lá em casa e até ensinava um pouquinho de música pra gente, fazendo as notas num papel e mostrando no teclado onde elas estavam.


Nos fundos da nossa casa, o quintal enorme se estendia até `a beira do rio. Os meninos do Seu Vandico, que tinha uma loja umas três casas acima da nossa, Vander, Vanderlei, Roberto, eram muito engraçados, mas muito levados também. Uma vez fizeram um túnel no barranco na beira do rio no nosso quintal. Cada dia cavavam um pouco mais e meu pai, preocupado que o barranco pudesse desmoronar e soterrar alguém, falou com eles que parassem. Mas eles continuavam. Foi até que o meu pai deu um espalho muito grande neles, e depois o chamavam de "homem do zói regalado".

Em frente `a nossa casa, ficava a Pensão Lobo. Certa vez, foram bater lá em casa para pedir ajuda ao meu pai para tirar dois cavalos, de dois hópedes da pensão, que haviam caído num buraco cavado para fazer uma fossa. O burao  havia se enchido de água com a enchente e os cavalos, quase se afogando. Tentaram fazer um rego para drenar a água, mas não teve jeito. Meu pai, então, sugeriu que fossem jogando terra dentro da fossa e, `a medida que a terra foi aumentando e os cavalos pisoteando, o buraco foi ficando mais raso, até que os cavalos saíram andando.
O dono dos cavalos pegou mil cruzeiros e entregou ao meu pai, que se recusou a receber, dizendo: “Já recebi. Muita gente já fez muito por mim.” O homem lhe entregou assim mesmo. Como a fossa era do dono da pensão, meu pai entregou o dinheiro a ele, para que ele distribuísse com os outros que haviam ajudado. Ele guardou o dinheiro e se recusou a repartir.
Já estava de manhãzinha e os trabalhadores, cansados, foram para o Bar do Seu Wilson Berto, tomar café. Dercino do Leopoldino, um dos que haviam ajudado a tirar os cavalos, comeu e depois disse pro Seu Lobo:
-Ô Seu L., essa aqui é uma conta que deve ser paga.”
-“Ah, tá, tá…”
E acabou pagando.

Do lado da Pensão Lobo estava o Bar do Primo, um senhor muito simpático, que fazia um delicioso picolé de baunilha, banhado de chocolate, que nós chamávamos de Kibon.
Tia Elma, que na época estava morando conosco, estava noiva de um rapaz chamado Daniel, que pagava picolé pra sobrinhada todos os domingos. Ficamos tristes quando o noivado acabou.
Hoje fico pensando que a causa do noivado ter acabado bem que pode estar relacionada ao número de sobrinhos da tia Elma. Imagino que, quando o noivo dela ofereceu um picolé para um dos sobrinhos, não calculou que, no domingo seguinte, houvesse outros e mais outros pra ganhar picolé.
Do outro lado da Pensão Lobo, ficava a casa do Seu Zequinha Medeiros, esposo da D. Clari, que tinha uma fila de crianças, Carlos Alberto, Anderson, meu colega de sala, Lina Rosa, colega da Etelvina e outros. Depois vinha o açougue do Seu Joaquim Campos. Maria José, a neta dele, também foi minha colega de sala. 
Depois a alfaiataria do Seu Pedro Marcos, pai da Toddy (Custódia?) e da Geralda, e sogro da prima da minha mãe, Leuda, filha do João Padeiro e da Etelvina, esposa do Dino, que trabalhava de servente na escola com a tia Ilca.
Para o lado de baixo da nossa casa, do lado oposto, um dos meus locais favoritos, a Padaria do Seu Amaral. Esperava o pão sair do forno e, `as vezes, passava tempo lá, vendo-o enrolar e cortar a massa, dar um talho com o estilete, borrifar com um pouco de água e colocar os pães na forma para levar ao forno. De vez em quando, meu pai comprava uma mironga, pudim feito de pães amanhecidos... 

Nos fins de semana, havia leilões no coreto na praça da Igreja Católica, onde as pessoas traziam todos os tipos de coisas para serem leiloadas. Leitoas assadas, bolos, pudins, artesanato.
Eu não era católica, mas estava lá com a minha amiga Eliete, quando ofereceram uma boneca de pano, que apesar da luz que vinha da usina dos tios não ser boa, dava pra ver como era feinha.
As ofertas começaram com um cruzeiro e o leiloeiro foi puxando para cima com o seu famoso “Quem dá mais?” até conseguir cinco cruzeiros.
Eu não estava acostumada com leilões nem venda de qualquer espécie para arrecadar fundos. Os irmãos da Igreja Batista de Itabira eram  exagerados em quase tudo, mas certamente no aspecto de não deixar que “a Casa do Senhor, a Casa de Oração, se transformasse num  Mercado”. 
A bonequinha talvez até valesse os cinco cruzeiros no leilão, que era pra ajudar a igreja. Mas duvido que, em outro local, alguém a comprasse, tão feia que era.
Mas, de repente, me deu vontade de fazer uma oferta, não sei se por dó da boneca ou apenas um ímpeto de criança. Simplesmente dobrei o preço da boneca. “Dez cruzeiros”,  gritei em alto e bom som.
Houve um grande silêncio. O leiloeiro não perguntou “Quem dá mais”. Ninguém superaria o meu lance. Possivelmente todos procuravam pela pessoa que fizera a última oferta.   
Não me lembro se já tinha sido inaugurada a segunda usina hidrelétrica dos meus tios, mas graças a Deus, as luzes eram tão fracas que não dava para distinguir muito bem a audiência.
Minha amiga Eliete cochichou no meu ouvido: “Agora você vai ter que comprar a boneca.”
“Comprar, é?” perguntei.
Não tinha um centavo, sequer uma bolsa comigo ou bolso no vestido.
Disparei a correr, Eliete atrás de mim, e só parei quando cheguei em casa.
O que aconteceu com a boneca, eu nunca soube. Talvez tenha sido vendida por cinco cruzeiros, para a pessoa que dera o lance antes de mim.

O Sete de Setembro era comemorado com a maior festa pelas duas escolas, mineira e capixaba. Por mais de um mês, ensaiávamos nas ruas poeirentas para o grande dia. Eu detestava marchar, quem sabe porque a única vez em que havia entrado numa fila, tinha sido em Laranja da Terra, no dia do piquenique, em que a professora nos obrigou, e não nos deixou sair para fazer xixi no mato e eu fiz xixi na calça. 
Eu vestida de grega e Etelvina de baiana (sete de setembro 1961)
“Um, dois, feijão com arroz…” e eu não acertava o passo de jeito nenhum. Esquerdo… direito… tá errado outra vez…” a professora falava. "Meia volta... Vão vê!!! (Volver)
Meu pelotão, na escola capixaba, era só de meninas, de vestido branco de cetim, de um ombro só, ornado com galão dourado, pregado em zigue-zague em volta do decote e na barra da saia pregueada. Nos pés, sandálias brancas e fita branca na cabeça e arcos cobertos de fita, para os malabarismos sincronizados que fazíamos. Éramos gregas.


Minha irmã Etelvina tinha sete anos e uma falha de dentes na frente e frequentava a escola mineira. Vestida de baiana, com uma saia de babados e um turbante `a Carmem Miranda, liderava o pelotão com um cartaz na frente do vestido, que dizia  “Meus amiguinhos de outras terras”,  para representar o Brasil entre outras meninas com trajes típicos de outros países. 
Eu quase morri de inveja dela, pois baiana eu sabia o que era, mas “grega”… Nunca havia estudado História Geral e Geografia, apenas a do Brasil. Nem sabia da existência de um país chamado Grécia, e a professora não tivera o cuidado de nos explicar.
Para mim, grega era um enfeite cheio de curvinhas, que minha mãe, que era costureira, usava para ornamentar as roupas.


Aliás, minha mãe, que tinha estudado apenas até o terceiro ano primário,  começou a frequentar a escola capixaba. Fez o Curso de Admissão ao Ginásio `a noite. Mas, não me lembro por que, o curso acabou.

Azenir, D. Nara, minha mãe (Erandi) e meu pai (Norival), entregando-lhe o diploma
Penso que foi na época em que acabou a escola capixaba, com a dissolução do contestado, passando a pertencer a Minas Gerais. Sei que ela fez a quarta série na escola mineira pois há uma foto dela recebendo o diploma das mãos da diretora da escola, Azenir Heringer, filha do Seu Alvino, que havia se formado no Curso Normal em Patrocício e vindo para Itabirinha lecionar.
Para o nível de escolaridade da maioria dos professores locais, o ensino era muito bom. Ou pelo menos eu tive sorte de ter ótimas professoras. Miúda, filha do Seu Henrique Chesquini, D. Hortelina, Maria Gomes, Azenir Heringer e D. Nara Guimarães, que adotava um livrinho azul de poesias que eu sonho um dia encontrar, o meu ou outro igual, com poemas como "Barbara Bela", de Tomás Antônio Gonzaga,  "A cruz na estrada" de Castro Alves ("Caminheiro que passas pela estrada... ao veres uma cruz abandonada..."), "Y Juca Pirama"e outros.
Apesar de não termos biblioteca, fazíamos pesquisas nos livros da Azenir, a diretora da escola, num cômodo nos fundos da casa dela. Para encontrar as palavras no dicionário, a princípio, eu tinha que repetir a, b, c, d... no início, na segunda letra, na terceira... E  ampliar mapas fazendo quadradinhos numerados, para mim, era um suplício.
Azenir sabia fazer bolos confeitados e lembro-me de pelo menos dois que me deixaram lembranças; o do aniversário de quarenta anos do tio Joel, que era uma carreta lotada de toras e o do aniversário dos filhos do Seu Pedro Mecânico, quando ele ainda morava em Itabira, que era uma casinha com gramado em volta e uma cacimba, com espelhinho no fundo para simular a água, roldana e baldinho... Era muito artística e desenhava muito bem, especialmente flores, e era um privilégio ter um caderno com um desenho dela na primeira página, e eu tinha. Tia Edil e ela eram muito amigas. Lembro-me do dia em que o alto-falante do cinema anunciou a morte da esposa de um comerciante, Seu Antônio Português, que tinha quatro filhos pequenos, uma dia muito triste para todos. Tia Edil e Azenir estavam deitadas em camas de solteiro na casa da Azenir, conversando, quando o anúncio foi feito. Tia Edil, então, perguntou para a prima: "Zinica, por que você não casa com ele?" Azenir ficou até meio indignada com a sugestão, tão absurda. Mas, foi com ele que mais tarde se casou, acabando de criar os filhos dele e tendo um dela mesma.
Azenir trouxe muitas novidades, não só para a escola, mas para a nossa família também. Os piqueniques da escola não tinham só brincadeiras e comida. "Da minha viola eu quebrei o dó..." e outras.


No aniversário da Márcia do tio Jeronil, na tulha da fazenda, no terreiro do tio Joel, além de todas as meninas levarem suas bonecas (as nossas de roupas novas, feitas pela minha mãe), Azenir organizou um teatro, "Eu vi um dia com muita alegria, um bando de sapos fazendo gritaria..." E, no coro, enquanto uma turma cantava "Foi, foi, não foi, foi, foi, foi, foi, foi, não foi", duas outras  imitavam o cantar do sapo de modos diferentes. E na "Barbearia Heringer", vários clientes assentados lado a lado, para fazer a barba, um lençol passado de modo a servir de babador para todos eles, e o barbeiro muito ocupado, passando espuma que tirava de um balde com uma vassoura de pelo, na cara de todos eles. Depois, com um rodo, raspava. O balde cheio de espuma, no chão, que o barbeiro pegava e jogava na audiência. Um grito só, para receber uma chuva de confete de papel picado na cabeça. O balde fora trocado sem que a audiência percebesse.


                                                         Arraiá do Juda

O que significava “Arraiá do Juda” ou “Malhação do Juda”, como denominavam a cerimônia, não estava muito claro para mim, uma garota de oito anos, que não tinha muito conhecimento do personagem bíblico Judas, a não ser que traíra Jesus com um beijo.
Minha mãe sempre dizia que não acreditava muito em pessoas que se saudavam com beijinhos e mencionava o fato.
O “Arraiá do Juda” ou seja, a “Corte do Judas”, era montada na praça da igreja católica, num palco improvisado, com figuras feitas de roupas recheadas com papel ou capim, não sei ao certo.
O palco era feito de tábuas e cercado com papelão, com os personagens assentados em semi-círculo dentro dele. Não me lembro quantos eram ao todo ou de quem eram. Só me lembro de que o personagem principal, o qual personificava Judas, que seria malhado, cuspido, chutado e espancado com porretes pelas pessoas que haviam armado o “arraiá”, era um homem prominente no lugar, o Seu Agenário Gomes Pereira. Muito elegante, andava sempre de terno e minha mãe costurava para as filhas dele, que eram muito simpáticas, Marilandes, Miraildes, Marlene, que foi namorada do tio Joassi, as garotas mais bem vestidas do lugar. Aliás, uma das filhas, já casada, Maria Gomes, casada com Ciro Gomes, que já mencionei, foi minha professora particular na terceira série, quando, por algum motivo, ficamos sem professora.
O fato de ser prominente não estava relacionado a fortuna ou posição de liderança na comunidade, mas pelo tipo de profissão que exercia.
Naquele patrimônio em que não havia advogados ou contadores, nem seguradoras, e tudo tinha que ser feito em Mantena ou Mantenópolis, Seu Agenário era uma espécie de despachante, que resolvia quase todo tipo de problema burocrático.
Tinha um escritório com uma placa onde se lia “Organizações Agenário Gomes Pereira”, que não especificava exatamente o tipo de trabalho que realizava mas que dava a ele uma distinção especial acima de todas as outras pessoas do lugar, pela sua sabedoria. De recibos a declarações ou contratos, ele fazia de tudo, uma das poucas pessoas do lugar que possuíam uma máquina de escrever ou sabiam usá-la. Seu Agenário, na verdade, era um homem extremamente refinado, talvez refinado demais para a pequena vila em que morava.
No alto do palco improvisado, ao invés de “Arraiá do Juda”, havia uma inscrição que dizia “Organizações Agenário Gomes Pereira” e o personagem Agenário, gordo, vestido de terno e gravata e um chapéu na cabeça. E o famoso “Pasquim do Juda”, do qual não me lembro o conteúdo, apenas que continha piadas sobre o Seu Agenário e outras pessoas. Só me lembro de que quase morri de rir ao lê-lo.
Contava-se que certa vez, alguém havia arrebentado a porta do escritório do Seu Agenário, entrado lá e feito cocô no chão. Possivelmente alguém que o invejava por ele ser distinto e andar tão elegantemente trajado. Ou talvez alguma vingança ou rivalidade política. Mas a história diz que um conhecido dele lhe perguntou “Seu Agenário, é verdade que sujaram no seu escritório?” E ele respondeu: “É, defecaram no meu escritório.” Ao que a outra pessoa respondeu: “Pode falar a verdade, Sô Agenário, defecaram não, cagaram mesmo.”
Nunca vi outro “Arraiá do Juda”, nem mesmo em Itabira, nos anos seguintes em que moramos lá. Mas nunca me esqueci do fato e morro de curiosidade pra saber o que estava escrito naquele Pasquim.


Um ritual herdado de seus ancestrais, os índios puris, os caboclos eram um grupo de homens vestidos de blusa e saia vermelhas, penachos na cabeça e sapatos feitos de tecido nos pés.  Cantavam e dançavam batendo hastes umas nas outras e com arcos e flechas. Depois em volta de um mastro com fitas coloridas amarradas no topo, entrelaçadas. Enquanto seguravam um em cada fita, íam dançando em volta, de uma forma que as fitas se enrolavam trançadas no mastro.  Clarinda gostava muito de usar vermelho e, `as vezes, alguém dizia que ela era igual aos caboclos, que, em Itabira, usavam vermelho, enquanto em outras partes do país, vermelho e azul.


Clarinda era sempre convidada para ser dama de honra nos casamentos. Quando a Maria Helena Batalha, filha do Seu Joaquim e da D. Tatana casou-se, minha mãe tinha que sair para comprar um sapato para a Clarinda. O vestido já estava pronto e passadinho em cima da cama. Minha mãe chamou a Clarinda para ir a uma loja e ela, como sempre mimada e cabeça dura, insistiu que queria ir com o vestido de daminha. Mas era muito cedo e minha mãe temeu que ela o sujasse. Clarinda fez manha e não quis ir com ela, chorando até dormir. Minha mãe, então, saiu sozinha, deixando-a em casa, dormindo, só de calcinha, pois ela não aceitava vestir outra roupa. 
Quando estava na loja, alguém chegou pra avisar que a Clarinda havia passado correndo e chorando... só de calcinha.  


"Hoje tem marmelada, tem sim sinhô... E o palhaço o que é?..." "Na rua de baixo eu não posso passar..." e passava o palhaço de pernas de pau na rua, anunciando o espetáculo. O circo ficava sempre acampado no largo um pouco `a frente da nossa igreja, onde os ciganos também acampavam. `As vezes era o circo tourada... outras o circo com trapézio e bailarinas.


Tia Edil com sobrinhos (Eloísa, Léia, Clarinda,João, 
Glacilda, Gláucia e Dilminha
Ao fundo, o circo e um porco solto na rua.
Todas as tardes, brincávamos de rodinha na frente da casa, com as meninas da D. Clari do Seu Zequinha Medeiros e outras. Meu pai, com a sua mania de professor, ficava corrigindo a gente quando cantávamos "Tanta laranja madura menina, que cor são elas?" E algumas meninas cantavam "Elas é verde e amarela." E "Boca de forno!!! Forno... Tudo o que o mestre mandar? Fazeremos todos". Era para o meu pai ir lá, educadamente, mas com uma certa indignação, corrigir.
E novas cantigas, que aprendi: "Eu entrei na roda, eu entrei na roda dança, eu entrei na contra-dança, mas não sei dançar... Namorei um garotinho da escola militar, o danado do garoto só queria me beijar."


Certo dia, estávamos brincando de esconder. Etelvina escondeu-se num cercadinho que protegia uma castanheira recém-plantada. Foi quando passou uma carreta alaranjada, lotada de toras e Etelvina,  sem mais nem menos, pegou um meio tijolo no chão... e jogou na porta do caminhão. Ela então, correu e foi assentar-se num banquinho em frente `a casa do Seu Zequinha. O motorista parou a carreta e foi lá. Perguntou de quem ela era filha e começou a zangar com ela. Entretanto, nenhuma das outras crianças havia visto o ocorrido e todas a defenderam, dizendo que ela não tinha jogado pedra em caminhão nenhum e que ele estava sendo injusto com ela. Ele foi-se embora, saindo como mentiroso. Tempos depois, foi que ela contou que ele tinha razão.


Num desses dias que estávamos brincando de rodinha, uma garota que morava no Tipiti e estava visitando parentes em Itabira, do nada, apanhou uma mãozada de terra na rua e jogou no meu rosto. Eu não tinha costume de fazer estas coisas, mas para revidar, fiz o mesmo. 
Só que uma mocinha que era amiga da tal garota, colocou minhas mãos para trás, me segurou e mandou que a outra me jogasse terra novamente. Fiquei tão indignada com a situação que tinha pavor da menina. Interessantemente, a garota, todas as vezes que nos encontrávamos, anos depois, me tratava como se eu fosse uma celebridade, tamanha a alegria e o bom modo como me tratava. Eu não dizia nada, mas no fundo guardava mágoa dela. Bobagem, ela tinha mudado...




Carreta lotada de toras
Quando íamos ao Córrego Azul visitar o tio Cincinato e a tia Ilca, visitávamos também uma tia do meu pai, a tia Viana. Ela era negra e o marido, irmão do vovô Alvim, já falecido, branco de olhos azúis. O filho da tia Viana, Juvenil, cuja esposa se chamava Eliza, morava num sítio em Itabira e sempre íamos visitá-los.
No Córrego Azul, visitamos também o Oliveira Heringer, primo da minha mãe, que tinha uma família numerosa e morava num sítio com amenidades pouco comuns para o lugar: luz elétrica fornecida por um gerador pequeno com água canalizada de uma cachoeira do rio que passava nos fundos da fazendinha.
Numa dessas visitas ao Córrego Azul, assistimos uma carreta do tio Joel sendo lotada com as toras, uma tarefa difícil, com juntas de bois do lado oposto `as toras, puxando-as para cima da carreta com cabos de aço e gancho, usando dois pedaços de madeira para que elas deslizassem sobre eles, até cairem no lugar certo. Duas lado a lado, e outra em cima das duas. Depois passaram a usar catracas com cabos de aço, muito mais seguro, pois os bois nem sempre paravam no momento certo e acidentes ocorriam em que as toras passavam do lugar em que deveriam estar. Dois homens eram suficientes para lotar a carreta, sincronizando os movimentos da catraca, uma espécie de engenhoca que íam tocando para puxar a tora.


Tia Ilca e tio Cincinato acabaram se mudando para Itabira. No Córrego Azul tiveram outra filha, a Glacilda, e logo que vieram para Itabira, buscaram o tio Filadelfo, lá em Laranja da Terra, para morar com eles. 
Tio Filadelfo gostava de soltar papagaio na praça da igreja católica, e nós gastávamos horas acompanhando-o, com mestria, cortar a folha de papel de seda, afiar a taquara com o canivete, passar a cola que já havia cozinhado, de polvilho e água, e finalmente, moer o vidro pra fazer o cerol da linha, que o habilitava a competir, cortar a linha de outros papagaios.
Era muito gostoso ficar naquela praça vendo os papagaios coloridos no céu, contra o belo monumento de pedra, que é a marca registrada daquele lugar.
Depois de algum tempo, tio Filadelfo foi morar em Governador Valadares, na casa do tio Jenus e da Maria. 
Mas quando me formei no quarto ano primário, ele foi meu paraninfo, provavelmente o mais jovem de todos, com quatorze anos. Os outros estavam de terno; ele usava uma camisa listrada. Mas, para mim, nenhum era mais importante do que ele. Aliás, tínhamos, além da formatura, um culto e uma missa. Na missa, convidei uma pessoa católica para ser meu padrinho; o Seu João, um farmacêutico novato no lugar, mas muito amigo de todos, especialista em espremer os carnegões das nascidas, que eu mesma não tive muitas, mas alguns dos primos sofriam com elas. Ele me deu uma Bíblia Católica, com livros a mais do que na nossa Bíblia, Judite, Macabeus e outros, livros apócrifos, como minha mãe me explicou. Até hoje tenho esta Bíblia.


Houve um ano em que a Gláucia foi baliza no desfile de Sete de Setembro. Eu, com uns dez anos de idade, bordei toda a roupa dela, com miçangas e paetês. As meninas da tia Ilca pareciam nossas irmãs menores. Minha mãe tem uma verruga grande no meio das costas, na altura do decote. Glacilda, todas as vezes que ía lá em casa, pedia: "Eu quero ver a biuguinha da Tirandi."
O Dubinha, filho do Seu Benjamim, tio do tio Cincinato, `as vezes, vinha passar férias em Itabira. Ele tinha um caderno que me deu, onde me ensinava uma porção de coisas; eu o achava o máximo, realmente era muito inteligente. Só que não tenho a mínima idéia do que continha o caderno.


Tio Joel foi um dos primeiros, além dos donos de bares, a comprar geladeira em Itabira. Uma "Hotpoint" grande. A esposa dele, tia Jeni, havia matado um pato pelos dias em que a geladeira foi instalada. Uma das empregadas, Maria Protina, não tinha muita idéia da utilidade da geladeira e sugeriu: "Ô D. Jeni, por que que a gente não assa o pato na geladeira?"
Íamos sempre para a fazenda dele, a pé, mesmo que passasse alguém que oferecesse carona. Lembro-me de que um dia fomos com a Marilda e a Márcia do tio Jeronil. Etelvina e eu estávamos usando nossas calças compridas. Tio Jeronil não permitia que as filhas dele usassem. Então, entramos no mato e trocamos nossas roupas com elas.
Na fazenda, era uma festa só. Brincávamos no meio das toras, na serraria; fazíamos casinhas de bambu e folhas de coqueiro, com janelas, portas e tudo. Além de chupar manga até não poder mais. Não era necessário nem subir nos altos pés de manga. Era só esperar os "tuins", um tipo de periquito verde, que ao tentar bicar as mangas maduras, `as vezes cortavam o talo com o bico. Era uma chuva de mangas...
Na época de fazer rapadura, tomávamos garapa até não poder mais. No engenho, depois a que púnhamos na geladeira da tia Jeni. Também comíamos puxa e depois rapadura...


Irmãs Edil, Elma, Ilca, Erandi (minha mãe) e Elzina
Minha mãe resolveu começar uma fabriqueta de roupas de crianças, e foi a Belo Horizonte comprar tecidos e enfeites para tal. Meu pai, então, comprou uma casa com um ponto comercial na frente, onde instalaram o salão de costura. Tia Elma e tia Edil estavam morando lá em casa; tia Edil dava aulas na escola mineira e tia Elma e uma moça chamada Eni Batalha, filha da D. Tatana e Seu Joaquim Batalha costuravam com minha mãe.  E até uma sobrinha do meu pai, a Anita, para quem minha mãe ensinara corte e costura, veio de Laranja da Terra para trabalhar com ela.
A casa em si era espaçosa e boa, mas não tinha água encanada, nem instalações sanitárias. A casinha era lá no fundo do quintal, com os porcos cuidando dos excrementos. Em Laranja da Terra, usávamos sabugos para limpar e aqui papel; pelo menos uma coisa boa para compensar. Também não havia sabugos em abundância como lá, que morávamos na fazenda. A água, de cacimba, tirada com um balde amarrado numa corda. Tia Elma,  tia Edil, Anita e minha mãe,  revezavam no fogão, eu e Etelvina lavávamos as vasilhas, uma função muito difícil. A água saloba (salobra, com muitos sais minerais) não deixa o sabão espumar e, por conseguinte, sendo água fria, tornava difícil a lavação de vasilhas.
Eu fazia o meu melhor e até que dava conta do recado, mas a Etelvina não tinha paciência o suficiente para esfregar até tirar toda a gordura. Tia Elma fiscalizava e, `as vezes, pegava o dedo da Etelvina e passava na vasilha, para que ela sentisse que ainda estava engordurada. Etelvina tomou pavor de lavar vasilhas...
A produção comercial de roupas não durou muito tempo. Minha mãe continuou costurando para sua clientela, vestidos muito bonitos, como antes.


Casamento da Eniuza e Adalmário (Alemão)
Daminhas:Eloísa, Edilmar (irmãs da noiva),
Etelvina e eu,  
 Quando Eniuza, filha da tia Elzina se casou, fez o vestido de noiva, e até luvas para as damas de honra (Etelvina e eu éramos damas também). Fazia arquinhos de cabelo, usando arco de barril como base; tinha um livro chamado "Toutemode", que ensinava a fazer praticamente de tudo.


Meu pai decidiu aproveitar o ponto comercial e montar uma pequena mercearia. Trouxe o sobrinho dele, Juca, irmão da Anita, para trabalhar na venda. O Juca era muito bom para mim e minhas irmãs, e nos tornamos os seus maiores fregueses. Principalmente do leite condensado e das salsichas enlatadas. Não admira que a venda também não durasse muito tempo. Do lado direito da nossa casa, ficava o boteco da D. Mariinha. Ela fazia "quitanda" para vender, num forno grande, nos fundos da casa. Quando saía a fornada de biscoitos e brevidades, ela já separava a parte da Clarinda, que era gorduchinha e cativante. A Sá Dorce, esposa do Seu Wilson Berto, do bar, também tinha um forno grande de tijolos e quando terminava de assar os biscoitos gritava: "Clarinda!!!" E ela saía correndo.


De vez em quando, passávamos pela beira do rio, perto da máquina de limpar arroz do Élio do  Seu Moreno, para ir `a Olaria do Seu Josino, na Vila Nova, um dos nossos passeios favoritos. Ele era pai da Rosalina e de uma turma de moças da nossa igreja,  Altas caieiras, cubos feitos de tijolos engaiolados, com um buraco embaixo para se colocar o fogo para queimar os tijolos. O engenho puxado por cavalos amassava o barro para fazer as telhas e tijolos, do qual sempre trazíamos um pouco para casa para fazer nossos trabalhinhos de cerâmica. Panelinhas, bonequinhos, mesinha e cadeirinhas... um sonho. A casa do Seu Josino era alta e, logo depois de subir a escada, podia-se ler na parede da sala uma frase que nunca soube o que significava: "Cacoa, Josino, cacoa."
Nós apenas deduzíamos que podia ser: "Caçoa, Josino, caçoa". Mesmo que fosse, não fazia muito sentido, mas nunca descobrimos.

Seu Tranquilo era dono de uma marcenaria e o pai dele, do qual não me lembro o nome, de ascendência italiana, falava com um pouco de sotaque. Dizia: "O meu filho (Tranquilo), começou fazendo "carinho" (carrinho) pra criança, depois passou a fazer "caroça" e agora ele faz até "careta" (carreta) pra homem".


Vovô Filadelfo, esposa Margarida, com  netos, bisnetos e
um trineto (Adiles, filho da Eniuza e Adalmário)
Tia Edil estivera morando em Belo Horizonte por algum tempo e tinha adquirido habilidades de cabeleireira, sabia fazer penteados daqueles coques com cabelo desfiado, unhas e etc. Usava os cabelos curtos e pintava as unhas e os lábios de uma cor caramelo avermelhado, que combinava com a cor da sua pele. E, quando a festa era importante, usava sapatos de salto sete e meio.
Vovô Filadelfo
Certa vez, durante a escola dominical, o Pastor Israel Louzada, possivelmente pressionado por outros membros da igreja muito conservadores, ajuntou um grupo de homens e, enquanto acontecia a Escola Dominical no templo, chamou a tia Edil para uma conversa na casa pastoral, a fim de repreendê-la pela sua aparência. Meu bisavô e avô da tia Edil, vovô Filadelfo, o diácono mais idoso da igreja, com mais de noventa anos, que não fora convidado para a reunião, viu tia Elzina chorando e descobriu o que estava acontecendo.
Foi, `as pressas, `a casa pastoral e chegando lá perguntou ao pastor: -"O que esta cambada de homens está fazendo aqui com uma moça, sem nenhuma outra mulher presente, e por que eu, sendo o diácono mais idoso da igreja e avô desta moça, não fui convidado?". O pastor tentou explicar-lhe as razões, mas não conseguiu convencer o vovô, que, olhando para a tia Edil, disse: "Minha filha, você vai continuar a usar o seu cabelo e o seu baton, do jeito que você gosta, pois quem não se enfeita, por si se enjeita." E, saiu de braços dados com ela, deixando os seus acusadores sem a acusada.




As EPBs (Escola Popular Batista, o nome das EBFs naquele tempo) eram animadas na nossa igreja, comandadas pela Neuzi, filha do Pr. Israel, que estudava não sei aonde, mas vinha nas férias. Cânticos com gestos: "Uma igrejinha de torre levantada, abriremos a portinha... não tem nada. Uma igrejinha de torre levantada... que meninada". "Alegrei-me quando me disseram... vamos, vamos `a casa do Senhor." E "Uma sementinha, escondida no chão, dormia um sono sossegado e bom..." "Eu vou crescer..."  E as brincadeiras: "Macaco disse...", você obedecia, ... disse, mas se não fosse o macaco e você fizesse, era eliminado. Um saía e depois voltava para descobrir  "Quem é o líder" daquela criançada toda, além de decorar o Salmo Primeiro e ouvir histórias de flanelógrafo e outras de revistas ilustradas "Jaime e o ateu",  "O menino do barril", lindas.
Meu pregador favorito era o Seu Milton de Assis, esposo da Madalena, que tinha uma turma grande de crianças, muito ativo na igreja na época.


No Natal, tínhamos o programa na igreja, comandado pela Genoveva, filha da D. Cornélia, a zeladora da igreja, que morava numa casa bem pequenininha, nos fundos da igreja, ao lado da casa pastoral. As peças eram curtas, mas bem elaboradas e cheias de cores. Genoveva fazia roupas de papel crepom para nós, com bastante criatividade.
O ponto alto da decoração no vilarejo era a casa do Seu Manoel Bastos, que tinha um presépio na varanda.


Meu pai nunca passava muito tempo sem ir a Laranja da Terra. Ainda tinha o sítio na propriedade do pai dele, que os tios Nolmerindo e Ataídes administravam e, nas nossas férias escolares, quando íamos lá, ele fazia os acertos de conta para receber a sua parte no café colhido. Além disto, tinha um sítio perto de Lajinha, no Indaiá, administrado por um meieiro, seu Isaías, e esposa D. Sebastiana.
Nestas viagens, passávamos por Governador Valadares, onde assistíamos televisão, comíamos maçã (em Itabira havia muita manga e outras frutas, mas não maçã), comprávamos revistinhas de historinhas e visitávamos os conhecidos.
Seu Benjamim, tio do tio Cincinato, tinha um salão de beleza na Rua Peçanha, onde cortávamos os cabelos com a Zefira, irmã do tio Cincinato. D. Fiúca, a esposa do Seu Benjamin, sempre nos tratava com um bom almoço e uma vez, fez picolé caseiro, de manga, para nós.
De uma certa feita, ficamos hospedados na casa do Seu Tininho Brandão. Lá, comemos creme com cereja em cima, uma grande novidade, que a esposa dele, Dona Horacina, irmã do pastor Ambrósio, serviu para sobremesa.
Numa dessas passagens por Governador Valadares, era época de Natal, ficava encantada com tanta decoração nas ruas e nas lojas, especialmente o trenzinho dentro da vitrina, que andava sozinho. Minha mãe comprou bonecas de louça, com carrinho, para nós e uma boneca de borracha, da Estrela, e um ursinho de óculos, para Clarinda. Etelvina tentou tirar os óculos do ursinho para colocar na sua boneca. Como a boneca era bem maior do que o ursinho, os óculos ficaram relaxados e não paravam mais no ursinho. Também comprou sapatos chanel, rosa-choque,  última moda,  para mim e Etelvina. Para a Clarinda, que tinha uns quatro anos, ela queria comprar sapatos branquinhos. Mas Clarinda escolheu um azul turquesa e não teve como dissuadí-la a comprar o branco.


Tio Reginaldo conduz Luci ao altar (Gelcimar e Gelcir
são o cavalheiro e a dama de honra; tia Adenair
desamarra o laço de fita.
Tio Joanilson e tio Joassi já estavam em Itabira há algum tempo e trabalhavam com a carreta de toras dos tios Joel e Jeronil. Tio Joanilson, como sempre, não ficava sem namorada. E acabou se casando com a fllha do tio Reginaldo, Luci, que se formara na Escola Normal não me lembro aonde, e viera lecionar em Itabira. A família não era muito favorável ao casamento, pelo fato de serem primos duas vezes. O pai dela, tio Reginaldo, era irmão da mãe dele (vovó Leonina). Por outro lado, a mãe dela, tia Ninpha, era sobrinha do pai dele, vovô Américo (filha do tio Brilhantino). 
Entretanto, nada tirou os dois de namorarem. Lembro-me de que eles tinham um sinal secreto. Quando ele chegava do "mato" com a carreta lotada, businava de um modo característico, ainda lá na Vila Nova, e ela sabia que era ele e corria para esperá-lo. Os dois gostavam muito de bolinho frito, meio mole, que minha mãe, `as vezes, fazia para eles. 


Na Igreja Presbiteriana, os sábados eram muito animados, com sociais comandadas pelo Mário, esposo da Orma Emerick, um ator de primeira categoria. Nunca me esqueci de uma esquete em que o marido pede `a esposa para encurtar uma calça dele; a esposa diz que está muito ocupada e não pode fazer o serviço. Pede então, `a filha, que também declina da obrigação. Por fim, ao filho, mas este também tem outros afazeres a cuidar.
Vovô Américo e família no casamento do tio Joanilson
Em algumas horas, a esposa chega, vê a calça do marido em cima da mesa,  e fala: "Coitado do fulano, ele faz tanto para mim e eu não encurtei a calça dele. Pega a tesoura e corta um pedaço. Daí a pouco, a filha, vê a calça, pensa a mesma coisa e decide fazer o trabalho. Por fim, o filho... Quando o senhor chega e vai vestir a calça, está de bermuda.


As correspondências, raras, chegavam pelos ônibus (Dandão, de Mantena e Águia Branca de Gov. Valadares) e eram entregues não sei como pois não havia correios. As notícias, além do rádio, chegavam através das revistas Manchete e O Cruzeiro, que se comprava em Mantena ou  Governador Valadares.
Miss Brasil 1963, Ieda Maria Vargas, gaúcha,  foi eleita Miss Universe, a primeira brasileira a conseguir a façanha.  Algumas pessoas comentavam sobre Marta Rocha, a Miss Bahia e Miss Brasil 1954, que ficara em segundo lugar no Miss Universe, por duas polegadas a mais...


A sexta-feira, dia 22 de novembro de 1963, dia do assassinato de John Kennedy,  foi triste e me lembro da bandeira preta colocada na Igreja Matriz (igreja católica). Eu, com meus dez anos de idade,  pensava, como poderia alguém assassinar um presidente tão bom, que iniciara o programa "Aliança para o Progresso", que distribuía alimentos para todo o mundo...


Depois disto, mudamo-nos para a Rua da Serraria, a Serraria do Seu Alvino Heringer, sobrinho do vovô Américo, o que era vizinho de fazenda lá em Laranja da Terra.  Na rua moravam vários parentes nossos, Seu Alvino e D. Alzira, o Oziel e Adenir, genro e filha deles, o Abgair (Bêga), filho também, com a família.
Desfile de Sete de Setembro de 1963
Que eu saiba, esta rua era a única  do vilarejo que tinha água boa, seja de mina, ou encanada de uma nascente no sítio do Seu Lindolfo Bicalho, logo acima. A casa para a qual nos mudamos era do tio Reginaldo e ficava do lado da máquina de limpar café, dele também. Ao lado da casa da máquina, morava o Seu Pedro Marcolino, esposo da D. Maria, amigos do vovô Filadelfo desde Pancas, de onde viera e membro da Igreja Batista como meus pais. D. Maria tinha um forno grande de tijolos na varanda, onde fazia “quitandas” também. Então, a Clarinda continuou a receber os primeiros “biscoitos de polvilho” da fornada, de outra Maria, que a chamava na  janela do lado da nossa casa para receber os quitutes. D. Maria  usava os cabelos presos em coque, mas um dia resolveu soltá-los e colocá-los para a frente. Quando chegou na janela, balançando os cabelos, Clarinda olhou para aquela cabeleira bonita, comprida, e ficou imaginando quem seria aquela mulher. Demorou alguns minutos para reconhecer a vizinha.  
D. Maria tinha um papagaio que a imitava quando ela chamava minha mãe, Erandi. Especialmente aos domingos, quando dormíamos até mais tarde e ele ficava raspando o bico na porta e chamando “ 'randi… 'randi…”
D. Maria gostava de passear nas roças e nós não perdíamos qualquer oportunidade de ir com ela, `as vezes a pé, outras a cavalo, `a casa da Nilza Maciel, membro da igreja, da Nidinha, filha da D. Maria, no Pati ou outras...

Seu Pedro Marcolino era um ótimo contador de histórias e gostávamos de ir pra lá ouví-lo, assentado na cadeira de balanço. Também acompanhava o “Jerônimo, o Herói do Sertão”, "Pedro Malasartes" e "Cancão de Fogo", no rádio ou em livretos, não me lembro bem.
Na casa da D. Maria tinha água encanada, mas como havia uma mina de água muito clara e boa, perto da máquina de limpar café, a Fifina, filha dela, lavava as roupas na bica da mina. Eu e Etelvina íamos com ela, lavar nossas roupas de sair lá também, e nos molhávamos todas para refrescar do calor.
Etelvina, como sempre precoce, tinha um namoradinho, colega de classe. Adão tinha uma bicicleta roxa e havia brigado com um menino, na escola, no qual havia mordido. Apelidaram-no de “Cachorro azangado roxo”. 
Certo dia, Adão pegou uma borracha emprestada com a Etelvina e quando foi devolver, aproveitou a oportunidade para alisar a mão da Etelvina. Por coincidência, minha mãe estava passando na calçada e, como as portas do salão de venda onde funcionava a escola, ficavam abertas, viu a cena.
Quando Etelvina chegou em casa, a mãe lhe disse" "Não gostei nada daquilo que vi.
Como Etelvina estivesse na segunda série, mas ainda não soubesse escrever cartas, pedia que eu escrevesse as cartas dela para o Adão. Certa vez, a Fifina encontrou uma carta e mostrou pra mãe. As missivas pararam de circular.

Do lado esquerdo da nossa casa, morava a D. Madir, uma senhora da Igreja Cristã, que usava véu, que nunca tínhamos visto numa igreja evangélica, e tinha várias meninas, com as quais brincávamos. Mudou-se para o Paraná. Ficamos tristes.
D. Luzia, mãe dos irmãos Vicente e Salvador  Marinho, donos da Casa Salva-vida, veio morar na casa, com um neto chamado Cléver, de uns cinco, seis anos, que morava com ela. Uma das obrigações que tinha, apesar de ser tão pequeno, era moer café no moinho, tarefa que odiava. Uma vez, D. Luzia o pegou dando marteladas no moinho e falando: “Mói fino…mói fino…” Pegou o chinelo e começou a bater no Cléver e dizer: “Mói fino… mói fino…” Tive pena dos dois.


D. Alcides era uma senhora idosa que morava sozinha, numa casa logo abaixo da casa da D. Luzia. Tinha uma mina de água excelente também no quintal, e um sapo-boi que morava na mina.  Clarinda gostava de ver o sapo-boi, que D. Alcides protegia com todo o cuidado. Também tinha dois pés de maçãs miúdas, fruta que não era comum no lugar, mas que ela dava para as crianças das quais gostava, incluindo a Clarinda. 

Meu pai acabou comprando uma casa naquela rua. O tio Reginaldo havia vendido a casa onde morávamos para o Salvador Marinho e, por uns tempos, fomos morar na casa do tio Reginaldo, com a família dele, até o meu pai reformar a casa que comprara, com um quintal enorme com uns dozes pés de manga. Interessante é que, um dos pés de manga, ficava na divisa da cerca da família vizinha, que era amiga nossa. Etelvina estava na casa desta família, um dia, e resolveu pegar uma manga neste pé de manga fronteiriço. O garoto da casa ao lado, a casa que meu pai compraria no futuro, pegou uma pedra e a jogou na cabeça da Etelvina. Depois que nos mudamos para a tal casa, ela sempre relembrava o fato, contente porque agora podia pegar manga livremente no tal pé de manga.
Meu pai tinha um Jipe e queria muito que minha mãe aprendesse a dirigir, mas ela não gostava. Levava-a para o campo de futebol, na Vila Nova, para dar-lhe instruções. Entretanto, ela tinha dificuldade de sincronizar os pedais. Tirava o pé da embreagem muito rápido e, `as vezes, o carro morria. Ou então saía dando pulos como um cavalo bravo. Eu ficava doida para aprender a dirigir, mas meu pai não deixava.

Minha mãe acabou se tornando uma professora leiga. Lecionava uma classe de segunda série. Era uma boa professora. Lembro-me de ver o seu caderno de Planos de Aula, que preparava com a D. Laura Werneck, outra professora, nossa vizinha, para a semana. Bem feitos e ilustrados, com desenhos coloridos com lápis de cor e canetas esferográficas de várias cores, estas últimas, a grande novidade na arte da escrita. A diretora da escola, Azenir Heringer, filha do Seu Alvino, dava visto nos cadernos de planos toda semana.

Minha mãe e D. hulda com as Mensageiras do Rei
Ela também era líder das Mensageiras do Rei, na igreja, junto com a esposa do pastor Jenadir de Freitas, D. Hulda. Etelvina, Clarinda e eu aprendemos bastante na organização, além de curtirmos os piqueniques que eram frequentes. 


Clarinda tinha um gatinho “Chaninho”, o qual ela adorava. De repente, o bichano começou a engordar, até que um dia, desapareceu; ninguém o via. Estava escondido na caixa de brinquedos da Clarinda, debaixo da cama num quarto do lado da cozinha, o ninho cheio de filhotes. Era Chaninha. Nossa mãe, discretamente,  tirou tudo e lavou para que não houvesse perguntas curiosas. 

Os primos aproveitavam a serraria e a ajuda do Vô Vino (Seu Alvino) para construir carrinhos de rolimã, nos quais descíamos no morro, atrás da serraria. Na serraria, havia também uma oficina mecânica, com máquina de solda e tudo.
Certa vez, um dos primos, que era o motorista do carrinho, ao descer o morro, fez uma curva fechada e ele virou, jogando todos os tripulantes no chão. Etelvina, minha irmã, era um deles e saiu arrastando pelo chão, ficando toda esfolada. Mas como não tínhamos ordem dos nossos pais de fazer a aventura, ela não disse nada para ninguém. Pegou um pouco de sal, misturou com vinagre e foi para o banheiro, que era separado da casa, tratar das feridas.  Imagine a dor…Ficou com marcas permanentes nos joelhos e nas pernas.


A serraria do Seu Alvino estava parada, por causa de uma demanda que se arrastava por anos, em que eram partes o Seu Alvino e o homem que vendera a serraria para ele, Onofre Moura. Como o vilarejo estava localizado numa Zona Litigiosa, ou Contestado, havia dois processos, um em Minas Gerais e outro no Espírito Santo. Onofre Moura já havia levado um trator D4  de esteiras que não tinha nada a ver com a serraria, pois havia sido trazido por Seu Alvino de Laranja da Terra e um caminhão International. E estava, com a ajuda de coronéis capixabas (diz-se que na verdade não tinham a patente, apenas o título de coronéis), tentando levar o restante da serraria.


Em Laranja da Terra, Seu Alvino tinha tido uma serraria na fazenda dele também, que já quase não funcionava porque a madeira naquela região se tornara escassa. Havia vendido a sua propriedade de café lá para investir na serraria em Itabira, onde ainda existia muita madeira. Entretanto, estava ali, parado, sem poder colocar a serraria pra serrar, por causa da demanda, Andava numa bicicleta e fazia serviços de conserto de máquinas e pequenos bicos, e a esposa, D. Alzira costurava para ajudar a manter a casa.


Mas, vou deixar que testemunhas oculares dos acontecimentos, contem a história, pois eu era muito criança e não sei explicar detalhes. 

Abgair Heringer (Bêga), um dos filhos do seu Alvino, escreveu o seguinte a respeito da compra da serraria, que reproduzo literalmente:

"No dia 28 de julho de 1958 quando apareceu na fazenda de Alvino Honorato Heringer, localizada `a beira do Rio Fama, Município de Iúna, Estado do Espírito Santo apareceu em sua residência o senhor Onofre Moura Silva e um companheiro, sendo recebido pela família fez-lhe uma proposta de venda de uma serraria com barracão, as máquinas, cinco casas residenciais com área  de terra de 30.000 metros quadrados, uma caldeira, dois caminhões F8 Ford, e 3000 metros cúbicos de madeira em toras, onde as carretas pudessem apanhar, dividido em prestações mensais de duzentos e quarenta mil cruzeiros, em madeira serrada no valor de três mil cruzeiros posto no depósito de vendedor em Governador Valadares na Rua Rubin número 15.

E assim sendo combinado em Agosto do mesmo ano tomamos posse de todo o imóvel e começamos a trabalhar, no princípio fomos recebendo madeira, serrando e entregando conforme contrato, a madeira que sobrava vendia para ele ao preço do dia, pagando em dinheiro e petróleo com nota do posto. Tudo foi muito bem até o fim do ano, mediante as notas tínhamos em mãos as nossas contas tudo certo, não havia débito nem haver. Fomos ao escritório do Onofre para fazer acerto que fomos surpreendidos com um débito de quatrocentos mil cruzeiros. Não aceitamos, fomos conferir as notas encontramos notas  (que) não estavam em nosso conhecimento, outras que não conferiam com as que estavam em nosso poder, havia alteração, ele não quis aceitar e partiu pra justiça. Fomos intimados, atendemos. Em confronto de notas ele percebeu que ia dar errado, então propôs um acordo de mudar o contrato, depois de mudar ele sentiu que errou, veio com outra proposta, passar a serraria por noventa dias, porque não estava podendo entregar a madeira para serrar mediante o contrato. Fizemos o acordo mediante uma carta redigida pore le. Conforme acordo, autorizamos Onofre trabalhar noventa dias na serraria. Assinamos Alvino, Abgair, Altair. Ele completou “porque não podemos continuar com contrato”. Ele trabalhoou os noventa dias. Na hora de entregar, nós (o) procutamos, ele respondeu que nós tínhamos a serraria a carta, e mostrou a carta. Falei:”Ela está alterada, olha a nossa cópia.” Ele vendo que estava errado, entrou com a carta requerendo despejo nosso. Fomos intimados pelo delegado da comarca e fomos atender. Levamos a carta; o delegado falou (que) estávamos desrespeitando os direitos dos outros mediante uma carta entregando a serraria. Respondi: “Aqui está a carta que escreveu com seu próprio punho e nós assinamos. O delegado olhou e disse: “É causa de juiz, a partir daí começou a demanda que veio acontecer tudo que o seu pai escreveu neste caderno.
Leonina, poderá `as vezes faltar alguma coisa mais por passar tanto tempo a gente esquece muitos detalhes.
E o mais você me perdõe alguns erros de português. Agradeço suas palavras que você passou para mim e minha companheira, que (Deus) te abençõe e tenha longa vida pela frente, obrigado por tudo. Abgair"




Portanto, com o aval do Abgair (Bêga), vou deixar que o que meu pai escreveu conte a sua versão dos fatos, que transcrevo também literalmente:
  


                                                               


"A história de um drama que houve com o Sr. Alvino Heringer em Itabirinha de Mantena




                                         Norival Fortunato Gomes


Fez compra de uma serraria para pagar em prestações, do Sr. Onofre Moura Silva. Foi serrando madeira, vendendo e pagando as promissórias; ja tinha adiantado duzentos mil cruzeiros pro Sr. Onofre quando o Sr. Onofre propôs a ele que o deixasse administrar a serraria por noventa dias, que iria dar uma renda muito boa, mas exigiu uma carta de autorização para administrar e alterou a carta com a frase "por não poder continuar com o contrato”, sendo que havia um contrato de negócio feito entre ambos.
Com a carta em mãos, propôs uma ação judiciária contra o Sr. Alvino na Comarca de Mantena, Minas Gerais, na qual o Sr. Alvino ganhou a causa e continuou de posse da serraria.
Por causa de Itabrinha ser na Zona Litigiosa naquele tempo, o Sr. Onofre propôs uma outra (ação) contra o Sr. Alvino na Comarca de Mantenópolis, Espírito Santo. O Sr. Alvino ganhou outra vez.
O Sr. Onofre arranjou mais documentos falsos e apelou pro Tribunal do Estado do Espírito Santo. O Sr. Onofre ganhou a ação.
Mas em vista do Sr. Alvino estar de posse da serraria dada pelo Tribunal Mineiro e haver desacordo entre os estados do Espírito Santo e Minas Gerais, o Tribunal do Espírito Santo ficou sem jeito de dar posse ao Sr. Onofre. Um coronel capixaba pegou do Sr. Onofre uma empreitada para tirar o montante da serraria, no decorrer do ano sessenta e dois.
O coronel veio com um subtenente, um sargento e seis soldados, começaram a desmontar as máquinas de uma oficina mecânica que já era de propriedade do Sr. Alvino muito antes dele comprar a serraria do Sr. Onofre. Nessa ocasião, o Sr. Onorfre ja havia tomado um trator D4 de esteira e um caminhão Internacional do Sr. Alvino, por intermédio da policia capixaba.
Quando estavam lotando os caminhões, o Sr. Alvino chegou clamando em minha oficina que a polícia ia tirar as máquinas. Nessa ocasiao, eu era estabelecido com uma oficina de torneiro  mecânico em Itabirinha.
Eu disse ao Sr. Alvino que eu ia dar um jeito. Sai `a rua e pedi apoio `a comunidade; diversas pessoas se prontificaram a cercar a policia.
Vim `a fazenda do meu cunhado Joel Heringer e também `a fazenda do Adiles Heringer, filho do Sr. Alvino, e os convidei para cercar a polícia e não deixar tirar a serraria. O Joel Heringer logo lotou um caminhão de homens e fomos pra serraria. Ao chegarmos, o coronel já havia ido embora e deixado o subtenente e o sargento com as seis praças pra levar a serraria.
Ao chegarmos, pedimos ao subtenente que nos mostrasse os documentos que autorizavam a ele pra tirar o montante. Ele nos mostrou um documento de escrivão de Mantenópolis, no qual não havia o despacho do Juiz de Direito daquela comarca. Perguntamos ao subtenente pelos oficiais de justiça, ele nos disse que tinha uma ordem superior do Sr. Coronel. O Joel respondeu a ele que o coronel não era autoridade para dar (posse) no Tribunal. Eu disse a ele que não estava falando com ele em nome da firma, mas em nome do povo de Itabirinha, que estava sendo ultrajado com aquela arbitrariedade, que se tentasse sair podia, mas não ia sair porque o povo estava de prontidão. Ele (então) resolveu deixar os carros lotados, ir embora com os policiais. Achou difícil não ter uma condução para ir embora; Joel propôs de levá-los no caminhão de propriedade do Joel e aceitaram e foram de caminhão. O Adiles Heringer, ao chegarem em Barra de S. Francisco, pediram a um advogado para verificar os documentos, o advogado disse que se aquilo fôsse documento, que ele rasgaria o seu diploma.
Barricada para cercar os caminhões lotados com parte da serraria do Seu Alvino
Passados oito dias, soubemos que eles vinham outra vez; ficamos de prontidao esperando a chegada da polícia capixaba para tirar as máquinas. Pusemos uma rapaziada nas ruas, batendo lata a noite toda. De madrugada, chegou um caminhão, o motorista disse a um tio dele que tinha vindo buscar máquinas da serraria, eu disse ao tio dele que se ele tentasse entrar na serraria, que nós quebraríamos o caminhão dele. Antes do dia amanhecer, ele foi embora com o caminhão. Ao encontrar os policiais, disse a eles que o povo de Itabirinha estava de prontidão. A polícia veio mas não chegou na serraria, ficaram numa pensão e mandaram nos chamar lá para rever os documentos, que eram os mesmos. Eu disse ao subtenente que o dia que o Tribunal Capixaba despachasse e mandasse os Oficiais de Justica, que ainda não concederíamos a posse. A polícia foi embora. Passados mais alguns dias, o Sr. Valdir Pereira, que era chefe político em Mantena nos disse que se soubéssemos que vinha, (era) pra falar com ele que mandaria a polícia mineira pra cercar. O coronel capixaba falou com o Capitão Caldeira, delegado em Mantena, Minas Gerais que não vinha a Itabirinha sem avisar ao capitão e veio sigilosamente. Quando chegou em Vargem Grande, encontrou o Sr. Alvino e o Abgair, filho do Sr. Alvino, prendeu os dois e levaram pra Mantenópolis, Espírito Santo. Nós soubemos quando o ônibus chegou em Itabirinha, um senhor que veio no ônibus, disse-me que (tinha que) me falar em particular, eu disse a ele que se fosse coisa da serraria, que podia falar, porque nós estavamos de prontidao.
No momento em que prenderam o Sr. Alvino e o Abgair, o Adalmário Heringer viu e foi a Mantena, falou com o Sr. Valdir Pereira. O Sr. Valdir mandou logo a polícia mineira para cercar enquanto o coronel foi a Mantenópolis e voltou, a polícia mineira apanhou o coronel que estava com um pneu furado. (Embicou uma metralhadora para o lado do coronel). Discutiram muito e o coronel capixaba voltou para Mantenópolis e mandou soltar o Sr. Alvino. E (a) polícia mineira, ao chegar na Fazenda do Joel, o Joel mandou falar com um homem que estava com um tambor de gasolina para ponte da chegada em Itabirinha que não incendiasse a ponte porque (era) a polícia mineira.
Naquela noite, o Valdir comunicou com o comandante do Sexto Batalhão em Valadares, que mandou caminhões de soldados e oficiais pra Itabirinha. Na segunda vez que a polícia capixaba veio a Itabirinha, o Joel convidou o subtenente com a polícia para saírem em uma fotografia dos grevistas, eles não quiseram, tiramos uma fotografia  do povo em massa; o que eu achei mais importante foi as mulheres daquela cidade que se ofereceram de irem `a rua nem que fosse pra xingar a polícia capixaba.
Dessa vez, o movimento da coisa ficou parado (calmaria por mais de um ano).
O Sr. Alvino botou a serraria pra trabalhar e pediu que fizesse uma perícia nos documentos; verificou-se que os documentos eram todos falsos. O Tribunal Capixaba tentou dar posse ao Sr. Onofre, mandou um coronel capixaba que veio só pra conversar em boas maneiras com o Sr. Alvino. O coronel disse ao Sr. Alvino que assinasse a posse e requeresse um mandado de segurança contra o Sr. Onofre. Nós dissemos ao Sr. Alvino pra não assinar e estava de posse. O coronel disse que vinha com polícia, veio mas a polícia mineira não deixou dar posse. O Tribunal Capixaba quando constatou que os documentos eram falsos, deu ganho de causa ao Sr. Alvino.
Em vista de haver atrito entre um e outro estado, os governadores dos estados do Espirito Santo e Minas Gerais que nesse tempo eram o Dr. José de Magalhães Pinto e o Dr. Francisco Lacerda de Aguiar resolveram acabar com o contestado. Fizeram um acordo e acabaram, os deputados não quiseram assinar na carta, mas eles fizeram uma marca da divisa perto de S. Francisco, que ficou dividido daquela data em diante não houve mais atrito entre os estados.

(adendo da página 13 segunda parte, páginas do caderno numeradas, que ele mesmo numerou, mas que eu não dividi aqui nesta reprodução) Que assinasse a posse ao Sr. Onofre e requeresse um mandado de segurança contra ele. Nós dissemos que não assinasse a posse, porque estava de posse. O coronel disse a (ele) que ficararia pior para ele e daí a três dias veio.
Mas o Sr. Valdir pediu providências e três caminhões de polícia do Sexto Batalhao (vieram) pra Itabirinha. Quando chegou o coronel, a polícia mineira estava aquartelada dentro da serraria. O coronel capixaba veio com os oficiais de justiça para dar posse ao Onofre. O advogado do Sr. Alvino disse que na qualidade de advogado da firma não assinaria a posse. O coronel disse que ele fizesse como quizesse, o coronel capixaba foi-se embora. O Sr. Alvino requereu uma perícia nos documentos no Rio de Janeiro; constataram que eram falsos. aquela corte capixaba resolveu dar posse ao Sr. Alvino por unanimidade de votos."




A Parte do adendo está meio confusa, mas conservei como está no original. Para mim, explicar com detalhes os acontecimentos narrados acima, é um tanto difícil, pelo fato de eu ser criança na época e não ter conhecimento de todos os detalhes.
Sei que o homem a quem ele se refere que era tio do motorista de um dos caminhões e que confidenciou ao tio que viera buscar a oficina, era o Seu Sebastião Bastos, que morava do lado oposto ao Armazém do Carangola e perto da loja do Seu Oliveira Clara.
O conflito durou anos e a barricada aconteceu ainda quando morávamos no centro, na Rua Principal, sem número, a casa com o salão de costura que depois virou a Venda do Juca, meu primo.
O meu pai, que nunca andava armado e nem tivera arma depois que dera baixa como sargento do Exército, antes de se casar com minha mãe, agora tinha um revólver na gaveta do guarda-roupa, onde guardava as fotos, o anel de ouro, o relógio Omega com números florescentes e os livros dele.
Para organizar a barricada, meu pai convocou praticamente todos os moradores. Saiu na carroceria de um caminhão na rua principal, conclamando a população a impedir aquela arbitrariedade, como ele dizia. Apesar de ter o partido dele, era uma pessoa que se dava bem com todos, pica-paus e corta-guelas. Seu Wilson Berto, Seu Nêgo Laranjeira, o Pedro Pembeiro, entre os muitos de que não me recordo do nome, este último responsável por termos deixado de dormir em colchões de paina (que tinham que ser afofados sempre para não virar pedra), pois ensinou ao meu pai a difícil arte de amarrar molas e ajudou-lhe a fazer colchões para nós.
Lembro-me de que faziam reuniões na casa do Bêga para discutir estratégias e colocar em dia as notícias das novas tentativas do Onofre Moura, que não vinha pessoalmente, mas sempre representado por policiais capixabas, tentar levar a serraria. O único que realmente vi foi o irmão dele, um rapaz muito bonito chamado Divino, que, quando a polícia mineira obrigou a descarregar os caminhões, também estava lá descarregando. Minha tia Edil comentava que era um desperdício um rapaz tão bonito metido em encrencas.
Minha mãe ficava muito triste com os acontecimentos, pois a mãe do Seu Onofre Moura e do Divino, D. Maria Moura e as duas irmãs, Mariinha e uma outra, eram da nossa igreja, pessoas muito boas.
Infelizmente, anos depois, quando Onofre já estava velho e morava em Vitória, ainda se dizia que vendia terrenos na praia que não existiam ou cujos títulos os compradores nunca conseguiam, o que não sei se é verdade.


Na noite em que bateram lata a noite inteira, em que ficaram de prontidão esperando a polícia capixaba, que souberam, viria novamente para buscar a serraria, nossa casa ficou cheia de gente, dormindo em colchões e camas improvisadas. Eram os parentes que moravam na Rua da Serraria, onde, provavelmente, a batalha teria lugar, caso a polícia capixaba tivesse vindo. Ou, pelo menos, era onde ficava o objeto de toda aquela confusão, a Serraria do Seu Alvino.
Aqueles dias foram muito excitantes, especialmente para nós, as crianças. As ruas poeirentas do patrimônio estavam movimentadas com  vários pelotões do Sexto Batalhão de Polícia de Governador Valadres, marchando e gritando como se estivessem se preparando para uma guerra, cavando trincheiras nos morros em lugares estratégicos.
Ficaram hospedados na Pensão do Barbudo, que ficava localizada perto do rio e tinha uma pontezinha estreita e alta para cruzar para a outra margem. Os soldados pulavam da ponte lá embaixo, um atrás do outro, dentro do rio, como parte do treinamento.
Tia Edil, que morara com o tio João, que era Oficial da Polícia Militar, em Belo Horizonte, e namorara um dos colegas dele que também era policial, estava toda excitada, comentando em como era bonitão este ou aquele soldado.
Os policiais capixabas, contratados por Onofre Moura para levar a serraria, fizeram várias investidas, tentavam negociar, isto é, convencer o meu pai e outros de que tinham documentos apropriados para tal, mas meu pai conhecia um pouco de leis e nunca concordava com eles. Certa vez comentaram que naquele lugar tinha um "homem do zói regalado" (como os meninos do Seu Vandico o chamavam), que era "ardido como pimenta".


Uma das coisas das quais não me lembrava e que meu pai, já falecido, não escreveu no seu depoimento, é o teor da carta empunhada pelo Seu Wilson Berto, o chefe do diretório de um dos partidos na época (UDN ou PSD, não me lembro), na foto da barricada para cercar a polícia capixaba.
Em 2009, fiquei sabendo que o Seu Wilson Berto ainda estava vivo e morando em São Paulo. Consegui o telefone dele com o Zequita, seu irmão que ainda mora em Itabirinha, e liguei para ele. Estava na casa do Wilsinho, filho dele que nasceu depois que se mudou de Itabirinha. O neto dele atendeu. Expliquei para ele o motivo da minha chamada e ele colocou o Seu Wilson no telefone comigo. Não me deixou nem falar direito. Disse "Eu tô velho e cego, num sei de nada não". O neto pegou o telefone e expliquei para ele a minha pergunta. Ele repetiu para o Sr. Wilson que disse bem alto, que deu pra eu ouvir: "Era uma carta do povo de Itabirinha pro Juiz de Direito de Mantena, pedindo justiça no caso da serraria. Enfrentamos a polícia capixaba..." E concluiu "Heringe pobre a gente ajuda, Heringe rico não."  Valeu o telefonema.
Depois falei com a Eliete, filha dele, minha amiguinha de infância. Boa, como sempre. A mãe, Sadorce, já havia falecido e a tia Satita, com mais de setenta anos, toma conta do Seu Wilson na casa do Wilsinho.
O depoimento do meu pai, ele o escreveu porque eu pedi. Depois, na época da enchente de 1978, em que eu morava em Manhuaçu e estava em Laranja da Terra, ficando lá sem poder voltar para casa por uns quinze dias, escrevi em versos, tipo Literatura de Cordel, a história da Questão da Serraria Heringer, sob o título "Contestado", que foi publicado no Segundo Encontro da Família Heringer em Alto Jequitibá, em 1985. Entretanto, nunca tomei a iniciativa de realmente, pesquisar sobre o assunto ou entrevistar participantes na trama.


Tive a sorte de ter tido uma resposta tão pronta do Bêga em 2009, que se prontificou a escrever o seu testemunho também. Entretanto, o testemunho escrito (postado acima) se limitou `a compra da serraria e aos eventos que levaram ao início da demanda e a ratificar o testemunho do meu pai, cuja cópia lhe enviei.





Há alguns dias (Novembro/2011), liguei para a casa do Adalmário (Alemão), que assistiu `a prisão do Bêga e do Seu Alvino. Ele está com Alzheimer. Falei com ele pelo skype. Jane, sua filha, me mostrou pra ele na tela e perguntou: "Pai tem uma pessoa querendo falar com o senhor. Ele olhou e respondeu todo alegre: "Eugênia..." (irmã dele). Eu disse que não era a Eugênia, mas era parente dela e parecida com ela. "É a Nina, você lembra?" Ele disse que sim, mas dava pra perceber que não sabia de nada. Apenas sorria. Graças a Deus, não perdeu o senso de humor. Jane mostra uns pontos no queixo, do tombo que levara na véspera. As pernas estão fracas, mas ele insiste em sair andando. É muito alto e pesado, mesmo sem ser gordo. E quando cai, é a maior dificuldade pra levantá-lo. Eu perguntei se ele se lembrava de quando o Seu Alvino e o Bêga foram presos pela polícia capixaba... "O homem foi preso lá pela polícia da secretária?" ele perguntou, completamente alheio ao assunto. Lembro-me de que, anos atrás, o meu irmão Fábio disse que ele era fascinado com a história do Contestado, nome que dei ao meu livreto de cordel sobre esta história. O Fábio havia feito uma cópia dos manuscritos do meu pai para ele também, assim como fez para me mandar. Continuei explicando para ele que, lá em Vargem Grande, quando o Seu Alvino e o Bêga foram presos, ele se escondera no capô do caminhão e depois fora para Mantena pedir a ajuda do Prefeito Valdir Pereira, que ligou para Valadares, causando o Sexto Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais enviar três caminhões de soldados para Itabira...
Mas ele não dava sinal de que se lembrava de nada. Ria, e ria. e ria alto.
Resolvi então, lhe dizer apenas coisas que sabia, ele não entenderia, mas que eu me sentia bem em falar a ele: "Sabe Adalmário, a Etelvina, a Clarinda e eu somos muito gratas a você pelo carinho que sempre nos deu. Você carregava a gente no seu caminhão (carreta) de Itabirinha pra Valadares, de Valadares pra Itabirinha, isto quando já éramos maiores e já não morávamos em Itabirinha, mas passávamos férias lá, na casa dos tios. Lembra que você confundia eu com a Etelvina e para descobrir quem era quem, perguntava: Nina, cadê a Vina, ou Vina, cadê a Nina?" Ele apenas ria, sem parecer dar fé de nada. "Lembra que você ensinava a gente um joguinho de palavras:"O peito do Pedro é preto, o preto do Pedro..." Antes que eu terminasse, ele deu o maior grito: "É o peito do pé." Fiquei feliz de ver que ainda havia um resquício de memória, pelo menos no que concerne `a nossa experiência com ele...
Em três de dezembro de 2011, entrevistei o Bêga por telefone, que me passou informações complementares, as quais registrei como pude:
"A ação (demanda) começou em 1959 e levou três anos. O Onofre entrou com uma Ação de Despejo contra nós em Mantena, nós contestamos a ação. O juiz reverteu, dando ganho de causa para nós (Seu Alvino). Onofre entrou em Mantenópolis, sede do município pelo Espírito Santo. O juiz (barato, que aceita suborno) influenciado pelo promotor, que estava a favor do Onofre, deu ordem de levar as máquinas (serraria) para S. Francisco. Nosso advogado era o Dr. Domingos Jório e o do Onofre Moura um tal de Dr. Agesandro.

Quanto `a prisão em Vargem Grande, Bêga me disse que o Coronel Lauro Faria, Delegado de Barra de S. Francisco, estava indo num jipe, juntamente com um escrivão e um soldado, para Itabira, com a finalidade de buscar a serraria. Quando chegaram a Vargem Grande, viram o Seu Alvino e o filho Abgair (Bêga) que estavam entrando no ônibus, vindos de Mantena e os prenderam. Os dois tinham ido a Mantena conversar com o seu advogado, Dr. Domingos Jório, pois os caminhões estavam lotados com parte da serraria em Itabira, e só não haviam saído porque o povo havia feito a barricada para impedir a sua saída.  
Bêga não aceitou de bom grado a prisão. Perguntou ao coronel Lauro Faria por que estavam sendo presos e este respondeu: “Eu estou levando vocês pra amenizar uma situação que estão causando, impedindo a retirada da serraria…” 

“O senhor não sabe o que é que o senhor arrumou. Eu duvido que vai entrar em Itabira!”, referindo-se `a barricada. O povo estava de prontidão, esperando a Polícia Capixaba.  Nas pontes de acesso ao lugar haviam sido colocados galões de gasolina, e pessoas estavam de prontidão para incendiá-las em caso de tentarem chegar lá.
“Eu entro lá de qualquer jeito”, o coronel falou pro Bêga. 
Continuou a discussão e o coronel lhe disse que ele era muito duro, para não dizer teimoso.
Levou-os para Mantenópolis, a sede do município pelo Espírito Santo. Lá chegando, os trancafiou na cadeia.
Retomou o seu percurso rumo a Itabira. Só que quando chegou `a Barra do Funil, teve que parar para trocar um pneu furado.
Adalmário Heringer, o alemão, estava em Vargem Grande no momento em que ocorreu a prisão dos dois familiares, Seu Alvino e Abgair. Vira quando a polícia os colocara no jipe. Abriu o capô do caminhão e fingiu que estava consertando alguma coisa. Depois que o jipe partiu, tocou para S. João. Lá chegando, pediu ao Soldado Saldanha para ir a Mantena, avisar ao delegado o que havia acontecido.
O delegado de Mantena, sede do município por Minas Gerais, Capitão Leite, partiu  imediatamente em direção a Itabira.
Encontrou o delegado capixaba, coronel Lauro Faria, ainda trocando o pneu do jipe, e passou um esculacho nele, mandando-o de volta para Barra de S. Francisco.
Ele não teve outra alternativa a não ser obedecê-lo e, amedrontado com a situação, passou em Mantenópolis e falou com o juiz, Dr. Jó Pimentel: “Solta esses homens que o negócio lá deu todo errado".  Mas o juiz disse que não soltaria.
E o Bêga continua: “Veio o tenente Mauro e perguntou o que havíamos feito e eu lhe disse que não tínhamos feito nada, tínhamos sido presos quando estávamos entrando no ônibus, depois de uma parada em Vargem Grande.
Ele então perguntou pro juiz:
“Por que aqueles homens estão presos?”
“Por que estão tumultuando o distrito; não deixam sair as máquinas” (referindo-se `a serraria em Itabira).
“Eles não podem ficar presos. Se eles continuarem presos, vai ter uma revolta aqui dentro. O rapaz tem um cunhado que é coletor aqui em Mantenópolis”  (Zoroastro Machado Viana, concunhado do Bêga, casado com a Maria Olímpia, irmã da esposa do Bêga, Valderez).
"Aí chegou o Zoroastro, meu cunhado, e pediu ao juiz para deixar-nos presos em prisão domiciliar, na sua casa, até que tudo fosse esclarecido.
Ficamos na casa do Zoroastro e antes do dia amanhecer, um rapaz bate `a porta. Zoroastro abre e ele diz:
“O Dr. Jó (o juiz) diz que é pra você ir lá". 
“Diz pro juiz que quando amanhecer eu vou", Zoroastro disse pro moço.
Pela manhã, quando lá chegou, Dr. Jó Pimentel, o juiz, disse pro Zoroastro:
"Manda os homens irem embora, porque não conseguimos tirar nada lá (as máquinas da serraria). Quero que vocês tirem esses homens daí, porque eu não quero confusão…”
"Fomos até ao forum  e eu disse ao juiz", Bêga continua “Eu não vou embora não. Enquanto não chegar o nosso advogado, não vamos embora. Eu só saio daqui com Habeas Corpus. Não saio sem provas.” (Fiquei encantada com a sabedoria do parente).
“Quando deu nove horas, o meu tio Aldemar chegou (Seu Aldemar Ribeiro, irmão da D. Alzira, esposa do Seu Alvino, que morava em Mantena), com um advogado de Barra de S. Francisco. O advogado estava saindo para Vitória e disse a ele que se tivesse chegado quinze minutos depois, não o encontraria. O advogado falou pro juiz:
“Eu vim aqui soltar os presos.’
“Eles estão soltos.”
“Não, eles estão presos, em prisão domiciliar... e vim requerer um habeas corpus”
“Eu não vou assinar habeas corpus nenhum.”
"Não vai, não? Então eu já estava mesmo indo para Vitória, vou continuar minha ida para lá e vamos ver se o senhor não é obrigado a assinar o habeas corpus.
"Fomos pro forum.  Parecia que a cidade estava toda lá, tamanho era o número de curiosos."
Ainda faltavam nove horas pra completar o tempo de conceder-se habeas corpus, mas o juiz assinou assim mesmo.
Falei com o advogado:
“Cê vai lá e pede uma garantia para nós, porque pra gente ir daqui até Mantena, pode ter alguém na estrada pra cercar a gente.”
O  juiz mandou um soldado acompanhar a gente até `a divisa do município de Mantena".


Perguntei ao Bêga qual a  participação do Airle, irmão dele, no andamento dos fatos relacionados `a serraria, pois me lembro de que, quando escrevi o livreto de cordel a respeito, ele ficou desapontado por não ter a sua participação incluída. Eu lhe disse que não tinha conhecimento, e continuo não tendo. Bêga disse que, na época, Airle morava em Lajinha, e quando veio passear em Itabira, ele lhe contou como estava difícil a vida deles com a demanda. Airle e ele foram, então, a Mantena, conversar com o delegado, Coronel Leite. Ao apresentar o irmão ao delegado, os dois se cumprimentaram e, logo a seguir, o delegado perguntou ao Bêga se ele poderia deixá-los a sós na sala. Bêga saiu e ficou esperando... Conversaram durante um longo tempo, e quando o Airle saiu da sala, disse ao irmão: "Ô Bêga, o negócio agora vai mudar de tipo". Sabendo que o irmão era maçon, deduziu que o delegado também fosse e que já haviam descoberto só pelo toque de mão. Como de fato, as coisas começaram a caminhar bem mais facilmente depois disto.
É que, disse o Bêga, "Havia um mandado de apreensão (calculo que seja prisão) do juiz contra o Onofre, por falsificação de promissórias, mas como ele era maçon, a maçonaria não deixava a coisa andar. Aí, pra não prender nenhum membro deles (maçons), apertaram o Onofre para ele desistir da coisa. Prometeram de não atacar mais a causa.  (Onofre) foi tirado da Maçonaria."
Para mim foi uma surpresa ouvir esta informação que, calculo, nunca chegou ao conhecimento do meu pai (Norival). E ver que, naquelas bandas, até membros de uma instituição como a Maçonaria, se conluiavam com este tipo de arbitrariedade, para usar as palavras que ele mesmo, meu pai, usava para qualificar as estratégias usadas pelo Sr. Onofre Moura e a polícia capixaba naquela demanda.

Clarinda, minha irmã mais nova, assim descreve os eventos daqueles dias: "Lembro-me de que era ainda muito pequena, mimada por parentes e vizinhos e estava voltando da casa da D. Mariinha, que havia acabado de desocupar o forno com suas deliciosas guloseimas. Ela pediu-me que não passasse pela rua, mas pelo quintal, no portão que dava para a varanda dos fundos da nossa casa. Contudo, ouvindo o burburinho que se passava na rua, pedi a ela para me levar para ver.  Ela pegou-me pela mão e me levou para olhar lá fora, dizendo "Só podemos ficar aqui por um minuto, porque é muito perigoso." A visão que tive era totalmente inusitada. Armas levantadas com as pontas aparelhadas em círculo, no meio da rua. Então perguntei a ela "D. Mariinha, por que é que aqueles revólveres estão com as pontas para cima e as pontas têm facas (fuzil com baioneta)?" E ela suavemente, pondo o dedo indicador na boca disse "Clarinda, quietinha..." E levou-me para dentro da minha casa e me pôs no colo da minha mãe. 
-Mãe, por que tem tanto revólver com facas pra cima?
-São os soldados, minha filha. Fica aqui dentro de casa.
-Mas é grande, mãe, não é revólver pequeno.
-É fuzil...
Fiquei com muito medo, mas naquele momento, todas as conversas que eu ouvia sobre a serraria e a luta armada, começaram a fazer sentido e comecei a prestar mais atenção a tudo que era comentado dentro da nossa casa.
De repente eu me sentia como se estivesse num quartel general e minha cabeça ía assimilando informações preciosas que ainda hoje guardo fresquinhas na memória. Este quartel general já havia sido descrito a mim por meu pai que era um ex-militar, quando mostrava as fotos e contava os casos da sua vida de caserna. Mas por vezes eu sentia que éramos impotentes para ganharmos uma luta na qual não contávamos com a força bruta, sem as botas altas, das quais eu achava o nome muito estranho, coturno, que eu via nas fotos do meu pai jovem com paramentos militares. Eu não entendia que nós tínhamos também os militares a nosso favor. Somente depois de muito tempo, já adulta, fui entender que contávamos com mais do que material militar e bélico. Contávamos com valores morais de pessoas sensatas, que bem sabiam a diferença do certo e do errado."


Célia, minha colega de aula, filha do Seu Cardoso, que tinha uma loja em frente `a oficina mecânica do meu pai, reconheceu o irmão dela Sebastião, um menino virado de costas, na foto da Barricada. Disse que depois de passado o Conflito da Serraria Heringer, ela e outras crianças brincavam de esconder no morro atrás da casa do Bêga, perto da serraria, onde havia trincheiras feitas pelos soldados mineiros. Certa vez, escondeu-se numa destas trincheiras... Ficou quietinha dentro daquele buraco um tempão, esperando que a encontrassem, mas não apareceu ninguém. Tudo silencioso e já começando a escurecer, ela resolve sair. As outras crianças tinham ido embora há muito tempo.




Placa comemorativa da divisa de Minas e Espírito
Santo próximo a Barra de S. Francisco
Em 9 de dezembro de 1963, o Diário Oficial do Estado de Minas Gerais publicava a Resolução 569, do Governador Magalhães Pinto. Nela, estava definida, junto a "Lei 2084 do Estado do Espírito Santo", a linha divisória do município, entre os dois Estados ao norte do Rio Doce, com as delimitações que tem hoje.
Um monumento foi construído em Bananal, entre Mantena e S. Francisco, para marcar a divisa. 
Recentemente Itabirinha perdeu o de Mantena, ficando apenas Itabirinha. 
Agora não havia mais cartório, polícia, diretório político, nem escola capixaba. Interessante é que até hoje, a Escola Estadual tem o nome do governador do Estado do Espírito Santo "Governador Lacerda de Aguiar".
Na época eu era muito pequena para saber porque o meu pai havia se mudado para Itabira, que, agora pertencia a Minas Gerais e era Município de Mantena, passando a se chamar Itabirinha de Mantena, para diferenciar de Itabira do Mato Dentro, perto de Belo Horizonte.
                   
                                                




                                            República Heringer                                                              


Eu estava terminando o quarto ano e meus pais estavam preocupados, pois não havia como continuar os estudos em Itabirinha de Mantena. 
Meu pai pensava em me mandar para estudar no internato, em Alto Jequitibá, onde minha prima Marli estudava. Mas minha mãe achava difícil, pois era longe demais.
Então, o pastor da nossa igreja, Pr. Israel Louzada, cuja filha Léia, tinha sido minha colega, disse para a minha mãe que a Léia tinha ido para Mantenópolis passado no Curso de Admissão ao Ginásio, um curso de três meses, uma espécie de vestibular para entrar no ginásio. 
Em Mantena, as provas seriam na próxima semana. Eu não tinha frequentado o curso de três meses, mas como eu tinha notas melhores que as da Léia, ele aconselhou minha mãe a me levar para lá.
Eu não queria ir, nunca tinha ficado fora de casa e só tinha ido a Mantena uma vez, não conhecia ninguém lá. 
Mas ela me levou assim mesmo. Ficamos hospedadas na casa do Seu Emerick, pai da Orma do Mário, uma professora de Itabirinha, um casal muito bom. Dona Hilda fazia umas broas muito gostosas e o Seu Emerick gostava muito de cantar hinos. A filha mais nova do casal, que estava estudando para o teste de Admissão também, disse que me emprestaria os livros e estudaria comigo, naquela semana que restava antes do teste.
Eu disse pra minha mãe que não ficaria. Entretanto, ela fingiu que não ouvira.
Levou-me `a casa do diretor do Instituto do Povo, Professor Vítor Campos Queiroz. Na sala, enquanto minha mãe conversava com ele, eu sussurrava baixinho "Eu não fico..." Mas ela nem se incomodava, continuando a conversa.
Depois fomos `a secretaria da escola, onde ela me matriculou,  e ao fotógrafo para tirar fotografia para a escola.
Levou-me a uma loja, comprou uma saboneteira plástica daquelas que fecham com um clique e um arquinho de cabelo. Eu a seguia, emburrada, dizendo "Pode comprar, mas eu não fico", mas sabendo que ela não pararia.
Depois foi ao posto de saúde me vacinar e pegou vacinas para levar para Itabirinha. Era enfermeira por natureza, vacinou a criançada toda do lugar e algumas crianças cuja vacina contra varíola não havia pegado, ela vacinou novamente, usando a pústula formada no braço daqueles de quem havia inflamado. E a vacina pegava...


No dia seguinte, ainda com escuro, ela me acordou e, calmamente, começou a conversar comigo. "Quero que você saiba, me disse, que não vou te obrigar a ficar aqui, se você não quiser ficar. Apenas gostaria que você pensasse em como é importante estudar. Veja bem, as filhas mais velhas do Seu Emerick, que era um fazendeiro de bem, tiveram oportunidade de estudar e nem uma delas quis. Agora trabalham como costureiras em Brasília... Você decide se fica ou não...
Com os olhos cheios de lágrimas, respondi: "Eu fico". Não tinha outra opção.


Não estava preparada para o teste e tinha medo de não passar, mas decidi que faria o melhor que pudesse. 
Era um feriado. Depois que minha mãe saiu, perguntei `a garota quando começaríamos a estudar juntas e, para minha surpresa, ela me disse que não iria estudar comigo, nem me emprestar os livros. Fiquei tão desapontada e arrependida de ter ficado, que comecei a chorar.
Estava numa cidade onde não conhecia ninguém e não tinha como ligar para casa pois não havia telefone em Itabirinha. Além disto, estava chovendo copiosamente, o que aumentava a minha tristeza. 


A volta da minha mãe para casa foi uma verdadeira odisséia. Sairam de manhã de Mantena. As chuvas haviam destruído a estrada de chão. O ônibus foi agarrando e desagarrando no barro até que, `as quatro horas da tarde, chegando em Barra do Funil, atolou de tal modo, que não conseguiam desagarrá-lo. O motorista então falou: Não tem jeito. Vamos ter que passar a noite aqui". Havia apenas três mulheres no ônibus. Minha mãe, então falou pra elas: "Vamos embora a pé?" A fazenda do tio Joel ficava a uns dez quilômetros de distância. A noite estava tão escura que não conseguiam enxergar a estrada. As três caíram muitas vezes na lama e tiveram que dar-se as mãos para não se perderem uma da outra. 
Uma delas, ficou na fazenda do tio Adiles, que já estava morando na "rua" na época. Quando minha mãe e a outra chegaram na casa da Eniuza, sobrinha da minha mãe, a primeira casa na Fazenda do tio Joel, já eram quase nove da noite.
Eniuza emprestou-lhes roupas para vestir depois do banho, preparou-lhes o jantar e, quando já estavam deitadas, `as dez horas da noite, foi que o ônibus passou.
Minha mãe conta: "Você acredita que a bendita da mulher, não devolveu o vestido da Eniuza? Eu não conhecia ela, mas ela tinha família em Itabirinha. Eu fui uma porção de vezes lá. Chegava uma vez, ela não estava, no outro dia, estava para Valadares, no outro, estava pra não sei aonde. Foi indo até que eu desanimei. Ela escondia pra não entregar um vestido rodado e uma anágua. Jantô lá na Eniuza, a Eniuza fritô ovos para nós. Eu não quis comer não, porque já estava muito tarde. Ela comeu os dois e dormiu roncando. No outro dia, o Adalmário (esposo da Eniuza) ainda foi pra "rua" e levou a gente e ela nem reconheceu o que fizeram por ela".


No dia seguinte, fiquei sabendo que minha prima Elce também tinha vindo para Mantena para fazer o Teste de Admissão. Estava na Vila Nova, na casa de um tio-avô dela, Seu Aldemar Ribeiro, irmão da Dona Alzira do Seu Alvino, que não tinha parentesco nenhum comigo. Fui lá falar com ela.  A Elenice, filha do Seu Aldemar, havia lhe emprestado os livros. Passamos o dia estudando juntas. Elce era mais velha do que eu, muito inteligente, e me ajudou muito.
Estudamos juntas pelo resto dos dias antes do teste, além de assistir `as poucas aulas que restavam do Curso de Admissão ao Ginásio, que durava três meses, mas para nós foi de menos de uma semana, no Instituto do Povo. Nós duas passamos, a Elce com notas perfeitas, eu com cinco em Matemática, a matéria mais difícil para mim.


Acabei indo morar também na casa do Seu Aldemar Ribeiro. Mas depois de um tempo, ele e a família mudaram-se para Belo Horizonte, e eu e a Elce fomos morar na casa da D. Zeli Borges, professora no Instituto do Povo. Eu estudava de manhã, a Elce `a noite. Os pais da D. Zeli, Seu Manoel e D. Mariana, já eram idosos. D. Zeli lecionava `a noite e D. Mariana dormia cedo, depois de cozinhar durante o dia. Eu tinha muito medo, só havia luz elétrica nas ruas até `as dez da noite, algumas casas tinham luz a motor. Muitos assassinatos ocorriam na cidade, um deles, no dia sete de setembro, quase em frente `a casa. Seu Manoel não dormia cedo e eu ficava assentada nos pés da cama dele até a Elce chegar, pois não tinha coragem de ir para o nosso quarto sozinha, apenas com a luz de vela. Seu Manoel gostava muito de contar histórias, meu prato predileto. Seria perfeito se a maioria das histórias não fôssem de assombração...


Naquele ano, fiz o curso de datilografia na Escola Pratt de Datilografia, com a professora Aidê, uma moça que andava sempre de saltos altos, saias justas e meias finas escuras, rendadas, todo o tempo. 
Para mim, que só escrevia com lápis durante o curso primário, não tinha prática com canetas-tinteiro, `as vezes fazia a maior lambança, quando tentava encher a bomba da minha caneta.
Tinha um professor de Ciências que era o meu favorito, professor Mário, que trabalhava também num banco e andava de lambreta. Minha pior nota até hoje foi um 2,0 que tirei na primeira prova de Francês, que depois passei a amar e até hoje falo que dá para o gasto. Não me lembro do nome do professor, exceto que alguns especulavam a sua orientação sexual, baseados no fato de que ele usava calças com fecho-éclair (zípper) na braguilha, quando todos os outros homens ainda usavam botões.
Meu professor de Educação Física era o Seu Osvaldo, um sargento do Exército. Meu pai, que também tinha sido do Exército, se assustou, quando cheguei em casa cantando "Nobre Infantaria, arma de respeito, faz amedrontar... A fama levando, vamos espalhando, a nossa alegria... E junto ao Brasil está o fuzil da Infantaria". Esta era uma das músicas que, inocentemente, lideradas pelo entusiasmo do Prof. Osvaldo, cantávamos, enquanto faziamos os exercícios.
Roberto Carlos estava surgingo a toda velocidade com o seu "Calhambeque". E Altemar Dutra perguntava "Por que não paras relógio, não me faças padecer..." 
`As vezes, ia ao cinema para assistir filmes do Mazzaropi, como "Casinha Pequenina" e "O Lamparina",  e apenas via os cartazes dos filmes de Brigite Bardot, a linda atriz francesa de lábios cheios, que não tinha interesse de ver por terem cenas muito eróticas.  
A moda eram os vestidos decotados, nas costas, as pulseiras de ouro de bolinhas (e até bolonas), sandálias de couro  fininhas (entre o dedão e segundo dedo), com pérolas sobre a correia mais larga formando um T sobre o pé, saias plissadas e blusas de banlon. 
Nesta época também estava acontecendo um grande movimento de Renovação Espiritual nas igrejas evangélicas. A Igreja Batista Renovada ficava na rua do Instituto do Povo, próximo `a casa do Seu Emerick. Eu aprendia os corinhos que cantavam, enquanto eu estava passando, enquanto morei lá.

Uma das minhas melhores amigas era a Lurdinha, uma garota de Central de Minas. Certa vez, fui a uma festa de aniversário do pai dela, Seu Olegário de Freitas, na fazenda deles. Variedade de doces, mamão ralado, em pedaços, de leite... Nem sei quantos bois havia matado para alimentar tanta gente...
Depois de muitos anos, fiquei sabendo que Lurdinha, ainda jovem, havia falecido de um tumor na cabeça.


No ano seguinte, 1965, muitos dos primos em Itabirinha já haviam terminado o quarto ano primário e tinham que sair para estudar fora também. Tio Joel comprou uma casa em Mantena e trouxe a tia Elma para estudar e fazer companhia para os dez primos que formavam a República Heringer.
O mais velho dos primos era o Alair, que morara com o tio João em Belo Horizonte para estudar, e se dizia o papai da casa. Eu, a mais nova, tinha doze anos. Entre nós dois havia a Elce, Gilza, Adirlei, Jesonias, Paulo, Moacir, Altacir e Eula. Onze, contando com a tia Elma.
A casa que o tio Joel comprou pertencia a um senhor chamado Alexandre de Souza, que trabalhava na Receita Federal, que se mudou para a casa geminada com esta. D. Dirce Werner de Souza, a esposa dele, limpou a casa, encerou-a tão bem para nos receber que parecia que estávamos num palácio.


Em trinta e um de março de 1964, houvera no Brasil um golpe Militar para depor o então Presidente João Goulart, sob acusação de ser comunista. Meu pai estava viajando para S. Paulo de caminhão, juntamento com o Nonô Bicalho, não me lembro por que motivo. Quando chegaram em Três Rios, todas as rodovias estavam cercadas e tiveram que ficar lá por alguns dias.
Os núcleos comunistas que se formavam eram chamados de "O grupo dos onze" e como a nossa República tinha onze, contando com a tia Elma, as pessoas brincavam que também éramos um núcleo comunista.


Tendo em vista que a tia Elma, além de estar estudando também `a noite, fazendo a primeira série ginasial (eu e Elce estávamos na segunda, Alair não me lembro, mas já estava mais adiantado; os demais todos na primeira), gerenciava muito bem a nossa comunidade. 

Atrás: Alair, Gilza, tia Elma, Elce e Adirlei.
Frente: Altacir, Jesonias, Leonina, Moacir, Eula
 e Paulo 
Elce e Gilza revezavam na cozinha e na lavação de roupas, com a ajuda da tia Elma; eu lavava as vasilhas e passava as roupas menores. Eula também ajudava em tudo, mas não me lembro bem das suas funções. Os meninos, faziam carrinhos de latas de óleo, carretinha de carregar tora ou carroceria, com rodinhas de borracha de sandália havaiana,  eixos e tudo o mais. E o barranco em frente `a casa ficava todo cortado de estradinhas. Tocavam a bomba manual para encher a caixa d'água e, aos sábados, antes de saírem para jogar futebol,  enceravam a casa de uns oito cômodos, uma função pesada, pois tinham que dar lustro com escovão. Alair, o mais velho, já trabalhava no escritório de contabilidade do noivo da Elce, Obadias. Jesonias, apesar de estar na faixa etária do meio, era quem gerenciava as finanças, a caderneta de compras no Armazém Muniz, pagamento de contas de luz e água, distribuição das despesas, em geral.
Tio Joel mandou fazer uma mesa comprida, e, da uma da tarde até `as três mais ou menos, era o horário de estudo. Todos assentavam-se para fazer os deveres de casa e estudar. Um momento de silêncio que o Moacir e o Adirlei, os mais palhaços da casa, quase sempre desrespeitavam. Nem a tia Elma conseguia deixar de rir quando um olhava para o outro e começava "É o barulho da cachoeira... chuá... chuá...chuá..."
Obadias tinha um carro chamado Sinka Jangada, daqueles macios e confortáveis, além de um gravador com fitas de músicas variadas, inclusive americanas. Eu gostava de cantar uma música que, se não me engano era do Ray Charles  e que tinha um pedacinho assim "Ao ver a mamãe..." (All over my mind)...
Mas o gravador, além de ser usado para tocar os rolos de fita grandes e redondos, com músicas, servia também para gravar corridas de cavalo, que ele simulava, batendo com os dedos na mesa e narrando ao mesmo tempo. "Passou o cavalo branco..." Também estava sempre pegando alguém com o gravador. Tia Edil corria `as milhas pra não ser pega, até que um dia ele escondeu o gravador atrás da porta e gravou uma longa conversa dela. Quando passou toda a conversa, começamos a rir e ela disse pra ele: "Você me paga!!!"


Durante a semana, a casa parecia um restaurante, com arroz, feijão, angu, carne, verdura e tudo o mais no almoço e na janta, saído do fogão `a lenha. Mas, aos domingos, íamos para a Primeira Igreja Batista, a uns quinhentos metros da nossa casa, e, quando voltávamos,  comíamos uma jantarada, normalmente macarronada com carne e ovos cozidos, uma bacia enorme que devorávamos. 
Aí tinha os jogos de ping-pong, birosca e outros que atraíam uma turma de colegas dos meus primos.
Meu pai não vinha muito frequentemente, mas quando nos visitava trazia laranjas, mangas  e outras frutas. Tio Joel tinha negócios a tratar em Mantena e vinha sempre, trazendo um bocado de coisas, entre elas cachos e cachos de banana, que eram pendurados na despensa e maduravam todos de uma vez. Não sobrava uma para apodrecer. Também, tratar de dez adolescentes...
Depois o número caiu para oito, quando a Eula teve uma apendicite supurada e os pais dela e do Paulo, Bêga (o Abgair, filho do Seu Alvino) e Valderez, resolveram se mudar para Ipatinga.


                                               "O Carnaval"


Vou voltar um pouco no tempo aqui, para contar que o Pr. Israel, que havia me instruído a ir fazer o Teste de Admissão ao Ginásio em Mantena, mudou-se para Mantenópolis, para que a Léia e os outros filhos, eventualmente, continuassem os estudos sem ter que morar fora de casa. 
Depois que ele saiu, veio um novo pastor para nossa igreja. Pr. Genadir Freitas, que adorávamos, pois era muito amigo das crianças. Ele tinha dois filhos, Gessuy e Getson e três filhas, Glorinha, que na verdade era sobrinha mas considerada como filha, Dayse e Dulce. D. Hulda, sua esposa, estava grávida da mais nova, Genait. Quando visitava a nossa casa, que tinha uns dez pés de manga, comia manga verde com sal.  
Eles contavam que certa vez, um pastor americano que ficara hospedado na casa deles, ouvira a D. Hulda chamar o marido de "meu bem". Pensando que este era o nome dela, quando precisou de uma toalha de banho, não vacilou: "Ô meu bêin, pode me dar um toalha de banho?"
Gessuy era um ano mais novo do que eu e engraxava sapatos na rua. Um dia, meu pai chegou para engraxar com ele e estava calçando um sapato cuja cor da graxa, ele não tinha. Mas passou a graxa errada assim mesmo. Quando meu pai percebeu, falou: "Ô menino, cê quer que o meu sapato fique com cor de macaco sapecado?" 
Deu-lhe, então, dinheiro para ir comprar a graxa na cor apropriada. O garoto devolveu-lhe o troco, limpou a graxa que havia passado, engraxou com a graxa certa, mas no final, cobrou o preço normal, que o meu pai pagou sem reclamar.
Anos mais tarde, quando se tornou um rapaz e não tínhamos contato com a família dele já há muito tempo, encontrou-se com minha irmã Clarinda num Congresso da Juventude Batista Mineira, em Coronel Fabriciano e começaram a namorar. Éramos muitas primas e ele não se lembrava exatamente quem eram os pais da Clarinda.
Quando foi a Laranja da Terra pela primeira vez, logo ao chegar, reconheceu meu pai e ficou preocupado. "Ó meu Deus, este é o homem do sapato do macaco sapecado. Será que ele se lembra que fui eu que engraxei o sapato dele com a graxa de cor errada?"
Acabou casando-se com a Clarinda. Meu pai se lembrava, e os dois davam risada do fato. 


Gessuy era mesmo muito levado. O tio Jeronil, depois de se mudar para a rua, dizia ao pastor Genadir pra mandar os meninos lá na casa dele buscar manga. Gessuy e o Getson levavam sacos de manga para casa. Mas, de noitinha, voltavam para pular o muro e roubar mangas no quintal do tio Jeronil. 
Um dia, estavam em cima de um pé de manga, `a noite, quando o cachorro do tio Jeronil percebeu e foi lá. Latia muito e o tio ficou preocupado, indo ver o que estava acontecendo. Os dois não tiveram opção senão mostrar a cara, ou ficariam presos em cima do pé de manga. Tio Jeronil falou: "Mas meninos, eu já não dei manga pra vocês levarem hoje?"




Pastor Genadir dizia que os anos que passou em Itabirinha, pastor recém-ordenado que era, foram um desafio e de grande aprendizado para ele. A igreja estava acostumada com um tradicionalismo muito intenso. E imagino que foi mesmo. 
Só pra dar uma amostra, vou contar o caso da Genith.



"Genith era uma pessoa muito sofisticada para a vida pacata de Itabirinha de Mantena (o novo nome que o lugar ganhou, por já haver uma cidade com o nome Itabira, em Minas Gerais) onde o marido, Laurito, havia comprador o cartório do registro civil. Era baixinha e, talvez por isto, usava sapatos de salto alto, mesmo em casa. Cozinhava pratos diferentes da culinária local, onde quase todos os pratos eram quentes, arroz, feijão, angu, carne e verduras cozidas ou refogadas. Ensinou a minha mãe a preparar um “prato frio”, uma salada de vegetais, com beterraba, cenoura, batatinha. Minha mãe não usava plantar beterraba antes disto, na horta que tinha atrás da oficina mecânica do meu pai. Eu gostava mais da cor que a beterraba dava ao arroz do que do próprio sabor. Tinham uma kombi Volkswagen, provavelmente o único veículo do tipo micro-ônibus do lugar. O assunto dela também era diferente. Estava sempre falando sobre a capital, Belo Horizonte, possivelmente porque a filha mais velha, Neuza Maria, de uns oito anos, que tivera paralisia infantil, estava lá, se recuperando de uma série de cirurgias que sofrera. Já tivera até um osso de uma tia implantado na coluna, para tentar igualar o lado esquerdo, mais curto que o direito.

A filha mais nova, Neuzane, tinha uns cinco anos, e era tagarela e espuleta como só. Gostava de recitar poesias: “Comi ontem no almoço azeitonas de empadas; e coloquei o caroço sobre a toalha engomada…” Não me lembro da sequência, só da repreensão da mãe “ossos, caroços e espinhos, põe-se no canto do prato”. E do final “Mas, mamãe, repare bem, meu prato é todo redondo, que nem cantinho não tem”.
Genith era muito ativa na igreja, gostava de ensaiar peças para o Natal e outras datas especiais. Eu sempre participava, decorando longos textos; adorava dramatizar. Genith gostava das campanhas políticas. Subia na carroceria dos caminhões lotados de gente, cantando e gritando em favor do tio Joel, um dos candidatos na primeira eleição para prefeto. Nós, crianças, estávamos em todas; minha mãe não participava, mesmo sendo irmã de um dos candidatos.
Genith era diferente das outras senhoras do lugar também, por estar sempre doente. Não uma doença aparente; parecia saudável, mas, de tempos em tempos, tinha falta de ar, que requeria que as  pessoas que estivessem em volta dela, improvisassem leques para abaná-la, usando revistas ou folhas de papel. Poderia ser pressão alta, não me lembro, mas para algumas pessoas, era puro fingimento; fazia aquilo só para chamar a atenção. Minha mãe, apesar de não ser nada sofisticada, se dava muito bem com a Genith. Mas, algumas mulheres da igreja não simpatizavam muito com ela. Este era o caso da J.C., uma daquelas senhoras meio gorduchas, com um coque na cabeça, que, numa das assembléias ou “sessões regulares” da igreja, como chamávamos na época, decidiu denunciar ao pastor Genadir, as travessuras da irmã Genith. “Pastore, a irmã Genith pulou carnaval”, um absurdo para um membro de uma igreja batista. Também era inconcebível ir ao jogo de futebol aos domingos, mesmo fora dos horários de culto, ou ao circo tourada, em qualquer horário. Meu pai nunca ligou para estas restrições, ía ao campo de futebol quando lhe dava na telha, levava a gente pra assistir `a tourada e nunca alguém teve a coragem de denunciá-lo por nada. Também, era um homem muito correto, com muita afirmação pessoal e do zói regalado, pra repetir os meninos do Seu Vandico e o policial capixaba, e ninguém se atrevia a mexer com ele.
Todos olharam para a irmã Genith, que, na mesma hora, começou a ter dificuldades respiratórias, o que levou todas as pessoas assentadas perto dela a usarem revistas da Escola Dominical como abanadores. De fato, ela havia ou parecia ter desmaiado. Na realidade, a irmã Genith não havia participado em nenhum baile de carnaval, o que havia feito era sair na carroceria de um caminhão cantando músicas de carnaval que eram adaptadas para a campanha. Seu Lindolfo Bicalho era o compositor oficial do partido da UDN, ou "corta-goela", do qual o tio Joel era o candidato. Lembro-me da música “Ó jardineira por que estás tão triste?…” em que, no final era o Seu Ezequiel Lima, o candidato do PSD, ou "Pica-pau", que havia caído do galho, dado dois suspiros…”  Também "Barbaridade isto é bom que dá e dá, Ezequiel compra eleitor com uma quarta de fubá", acusações sem fundamento, pois, afora a política, Seu Ezequiel era uma pessoa honesta e amiga.  J.C. era do partido oposto ao da irmã Genith.
Tia Elzina, então, pediu `a minha irmã Clarinda, que tinha uns seis anos, que fosse correndo, `a Igreja Presbiteriana, chamar o Alemão (Adalmário), com o caminhão, para levar a Geni `a farmácia (não havia nenhum veículo na Igreja Batista naquela tarde). A irmã J.C., diante do desmaio da irmã Genith, resolveu retirar o que havia dito. “Como  de fato, pastore, a irmã Genith não pulou carnival…” Se a irmã Genith ouviu ou não a retratação, não sei, mas, na mesma hora, recuperou os sentidos. Tia Elzina, então, disse para a Clarinda, que já estava para sair, que não precisava mais chamar o Alemão na Igreja Presbiteriana. Foi nesta hora, que a irmã J.C. arrependeu-se de ter retirado a acusação e disse, outra vez, “A irmã Genith pulou carnaval sim”. A irmã Genith desmaiou novamente. Clarinda saiu correndo pra Igreja Presbiteriana.
No caminhão, uma carreta AC International, sentada no meio da cabina, no motor do caminhão, tão pequena que quase não conseguia colocar o pé no chão, Clarinda se sentia como rainha.  Adalmário conversa com ela, como se fosse com um adulto. “”Mas, Lindinha (o apelido dela), será que a Genith está doente mesmo ou está só fingindo?”
Quando Genith entrou na cabina do caminhão, já estava melhor e resolveu que não iria para a farmácia, mas direto para a casa. Clarinda foi junto, feliz por ir brincar com a Neuzane, filha da Genith, pela tarde, e por não ter que assistir ao restante da “sessão regular” da igreja, assentada nos duros bancos de madeira. Estas assembléias costumavam ser infindáveis, especialmente se fossem para eleger a nova diretoria. Não havia um planejamento prévio onde as pessoas eram apontadas para os cargos. O pastor ía falando dos cargos e alguém se levantava e dizia “Eu proponho o nome do irmão fulano”. Aquele irmão dizia que não aceitava e propunha o nome do “irmão cicrano”. Lembro-me de que, quando éramos ainda bastante pequenas, havia algumas pedras grandes no terreiro, que haviam sobrado da construção do templo.  Nós cortávamos capim e colocávamos em cima das pedras e brincávamos de botar, como se fôssemos galinhas, enquanto, lá dentro, os adultos estavam tentando eleger as pessoas para o cargo de “Presidente da Sociedade de Senhoras” ou Diretor da Escola Dominical. Ou então, decidindo mandar uma comissão para um membro que tivesse cometido alguma infração. Ou mesmo, excluir aqueles que persistissem no erro. Não me lembro se a irmã J.C. retirou a acusação contra a irmã Genith, quando ela desmaiou a segunda vez."




No ano seguinte, não retornamos para Mantena. Tio Joel, que já fora vereador por Mantena, havia se candidatado a prefeito de Itabirinha de Mantena, que tivera a sua primeira eleição,  como leram no relato anterior. Fora derrotado por uma grande margem de votos e ficara muito decepcionado. Mudou-se para Governador Valadares para que os filhos continuassem os estudos.
Na verdade, ele era um grande benfeitor do lugar, mas de político não tinha quase nada. Era muito franco e, `as vezes austero, com as pessoas. Se alguém lhe pedisse alguma coisa e ele soubesse que a pessoa não era muito amiga do trabalho, dizia: "ô sujeito, vai trabalhar que você arranja."
A derrota política foi uma das melhores coisas que aconteceram na vida do tio Joel. Em Valadares, os filhos tinham escola e outras amenidades. Tio Joel começou a fabricar carrocerias, um negócio que está  na família dele até hoje. Depois de alguns anos, quando já haviam passado dois prefeitos por Itabirinha, Seu Ezequiel Lima e Onésimo Coimbra, os dois partidos da época resolveram convidá-lo para ser candidato único, a prefeito. Desta vez foi eleito. Lembro-me do seu entusiasmo quando estava construindo o hospital em Itabirinha... A Léia, filha dele, fazia das tripas coração para ajudá-lo a conseguir verbas junto `a Câmara dos Deputados para melhorar a infra-estrutura do lugar. Infelizmente, a política tomou um rumo muito mau e acabou criando hostilidade desnecessária entre os partidos, que persiste até hoje.


Meu pai também, não sei se foi por causa da derrota política do tio Joel, com a qual também ficou muito decepcionado, pois achava que o tio Joel havia feito muito por Itabirinha e merecia o voto do povo, decidiu se mudar de volta para a região de onde viemos. Entrou de sociedade numa malharia, com o Antônio Sanglard, casado com uma prima dele, a Iraci, filha do Tio Quinquinho, irmão da vovó Etelvina, em Lajinha, Minas, próximo ao nosso córrego de origem, Laranja da Terra. 
Nesta última viagem a Laranja da Terra, a passeio, quando ele se decidiu que iríamos nos mudar, passamos em Governador Valadares e fiz exame de vista. Nunca experimentei um gesso no braço ou na perna, como o Moacir meu primo, que me causava inveja. Mas estava de óculos, que  me davam um ar diferente, importante. Na vinda para Itabirinha, a novidade foram as calças compridas; na volta, os óculos...